Taryag Mitsvot - Parte I

20/06/2019 10:15

 

TARYAG MITSVOT[1]

PARTE I

 

Por Tsadok Ben Derech

 

 

Introdução

Quando escrevemos o livro “Judaísmo Nazareno: o Caminho de Yeshua e de seus Talmidim”, demonstramos exaustivamente que Yeshua HaMashiach e os netsarim observavam a Torá. Na ocasião, além de citarmos inúmeros textos da B’rit Chadashá, também foram reproduzidos testemunhos históricos neste sentido.

Quanto a textos da B’rit Chadashá, Yeshua HaMashiach defendeu explicitamente a validade da Torá:

ܠܳܐ ܬ݁ܰܣܒ݁ܪܽܘܢ ܕ݁ܶܐܬ݂ܺܝܬ݂ ܕ݁ܶܐܫܪܶܐ ܢܳܡܽܘܣܳܐ ܐܰܘ ܢܒ݂ܺܝ̈ܶܐ ܠܳܐ ܐܶܬ݂ܺܝܬ݂ ܕ݁ܶܐܫܪܶܐ ܐܶܠܳܐ ܕ݁ܶܐܡܰܠܶܐ

ܐܰܡܺܝܢ ܓ݁ܶܝܪ ܐܳܡܰܪ ܐ݈ܢܳܐ ܠܟ݂ܽܘܢ ܕ݁ܰܥܕ݂ܰܡܳܐ ܕ݁ܢܶܥܒ݁ܪܽܘܢ ܫܡܰܝ̈ܳܐ ܘܰܐܪܥܳܐ ܝܽܘܕ݂ ܚܕ݂ܳܐ ܐܰܘ ܚܰܕ݂ ܣܶܪܛܳܐ ܠܳܐ ܢܶܥܒ݁ܰܪ ܡ݂ܶܢ ܢܳܡܽܘܣܳܐ ܥܕ݂ܰܡܳܐ ܕ݁ܟ݂ܽܠ ܢܶܗܘܶܐ

ܟ݁ܽܠ ܡ݁ܰܢ ܗܳܟ݂ܺܝܠ ܕ݁ܢܶܫܪܶܐ ܚܰܕ݂ ܡ݂ܶܢ ܦ݁ܽܘܩܕ݁ܳܢ̈ܶܐ ܗܳܠܶܝܢ ܙܥܽܘܪ̈ܶܐ ܘܢܰܠܶܦ݂ ܗܳܟ݂ܰܢܳܐ ܠܰܒ݂ܢܰܝܢܳܫ̈ܳܐ ܒ݁ܨܺܝܪܳܐ ܢܶܬ݂ܩܪܶܐ ܒ݁ܡܰܠܟ݁ܽܘܬ݂ܳܐ ܕ݁ܰܫܡܰܝ̈ܳܐ ܟ݁ܽܠ ܕ݁ܶܝܢ ܕ݁ܢܶܥܒ݁ܶܕ݂ ܘܢܰܠܶܦ݂ ܗܳܢܳܐ ܪܰܒ݁ܳܐ ܢܶܬ݂ܩܪܶܐ ܒ݁ܡܰܠܟ݁ܽܘܬ݂ܳܐ ܕ݁ܰܫܡܰܝ̈ܳܐ

 

17 Não pensem que vim afrouxar a Torá ou os Profetas. Não vim afrouxar, mas completar. 

18 Pois verdadeiramente eu lhes digo que, até que passem os céus e a terra, nem um yud ou uma linha passará da Torá, até que tudo aconteça.

19 Portanto, todo aquele que afrouxar uma destas menores mitsvot, e assim ensinar aos filhos dos homens, será chamado pequeno no Reino dos Céus. E todo aquele que praticar e ensinar esta [Torá ] será chamado grande no Reino dos Céus.

20 Porque eu lhes digo que, se sua justiça não exceder muito mais do que a justiça dos sof’rim e p’rushim, não entrarão no Reino dos Céus (Matay 5:17-19).

 

O Rabino Sha’ul, que é injustamente invocado pelos cristãos como tendo ensinado a abolição da Torá, em verdade, ressaltou a validade da Torá:

ܠܡܳܐ ܗܳܟ݂ܺܝܠ ܢܳܡܽܘܣܳܐ ܗܽܘ݂ ܡܒ݂ܰܛܠܺܝܢܰܢ ܒ݁ܗܰܝܡܳܢܽܘܬ݂ܳܐ ܚܳܣ ܐܶܠܳܐ ܢܳܡܽܘܣܳܐ ܗܽܘ݂ ܡܩܺܝܡܺܝܢܰܢ

"Por isso, invalidamos a Torá pela emuná? Absolutamente não!  Pelo contrário, nós cumprimos a Torá!" (Romanos 3:31).

 

A historiografia também corrobora o pensamento de que os netsarim guardavam a Torá.

Irineu de Lyon (130 a 202 DC) escreveu:

“Eles [os nazarenos]... perseveram na observância dos costumes que estão prescritos na Lei [Torá]...” (Contra Heresias, 1:26).

