Yom Kipur e a Kapará pelo sangue do Mashiach

06/09/2013 22:06

Yom Kipur e

a Kapará pelo sangue do Mashiach

 

Por Tsadok Ben Derech

 

 

Eu amo minha esposa e, sinceramente, gostaria de nunca magoá-la. Entretanto, quantas vezes fui duro e falei palavras que a magoaram? E as condutas que a desagradaram? Infelizmente, foram tantas...

Contudo, nosso amor é maior do que nossas fraquezas, e o desejo de reconciliação supera os erros. Corrigindo os defeitos, aparando as arestas, como nos amamos, quão felizes somos! 

Yeshayahu (Isaías), Hoshea (Oseias) e tantos outros profetas compararam o relacionamento entre o ETERNO e Yisra’el com o casamento. Afinal, Yisra’el é a noiva e a esposa de YHWH (leia todo o contexto de Is 49:18, 62:5 e Jr 2:2,32 e 33:11; Jr 31:30-33, nas versões cristãs: Jr 31:31-34).

Nós, que somos a esposa errante, temos um marido que é perfeito, chamado YHWH, o criador dos céus e da terra. Nosso esposo nunca falha, porém, pecamos contra Ele. Em decorrência, precisamos nos arrepender, necessitamos mudar hábitos incorretos, devemos buscar a reconciliação. Embora isto deva ser feito todos os dias, há um tempo especialmente preparado para isto. É como se o arrependimento diário fosse um ato preparatório para uma grande renovação das bodas. Trata-se de Yom Kipurim, o dia em que choramos e arrependemo-nos aos pés do nosso Amado.

Yom Kipurim, mais conhecido como Yom Kipur (“dia da expiação” ou “dia do perdão”), é a data em que, no mundo inteiro, o povo do ETERNO jejua completamente pelo período de 24 (vinte e quatro) horas, sem nada comer ou beber, afligindo a alma e buscando o perdão de YHWH. Eis o que dispõe a Torá:

“Falou mais YHWH a Moshé [Moisés], dizendo:

Mas aos dez dias desse sétimo mês será yom hakipurim [“o dia das expiações”]; tereis santa convocação, e afligireis as vossas almas [com jejum]; e oferecereis oferta queimada a YHWH.

E naquele mesmo dia nenhum trabalho fareis, porque é yom hakipurim [‘o dia das expiações’], para fazer expiação por vós perante YHWH vosso Elohim.

Porque toda a alma, que naquele mesmo dia se não afligir, será extirpada do seu povo.

Também toda a alma, que naquele mesmo dia fizer algum trabalho, eu a destruirei do meio do seu povo.

Nenhum trabalho fareis; estatuto perpétuo é pelas vossas gerações em todas as vossas habitações.

Shabat [Sábado] de descanso vos será; então afligireis as vossas almas; aos nove do mês à tarde, de uma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso shabat [sábado].” (Vayikrá/Levítico 23:26-32).

 

Consoante a leitura do texto, percebe-se que Yom Kipur é caracterizado pelos seguintes elementos:

1) celebra-se no décimo dia do sétimo mês (Nm 29:7), de acordo com o calendário bíblico, e não com o atual calendário gregoriano (católico romano);

2) há um jejum absoluto (água e comida) pelo período aproximado de vinte e cinco horas, de um dia para o outro (obs: no calendário bíblico, o dia se inicia e termina no anoitecer);

3) o afligir da alma com jejum tem por finalidade reconciliar-se com o ETERNO, mediante a expiação de pecados. Embora não esteja escrito literalmente, o entendimento rabínico é no sentido de que somente há expiação se ocorrer o verdadeiro arrependimento, isto é, se de fato a pessoa abandonar o pecado e retornar (teshuvá) para Elohim. Dizendo de outro modo, o mero ato de jejuar, sem arrependimento, não é idôneo à kapará (expiação) dos pecados;

4) a festa de Yom Kipur é um estatuto perpétuo, inferindo-se daí que temos o dever de observá-la.

No Judaísmo, o período de dez dias compreendido entre Yom Teruá (Rosh HaShaná) e Yom Kipur é conhecido como Iamim Noraím (Dias Temíveis), porque são dias em que o ser humano deve estar com mais temor diante do ETERNO, refletindo sobre todos os seus atos cometidos no ano que se passou. É como se YHWH desse um prazo para o homem arrepender-se, e por tal motivo estes dez dias também são chamados de Asséret Iemê Teshuvá (os Dez Dias de Arrependimento).

Lamentável dizer que muitos cristãos (nem todos) têm um conceito incorreto de arrependimento. Acham que é suficiente “a confissão dos pecados para Deus e automaticamente suas transgressões são perdoadas por meio do sangue de Jesus”. Não!

À luz do pensamento semita, o arrependimento (teshuvá) somente será aceito por Elohim caso exista uma real mudança de comportamento.  Aliás, a palavra hebraica teshuvá (תשובה), traduzida como “arrependimento”, significa literalmente “retorno”, ou seja, o homem abandona o caminho do pecado e faz teshuvá (retorno) para o caminho de Elohim, que é a sua Torá.