 

Na mesma direção é a pronúncia de Jerônimo (347 a 420 DC), que inclusive manteve contato pessoal com os netsarim:

“Os Nazarenos ... aceitam o Messias de tal maneira que eles não deixam de observar a Lei antiga [Torá].” (Jerônimo, Commentary on Isaiah, Is 8:14).

 

Ainda que tenha criticado severamente os nazarenos, por entender que o Cristianismo era a verdadeira religião, contrapondo-se ao Judaísmo seguido pelos discípulos judeus de Yeshua HaMashiach, Epifânio de Salamina atestou a crença dos netsarim acerca da Torá:

“Eles não têm ideias diferentes, mas confessam tudo exatamente como a Lei [Torá] proclama e na forma judaica, uma vez que eles ainda estão acorrentados[2] pela Lei [Torá] - a circuncisão, o sábado [shabat] e o restante. Eles não estão de acordo com os cristãos.” (Panarion 29).

 

Diante dos dois textos citados da B’rit Chadashá, sem prejuízo de tantos outros que relatamos na obra “Judaísmo Nazareno: o Caminho de Yeshua e de seus Talmidim”, bem como depoimentos históricos colacionados, conclui-se que os netsarim guardavam a Torá, razão pela qual devem estudar suas mitsvot e aplicá-las em termos práticos.

Uma vez que os nestsarim não nos legaram um livro com a listagem de todas as mitsvot da Torá e respectivos comentários, faz-se mister a investigação do tema à luz de diversas expressões do pensamento judaico, tanto do Judaísmo Antigo (Judaísmo pré-rabínico) quanto do Judaísmo Rabínico, confrontando as informações angariadas com a Torá e a B’rit Chadashá. Nosso objetivo é analisar as mitsvot da Torá sob ótica de expressões multifacetadas do Judaísmo e definirmos como os netsarim modernos podem implementar a observância da Torá em termos práticos.

Segundo a tradição judaica, a Torá é composta de 613 mitsvot, e é justamente este o nosso objetivo: estudar cada uma destas mitsvot, colacionando opiniões israelitas diversas e filtrando-as debaixo da égide da halachá de Yeshua HaMashiach e de seus talmidim.

 

613 mitsvot da Torá

É fato frisado e repetido no Judaísmo que a Torá é composta de 613 mitsvot, e a reiteração desta ideia é tão grande que é comum os judeus a repetirem sem conhecerem a origem e os fundamentos da criação de uma lista de 613 mitsvot, uma vez que a Torá nada menciona a respeito.

Consoante o dogma do Judaísmo Ortodoxo, YHWH revelou a Moshé no monte Sinai que a Torá seria composta de 613 mitsvot. Neste sentido, escreveu o Rabino Avraham Tsvi Beuthner:

“Nossa fonte de vida é a Torá – a sabedoria e a vontade Divina que nos foram reveladas diretamente por D’us há mais de 3300 anos no Monte Sinai, com todos os seus 613 mandamentos.” (Os 613 Mandamentos Divinos, editora Beith Lubavitch, 2013, página 10).

 

 Não obstante, no âmbito da academia, estudiosos judeus contestam o referido dogma de que a Torá conta com 613 mitsvot.

Vale, então, analisar a origem da ideia de 613 mandamentos.

Prima facie, importante registrar que diversos estudiosos se empenharam na leitura e na tentativa de codificação das leis da Torá. Enumerações dos mandamentos da Torá são encontrados não apenas nos círculos do Judaísmo rabínico, mas até mesmo entre autores caraítas, samaritanos e cristãos.

Na literatura do Judaísmo Antigo, ou seja, nas fontes israelitas escritas antes da destruição do Segundo Templo no 70 DC, não há a enumeração das mitsvot da Torá, nem mesmo alguma assertiva no sentido de que a Torá é composta de 613 mitsvot.

Até mesmo nas fontes primitivas do Judaísmo Rabínico, o tema carece de maior consistência, como afiança Marc Herman em sua tese de doutoramento:

“No entanto, como um todo, a literatura rabínica dificilmente sustenta a alegação de que a Torá contém 613 mandamentos e o Talmude Babilônico nunca aborda a questão do que constitui um mandamento para os propósitos dessa enumeração”[3].

 

Mesmo quando os rabinos divergem se uma lei deve ser considerada uma mitsvá, eles não enumeram os mandamentos da Torá, conforme se verifica em Tosafot Sotá 3a.

Curiosa a constatação de Ephraim Urbach ao estudar manuscritos da literatura rabínica: apesar de o número 613 aparecer em muitos lugares das publicações de livros judaicos, manuscritos originais destas passagens falam tão somente em “todos os mandamentos” ou frases similares, em vez da expressão “613 mandamentos”[4]. Ou seja, nas obras originais de antigos rabinos não havia a menção a 613 mandamentos, havendo posteriores interpolações dos escribas e o acréscimo da cláusula “613 mandamentos”. As edições supervenientes, ao alterarem o texto original, reforçaram na mentalidade coletiva a tese de que a Torá possui 613 mitsvot.

Ou seja, no Judaísmo Antigo não havia a ideia de que a Torá consistia em 613 mandamentos e até mesmo no Judaísmo Rabínico não há sólida base para se afirmar isso. Não há menção na literatura do Judaísmo do 2º Templo (Literatura Apócrifa, Pseudepígrafa, Livros judaicos não canonizados, Manuscritos do Mar Morto etc), nem na Mishná, Tosefta, Sifra, Sifre e no Talmud Yerushalmi, somente aparecendo, como veremos, na Guemará do Talmud Bavli.

É praticamente certo que Yeshua HaMashiach e seus talmidim estudavam a Torá e suas mitsvot, mas não se empenharam na tentativa de sistematizá-la em forma de código e nem mesmo ensinaram que as mitsvot se resumem a 613.

A única antiga passagem - mas de toda sorte é de séculos depois da destruição do Segundo Templo - que sustenta a ideia da existência de 613 mitsvot reside no Talmud Bavli, Makot 23b e 24a:

Rabi Simlai expôs: 613 mandamentos foram ditos por Moshé: 365 mandamentos negativos[5], correspondentes aos dias do ano solar; e 248[6] mandamentos positivos[7], correspondentes ao número de partes do corpo humano.

Disse Rav Hamnuna: Qual verso [diz isto]?

 Moshé nos ordenou a Torá como herança (Dt 33:4). A Torá na guemátria é 611. ‘Eu sou’ [YHWH, teu Elohim] e ‘Não terás’ [outros deuses] (Ex 20:2-3) da boca do Poderoso nós ouvimos.

 

No texto citado, o fundamento utilizado para se chegar à tese de que a Torá possui 613 mitsvot se extrai do seguinte raciocínio:

a) a palavra Torá (תורה) possui valor na guemátria de 611 (ת = 400; ו = 6; ר = 200; ה = 5; 400 + 6 + 200 + 5 = 611);

b) Nas tábuas recebidas por Moshé contendo Asseret HaDibrot (Os Dez Ditos/Dez Mandamentos), os dois primeiros mandamentos são: 1) Eu sou [YHWH, teu Elohim] e 2) Não terás outros deuses (Ex 20:2-3). De acordo com a tradição rabínica, inicialmente, YHWH falou todos os 10 Mandamentos de uma só vez, algo que seria impossível para o homem entender e compreender (Rashi sobre Ex 20:1). Depois, o ETERNO pronunciou os mandamentos individualmente para permitir que os israelitas os ouvissem. Todavia, eles ouviram diretamente de Elohim apenas os 2 (dois) primeiros mandamentos, e os outros 8 (oito) foram ouvidos apenas por Moshé, que os repetiu ao povo de Israel, tal como o fez em relação ao restante da Torá. Ramban, ao comentar Ex 20:7, explica que isto é muito claro a partir da gramática hebraica e dos próprios versos: os dois primeiros mandamentos são ditos na primeira pessoa (YHWH falando), enquanto os outros oito mandamentos se referem a YHWH falando na terceira pessoa, ou seja, quem está falando era Moshé. Consoante os comentários de Maharsha[8], pautado em antigas fontes, o primeiro mandamento (“Eu sou YHWH”) é a fonte de todos os 248 mandamentos positivos, enquanto o segundo mandamento (“Não terás outros deuses”) é a fonte de todos os 365 mandamentos negativos. 

c) Conclusão: somam-se os 611 da palavra “Torá” (item “a”) com os 2 primeiros dos 10 mandamentos por terem sido ouvidos diretamente por todo o povo de Israel (item “b)”: 611 + 2 = 613.

De acordo com o contexto do texto sub examine, parece-nos que o número 613 é, na feliz expressão de Naomi G. Cohen[9], “um número simbólico e não matemático”, denotando que resulta de uma combinação de dois números simbólicos (365 e 248), inexistindo na passagem talmúdica em questão a tentativa de enumerar e classificar a Torá como um todo.

Por que os números são simbólicos?

Porque os rabinos usam os números 365 e 248 com fins metafóricos, explicando que os 365 mandamentos negativos dizem respeito ao número de dias do ano, como se cada dia falasse ao ser humano: “Não cometa uma transgressão hoje”; enquanto os 248 mandamentos positivos se referem ao número de ossos ou órgãos importantes do corpo humano, como se cada osso ou membro dissesse ao homem: “cumpra um preceito comigo”[10]. Ou seja, a declaração de 613 mandamentos feita pelo Rabino Simlai seria uma agadá, uma história com a intenção de transmitir uma determinada lição moral (homilia rabínica), sem a pretensão de estabelecer uma halachá sobre o tema.

Assim sendo, no texto do Talmud em análise, o Rabino Simlai usou 613 como a soma de dois números simbólicos (365, representando os dias do ano e 248, representando as partes do corpo humano), e não como uma enumeração e sistematização de todas as leis da Torá. Depois que o Rabino Simlai estabeleceu o número 613 como derivado do somatório dos números simbólicos 365 e 248, Rav Hamnuna buscou justificar a existência do número 613 por meio da guemátria e da soma dos dois primeiros dos dez mandamentos.

Segundo Sefat Emêt[11], o número de dias do ano e das partes do corpo possui um significado que vai além da coincidência com o número de mitsvot: tal como existem partes do corpo sem as quais a pessoa não vive (ex: cérebro e coração), sem as mitsvot a pessoa está espiritualmente morta.

Interessante observar que outras fontes judaicas não associam os 365 mandamentos negativos com os dias do ano, mas sim com o número de tendões do corpo humano (Targum Yonantan sobre Gn 1:27 e Zohar, Vayishlach 170b).

Na continuação da discussão talmúdica em Makot 24a, outras enumerações da Torá são referidas em termos simbólicos e não como uma tentativa de racionalização sistêmica das mitsvot:

“Foram dados a Moshé (Moisés) seiscentos e treze mandamentos...

Veio David e os estabeleceu como onze. Pois está escrito: Salmo de David. YHWH, quem pode hospedar-se em tuas tendas? Quem pode habitar em teu monte sagrado? (1) Quem anda com integridade (2) e pratica a justiça, (3) e fala a verdade no coração, e (4) não calunia com a língua (5), e não faz mal a seu próximo, (6) e não difama seu vizinho, (7) despreza o ímpio com o olhar (8) mas honra aos que temem YHWH, (9) e é responsável por seus juramentos sem se retratar, (10) não empresta dinheiro com usura, (11) nem aceita suborno contra o inocente. Aquele que assim fizer jamais vacilará (Sl 15:1-5)...

Veio Yeshayahu (Isaías) e estabeleceu os mandamentos como seis, como está escrito: (1) Aquele que pratica a justiça (2) e fala o que é reto; (3) despreza o ganho da opressão, (4) recusa-se a aceitar suborno, (5) tampa os ouvidos para não ouvir falar em crimes de sangue, (6) e fecha os olhos para não ver o mal (Is 33:15)...

Veio Michá (Miquéias) e os estabeleceu como três, como está escrito: YHWH te mostrou, ó homem, o que é bom e o que YHWH exige de ti: (1) apenas praticar a justiça, (2) e amar a bondade, (3) e caminhar humildemente com teu Elohim (Mq 6:8)...

Veio novamente Yeshayahu (Isaías) e os estabeleceu como dois, como está escrito: Assim diz YHWH: (1) Praticai a justiça, (2) observai o que é direito (Is 56:1).

Veio Amos (Amós) e os estabeleceu como um, como está escrito: Assim falou YHWH à casa de Israel: procurai-me e vivereis (Am 5:4).

Chavakuk (Habacuque) veio e estabeleceu-os como um, como é dito: O justo viverá por sua fé (Hc 2:4)”.

 

Obviamente o número de mandamentos atribuídos aos profetas são simbólicos, porquanto seria inconcebível pensar que YHWH ensinasse aos profetas Chavakuk e Amos que a Torá consiste em apenas 1 (um) mandamento!

Da mesma forma, quando Yeshua afirmou que os mandamentos mais importantes da Torá são (1) amar a YHWH e (2) amar ao próximo (Mc 12:28-31), não estava descartando os outros, como incorretamente pensam muitos cristãos. Valeu-se Yeshua da mesma técnica dos profetas de detectar quais seriam os mandamentos principais e que serviriam de fundamento para todos os demais mandamentos da Torá.

Na passagem talmúdica citada, detecta-se que os rabinos citam os profetas enumerando mandamentos da Torá de forma simbólica, e não com a intenção de se chegar a um número exato de mitsvot, excluindo-se as demais. Disto se confirma a conclusão que os números de mandamentos referidos no Talmud são tratados em termos metafóricos, e não como se fossem um catálogo exaustivo, matemático e sistêmico.

O Rabino Avraham Ibn Eza (1089 a 1164 DC), em livro destinado a listar e discutir as leis da Torá, escreveu que os mandamentos da Torá são ilimitados e não se resumem a 613:

“Verdadeiramente, não há limite para as mitsvot, tal como diz o Sefer Tehilim (Livro de Salmos): ‘Toda a perfeição eu vejo que tem fim, mas a tua mitsvá é muito ampla [ilimitada]’ [Sl 119:96]. Por outro lado, se nós contarmos apenas os gerais, os fundamentais e que foram determinados como obrigatórios para todas as épocas[12], as mitsvot não são feitas em 613[13].

 

Para Ibn Ezra, o número de mandamentos é indefinido, podendo chegar a mais ou menos de 613, dependendo dos critérios adotados.

Afiançou o Rabino Yehudá Ibn Bal’am (século XI), proeminente rabino espanhol e exegeta, que o número de mandamentos para todas as épocas não chega a 613.

O Rabino Levi Ben Gershon, conhecido como Ralbag (1288 a 1344), dissertou que Maimônides fez um grande esforço para se chegar aos 613 mandamentos, mas este número contém apenas uma “pequena aproximação” das mitsvot da Torá, e o Rabino Simlai “não se preocupou em ser preciso em sua exposição” (Ralbag sobre Shemot, Bô, 194). Preconizou Ralbag:

“Assim como os rabinos costumavam tirar um verso de seu contexto para extrair dele uma lição de ética [mussar tov], assim também este estudioso [R. Simlai] trata com certa leveza essa soma [613] para poder extrair dela as extraordinárias lições éticas que derivam dessa soma, [a ideia] de que todo membro de um ser humano, por assim dizer, diz: ‘cumpra comigo uma mitsvá’, e todo os dias do ano solar advertem: ‘não transgrida’ [hoje]. Sendo este o caso, é claro que se os mandamentos fossem apenas parecidos com este total numérico [de 613], isto serviria para que se possa deduzir esta lição ética: não é preciso insistir na sua exatidão [literalmente: para se chegar à deficiência ou excesso]”.

 

Shim’on Tsemach Ben Duran (1361-1444), notável rabino em matéria de halachá, também discordou do número de 613 mitsvot, alegando que o Rabino Simlai não estava decidindo algo em termos de halachá, razão pela qual inexiste força normativa quanto às 613 mitsvot.

Moshé Ben Nachman (Ramban), famoso rabino sefaradita que viveu entre 1194 a 1270, em seu comentário ao Sefer HaMitsvot, examinou a possibilidade de a declaração do Rabino Simlai sobre os 613 mandamentos não ser aceita necessariamente por outros Amoraim[14], chegando a cogitar que se tratava de uma contagem pessoal de Simlai. Porém, concluiu que o conceito de 613 mitsvot é tão difundido em diversas fontes rabínicas que deve estar respaldado em alguma antiga tradição, in verbis:

“... em razão da difundida natureza desta contagem... nós diremos que foi uma tradição entregue a Moshé no Sinai”[15].

 

Por todo o exposto, a questão de quantos mandamentos compõem a Torá possui a seguinte divergência doutrinária:

1ª Corrente: o ETERNO revelou a Moshé no monte Sinai que a Torá seria composta de 613 mandamentos, sendo 248 positivos e 365 negativos. Quando o Rabino Simlai afirmou no Talmud (Makot 23b) que a Torá possui 613 mandamentos (248 + 365), estava transmitindo uma antiga tradição oral que lhe fora passada;

2ª Corrente: o Rabino Simlai não utilizou o número 613 em um sentido literal, mas sim alegórico, apenas com a finalidade de estabelecer uma ligação entre a Torá e as partes do corpo humano (248) e os dias do ano solar (365), ou seja, trata-se de uma agadá (interpretação homilética e alegórica).

Esta divergência doutrinária gera a seguinte dúvida: existiu previamente uma tradição oral sobre a existência dos 613 mandamentos e isto foi posteriormente incorporado no Talmud, ou a assertiva do Talmud foi quem criou uma tradição em torno dos 613 mandamentos?

Pessoalmente, parece-me que o número de 613 mandamentos não é exaustivo, sendo seu sentido meramente simbólico. Tendo em vista que a Torá contém a ilimitada sabedoria de YHWH, é possível extrair por dedução outras importantes mitvsot que vão além das 613 catalogadas por Maimônides. Citam-se alguns casos, mas que obviamente não excluem outros:

1) a mitsvá de shimchá (alegria, entusiasmo otimismo). Fundamento: “amarás YHWH, teu Elohim, de todo o teu coração” (Dt 6:5). Aliás, o Rabino Nachman de Breslov afirmou que é uma mitsvá a shimchá;

2) a mitsvá de ser humilde. Fundamento: “Ora, Moshé era um homem muito humilde, mais do que qualquer outro sobre a terra”. (Nm 12:3). Ora, se a humildade foi apreciada pelo ETERNO, tanto é que distinguiu Moshé dos outros homens, então, trata-se de uma mitsvá;

3) a mitsvá de ter shalom no coração. Fundamento: “YHWH sobre ti levante o rosto e te dê shalom (Nm 6:26).

4) a mitsvá de ter kavaná (intenção genuína no coração para cumprir as mitsvot). Fundamento: “amarás YHWH, teu Elohim, de todo o teu coração” (Dt 6:5);

5) mitsvá de crença e obediência ao Mashiach. Fundamento: “Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. De todo aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas” (Dt 18:18-19). Aliás, a mitsvat assê 172 é “ouvir/obedecer tudo aquilo que falar um profeta de qualquer geração” (לִשְׁמֹעַ מִכָּל נָבִיא שֶׁיִּהְיֶה בְּכָל דּוֹר וָדוֹר), e o Mashiach é o profeta de YHWH!

Estes são apenas alguns exemplos de tantos outros que poderiam ser extraídos da Torá. Portanto, aqueles que servem ao ETERNO não devem se limitar à lista oficial dos 613 mandamentos, precisam ir além! Aliás, a definição clássica de chassid (piedoso) vem do comentário de Rashi sobre Pirkê Avot 6:1, no sentido de que chassid é aquele que vai além da letra da Torá; é aquele que faz mais do que a Torá exige.

Na própria B’rit Chadashá, os talmidim praticaram e ensinaram inúmeros preceitos éticos que vão bastante além da lista dos 613 mandamentos segundo Maimônides.

Portanto, à luz do pensamento dos netsarim, os 613 mandamentos são apenas um ponto de partida para o crescimento espiritual, e não um destino derradeiro! Não se resumem os 613 mandamentos em uma lista hermética, mas sim em um número simbólico que abre portas para o aprendizado e o cumprimento de inúmeras outras mitsvot que proporcionam a união mística do homem com YHWH.

Em que pese a divergência doutrinária citada acerca do número 613 (literal ou simbólico), com base na passagem talmúdica citada, formou-se na mentalidade rabínica a ideia que a Torá possui exatamente 613 mandamentos, e tal tese se tornou tão propalada que na Idade Média diversos estudiosos judeus passaram a elaborar listas codificando as 613 mitsvot, em que pese a diversidade do conteúdo de cada lista.

As primeiras tentativas de enumerar os mandamentos aparecem em piyuṭim (poemas litúrgicos) conhecidos como azharot (“advertências”). Alguns deles contêm menos do que 613 mandamentos, enquanto outros listaram os 613, apesar de conterem catálogos diversos. O objetivo de tais poemas litúrgicos era de instruir os judeus nas sinagogas acerca do conteúdo essencial dos mandamentos da Torá. Já que a liturgia judaica se pauta no princípio da repetição de textos diariamente, haveria a maior assimilação das mitsvot por meio da recitação das azharot.

Marc Herman sustenta que a ideia de compor compêndios catalogando os mandamentos parece ter sido de origem caraíta, e não rabanita. Afirma o estudioso que, no final do século X, o caraíta de Jerusalém Yefet Ben Eli afirmou que os proto-caraítas Anan Ben David e Benjamin al-Nahawandi foram os autores dos “Livros dos Mandamentos”, ou seja, códigos legais que passaram por este título, mas não organizados em torno de qualquer tipo de enumeração dos mandamentos. Isto sugere que um dos ímpetos por trás das primeiras obras rabanitas, compostas por Saadia ben Yosef, conhecido como Saadia Gaon (882 a 942 DC), e Shemu’el ben Ḥofni (século XI), foi a competição com os caraítas.

Saadia Gaon (882 a 942 DC) escreveu uma lista com 613 mandamentos para corrigir listagens anteriores. Afirmou que, apesar de o catálogo dos 613 mandamentos ser dificilmente “um princípio indispensável”, optou por elaborar a lista com o fito de retificar os erros de outros autores. Saadia Gaon escreveu Azharot para Shavuot, no qual todos os 613 mandamentos são distribuídos sob os títulos de cada um dos Dez Mandamentos. Em sua obra, Saadia Gaon não analisa meticulosamente cada um dos 613 mandamentos, mas apenas os cita e fornece a referência de sua fonte nas Escrituras.

Uma das mais influentes listas dos mandamentos consta na obra Gedolot Halachot, atribuída a Shim’on Qayyara (século IX), conhecido como Behag.

Chefetz Ben Yatzliach (final do século X) foi autor do Livro dos Mandamentos, listando e explicando as mitsvot em detalhes.

Importante observar que o Judaísmo vigente adota o catálogo dos 613 mandamentos codificados por Moshé Ben Maimon, conhecido como Maimônides ou Rambam (1135 a 1204 DC), no Sefer HaMitsvot (Livro dos Mandamentos), tornando-se tal lista o “padrão oficial” das diversas comunidades judaicas.

A padronização dos 613 mandamentos segundo Maimônides é tão forte na concepção judaica que muitos ignoram que antes e depois de Rambam existiram diversos outros rabinos que apresentaram listagens alternativas, propondo mitsvot diversas.

Maimônides abordou a ideia de 613 mitsvot de maneira profundamente nova em seu Sefer HaMitsvot (Livro dos Mandamentos), escrito em judaico-árabe. Ele prefaciou este trabalho com catorze princípios metodológicos e defendeu suas decisões sobre a enumeração. Maimônides também criticou interminavelmente as enumerações de seus predecessores, atacando as enumerações encontradas em Halachot Gedolot, bem como nas obras de Chefetz Ben Yatsliach e Saadia Gaon.

Dependendo dos critérios empregados na contagem das mitsvot, chegar-se-á a listagens distintas. Como exemplo, a Torá prescreve o dever de amar o próximo (Lv 19:18) e o dever de amar o “guer” (estrangeiro ou convertido) (Dt 10:19). Pode-se entender que ambos os preceitos configuram uma única mitsvá no sentido de amar toda pessoa. Todavia, Maimônides entendeu que existem 2 (duas) mitsvot distintas:

1) a mitsvá de amar o próximo (Lv 19:18), compreendida como o dever de amar o seu irmão na fé, isto é, o dever de amar o judeu - mitsvá positiva nº 206;

2) a mitsvá de amar o convertido ao Judaísmo (Dt 10:19) – mitsvá positiva nº 207.

Percebe-se que Rambam dividiu o mandamento de amar em duas categorias (amar o judeu e amar o convertido ao Judaísmo), excluindo o dever de amar os gentios não-convertidos. Esta concepção contraria a halachá ensinada por Yeshua HaMashiach, que ensinou o dever de amar até mesmo os nossos inimigos (Mt 5:44), inferindo-se daí que a prescrição de amar o próximo (Lv 19:18), segundo Yeshua, inclui todos os seres humanos, e não apenas os judeus e os convertidos ao Judaísmo, como sustenta Rambam.

Com efeito, Maimônides não enxergava como mitsvá da Torá a expressão de amor aos gentios.

Em Mishnê Torá, Leis sobre os Homicídios 2:11, Maimônides afirma que alguém que mata um judeu está sujeito à pena de morte, mas quem mata um gentio não é passível de tal pena.

Escreveu ainda:

“Quanto aos gentios com os quais não estamos em guerra ... a morte deles não deve ser causada, mas é proibido salvá-los se estiverem perto da morte; se, por exemplo, um deles é visto caindo no mar, ele não deve ser resgatado, pois está escrito: ‘nem tu ficarás contra o sangue de teu companheiro’ - mas [um gentio] não é teu companheiro” (Mishnê Torá, Leis sobre os Homicídios 4:11).

 

Outra declaração infeliz de Maimônides merece ser reproduzida:

“a natureza [dos turcos e dos negros] é como a natureza dos animais mudos e, de acordo com a minha opinião, eles não estão no nível dos seres humanos” (Guide For the Perplexed, Book III, Chapter 51).

 

Israel Shahak, Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, traduziu odienta passagem de Maimônides que é omitida pelas modernas publicações:

“É um dever exterminá-los [os infiéis] com as próprias mãos... Tal como [os infiéis] Jesus de Nazaré e seus discípulos, e Tzadok e Baitos [os fundadores dos saduceus] e seus discípulos; que o nome dos ímpios apodreça” (Jewish History, Jewish Religion, 2005, página 24).

 

Eis as palavras do Mashiach que são totalmente opostas ao ensinamento de Maimônides (Mt 5):

43 Vocês ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.

44 Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos; e abençoem quem os amaldiçoa; e façam o bem a quem os odeia; e orem por aqueles que os tomam com violência e os perseguem;

45 para que possam se tornar filhos do seu Pai que está nos céus, que levanta seu sol sobre os bons e sobre os maus, e desce sua chuva sobre os tsadikim e sobre os injustos.

46 Porque se amarem aqueles que os amam, qual lhes será a recompensa? Eis que também não fazem isto os cobradores de impostos?

47 E se saudarem com shalom apenas os seus irmãos, o que farão de mais? Eis que também não fazem isto os cobradores de impostos?

48 Portanto, sejam vocês perfeitos, como o seu Pai que está nos céus é perfeito.

 

Retornando ao Sefer HaMitsvot de Rambam, esta obra tem por característica a enumeração e a explicação dos 613 mandamentos à luz da jurisprudência judaica, sem se ater a questões litúrgicas, como é o caso das Azharot, e a digressões filosóficas analíticas.

Embora o Sefer HaMitsvot de Maimônides seja considerado nos dias modernos a obra fundamental sobre os 613 mandamentos, não ficou imune de críticas após sua confecção, surgindo livros posteriores que o contestaram e buscaram uma enumeração “correta”. Nesta senda, citam-se como críticos de Maimônides os Rabinos Daniel Ben Saadia HaBavli (século XIII) e Moshé Ben Nachman, conhecido como Ramban ou Nachmânides (1194 a 1270 DC), além dos clássicos Derech Mitsvotecha de Yehudá Rosanes (1657 a 1727 DC) e Minchat Chinuch de Yosef Babad (1801 a 1874 DC). 

Em 1878, o grande estudioso judeu austríaco Adolf (Aharon) Jellinek (1821 a 1893) publicou um pequeno panfleto chamado “Quntres Taryag”, identificando cerca de 144 (cento e quarenta e quatro) obras dedicadas à enumeração dos mandamentos. Tal fato demonstra que os 613 mandamentos segundo Maimônides não são uníssonos no pensamento judaico, podendo ser revistos e criticados.

Destarte, chegam-se às seguintes conclusões:

1) a Torá não afirma que é composta de 613 mandamentos, mas isto não anula a importância de estudar as suas mitsvot, inclusive por meio da tentativa de elaborar uma lista contendo o seu catálogo e sistematizando seus preceitos e a forma de cumpri-los;

2) não há no Judaísmo Antigo uma listagem enumerando os mandamentos da Torá;

3) a origem da ideia de 613 mandamentos surgiu no Talmud, cuja compilação terminou por volta do ano 500 DC;

4) o Talmud extrai o número 613 do somatório dos números 365 e 248, fazendo-o aparentemente em termos agádicos, e não haláquicos[16];

5) o Talmud não lista quais seriam os 613 mandamentos;

6) na Idade Média, surgiram diversas obras que catalogaram os 613 mandamentos, embora haja diferenças entre as listagens elaboradas;

7) o número de mandamentos da Torá dependerá de quais critérios sejam utilizados para classificá-los, e esta diversidade pode implicar em elencos diferentes dos 613 mandamentos ou até mesmo em relações contendo mais ou menos do que 613 mandamentos;

8) o Sefer HaMitsvot de Maimônides sistematizou 613 mandamentos da Torá, listando-os e indicando a fonte nas Escrituras;

9) apesar de o Sefer HaMitsvot ter recebido críticas de rabinos posteriores, tornou-se a obra mais famosa no Judaísmo acerca dos 613 mandamentos, e seu catálogo é visto como o “padrão” dentro da religião judaica;

10) se até mesmo alguns rabinos se opuseram ao Sefer HaMitsvot de Rambam, com mais razão os netsarim podem estudá-lo e até mesmo criticá-lo, pautando-se no Tanach e na B’rit Chadashá, porquanto a halachá do Judaísmo Nazareno não é, em certos pontos, idêntica à do Judaísmo Rabínico.



[1] Outra forma de se referir aos 613 mandamentos é por meio da palavra mnemônica Taryag (תריג), já que esta possui o valor numérico de 613. Assim sendo, Taryag Mitsvot significa 613 mandamentos

[2] Epifânio, um dos “pais” da Igreja Católica, era inimigo dos nazarenos e, por tal razão, usou esta expressão depreciativa:  “estão acorrentados pela Lei”. Na verdade, a Lei (Torá) não aprisiona ninguém, mas sim é um instrumento de bênçãos. Sha’ul (Paulo) escreveu: “Assim, a Torá [Lei] é santa; e o mandamento, santo justo e bom” (Romanos 7:12). Obviamente, se a Torá é santa, justa e boa, não produz mal ao ser humano, e sim bênçãos.

[3] “Systematizing God’s Law: Rabbanite Jurisprudence in the Islamic World from the Tenth to the Thirteenth Centuries” (University of Pennsylvania, 2016).

[4] [3] Ephraim Urbach, The Sages: Their Concepts and Beliefs, trans. Israel Abrahams (New York: Varda Books, 2006), 343.

[5] Mandamentos negativos são aqueles que determinam a proibição da prática de alguma conduta (ex: não assassinarás, não adulterarás, não furtarás etc).

[6] Na Mishná, Ohalot 1:8, é dito que as partes internas do corpo humano são 248, e há a enumeração de tais partes. Por sua vez, o Targum Yonantan sobre Gn 1:27 também afirma que Elohim criou Adam (Adão) com 248 membros. Na Guemará (Yoma 85b), o Rabio El’azar fala dos 248 membros do corpo humano. Destas informações, extrai-se que havia na tradição judaica o pensamento de que o homem possui 248 partes em seu corpo.

[7] Mandamentos positivos são aqueles que prescrevem a obrigação de se praticar alguma conduta (ex: fazer tsedaká, amar o próximo, repreender o pecador etc).

[8] Rabino Sh’muel Eliezer Edeles (1555-1631).

[9] Naomi G. Cohen, “Taryag and the Noahide Commandments,” Journal of Jewish Studies 43, no.1 (1992): 47

[10] Neste sentido é a lição de Rambam em sua introdução ao Sefer HaMitsvot.

[11] Obra escrita pelo Rabino chassídico Yehudah Aryeh Leib Alter (1847 a 1905)

[12] Segundo Maimônides, os seus 613 mandamentos são aplicáveis em quaisquer épocas. Ainda que Maimônides tenha enumerado várias mitsvot relativas ao Templo, que já não existia em seu tempo, pensava o filósofo judeu que tais mandamentos são obrigatórios em todas as épocas, mas não estariam sendo aplicados por um fato circunstancial. Todavia, se o Templo fosse reconstruído, os mandamentos a ele relativos seriam perfeitamente exequíveis.

[13] Yesod Mora veSod Torá.

[14] Amoraim (literalmente: Oradores ou Intérpretes) foram os rabinos que promoveram inúmeras discussões entre os anos 200 a 500 DC, em Israel e na Babilônia, sendo que seus debates foram compilados e terminaram por gerar a Guemará.

[15] Nahmanides, Hasagot, Regra 1, Sefer ha-Mitsvot, ed. Frankel, 13-15.

[16] O Talmude contém um oceano de informação com assuntos da mais variada natureza. No Judaísmo, basicamente se classificam as declarações talmúdicas em duas categorias: 1) halachá e 2) agadá. As declarações haláquicas (halachá) versam sobre a aplicação prática da lei judaica, enquanto as declarações agádicas (agadá) não possuem qualquer conteúdo legal (não se preordenam a determinar uma conduta positiva ou negativa), sendo de natureza exegética, homilética, ética ou histórica, inclusive por meio de contos, parábolas e estórias.

 

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