Contemporâneo de Yeshua HaMashiach, o filósofo judeu Filo de Alexandria (25 A.C. a 50 D.C) escreveu que o sincero arrependimento deriva de uma autocensura e vergonha pelos atos cometidos, levando o pecador a mudar seus caminhos (teshuvá): 

“Eles devem sentir vergonha por toda a sua alma e mudar seus caminhos; repreendendo-se por seus erros e confessando abertamente todos os seus pecados com as almas e mentes purificadas, de modo a expor consciência com sinceridade, e tendo também a língua purificada de modo a produzir melhora em seus ouvintes” (De Execratione, capítulo VIII).

“Não [há perdão] sem a sinceridade de seu arrependimento, não apenas por palavras, mas por obras; a convicção da alma é quem cura a doença e a restaura para uma boa saúde” (De Victimis, capítulo XI).

 

Mister se faz citar o rabino Benjamin Blech:

“Confessar sem mudar é aceitar as más ações como um aspecto inalterável do nosso comportamento. O pecador diz: ‘O que você quer de mim? Não posso ser melhor do que isso; sou tão somente um ser humano’. A condição humana é utilizada como desculpa para não se esforçar em assumir maiores responsabilidades.

(...)

De nada servirá o Dia do Perdão para aquele que disser: ‘Irei pecar e o Dia do Perdão irá me perdoar automaticamente.’

Talmud, Iomá 8:9” (O Mais Completo Guia sobre o Judaísmo, editora Sêfer, páginas 164 e 165).

 

Se alguém diz que se arrependeu, porém continua cometendo os mesmos pecados, então, nunca houve o verdadeiro arrependimento.

O mesmo raciocínio foi tecido pelo judeu Yochanan (João):

“Aquele que continua pecando é de HaSatan [Satanás], porque HaSatan [Satanás] vem pecando desde o princípio. Por esta mesma razão, o Filho de Elohim apareceu: para destruir as obras de HaSatan [Satanás]. Nenhuma pessoa que tem Elohim por Pai permanece no pecado, porque a semente plantada por Elohim está nele. Isto é, ele não pode continuar pecando, porque tem Elohim por Pai. Desta forma sabemos quem são os filhos de Elohim e quem são os filhos de HaSatan [Satanás]: quem não faz o que é certo não procede de Elohim” (Yochanan Álef/1ª João 3:8-10).

 

Para o shaliach (emissário) citado, quem continua no pecado é filho de HaSatan. Afinal, o que é pecado? Explica Yochanan (João):

“Todo aquele que continua a pecar transgride a Torá – de fato, o pecado é a transgressão da Torá” (Yochanan Álef/1ª João 3:4).

 

Logo, percebe-se com nitidez vítrea que o raciocínio de Yochanan é similar ao do Talmud: somente são perdoados aqueles que efetivamente abandonaram o pecado.

Ante as Escrituras, a Torá é vista como o caminho que indica a vontade de Elohim; e o pecado como o caminho errado. Fazer teshuvá (retornar) significa deixar a trilha errônea e passar a seguir a vereda da justiça, que é a Torá.

Asseverou-se que Yom Kipurim (ou Yom Kipur) é o dia das expiações dos pecados daqueles que realmente se arrependem. Curial explicar o significado escriturístico de Kipur, traduzido para a Língua Portuguesa como “expiação”.

O vocábulo Kipur, da família de kapará, provém da raiz hebraica כפר, com extensa plurivalência semântica. Significa cobrir, apaziguar/pacificar, fazer compensação, remover, anular, resgatar, propiciar, reconciliar, redimir, oferecer um substituto, fazer expiação, purificar, perdoar, obter misericórdia. Todos estes sentidos são admissíveis para a interpretação do Yom Kipur, o que denota a riqueza da Língua Hebraica.

No Tanach (Primeiras Escrituras), a kapará, consoante os vários sentidos acima apresentados, não exigia necessariamente o ato de derramamento de sangue.  Eis alguns exemplos:

a) Ya’akov (Jacó) fez kapará com Esav (Esaú) por meio de presentes (Bereshit/Gênesis 32:21);

b) prestação pecuniária foi usada para fazer kapará, sendo aplicadas as verbas nos serviços da Tenda do Encontro (Shemot/Êxodo 30:15-16);

c) no episódio do bezerro de ouro, Moshé (Moisés) fez kapará pelos pecados do povo por meio da oração (Shemot/Êxodo 32:30-35; vide a kapará em Ex 32:30);

d) o próprio ETERNO fez a kapará por seu povo Yisra’el (Devarim/Deuteronômio 21:8).

Estes são alguns dos muitos outros exemplos que poderiam ser dados de kapará sem derramamento de sangue. Contudo, aprende-se com o Sefer Vayikrá (Livro de Levítico) que o sangue assumiu papel fundamental para a kapará dos pecados. Em Levítico, enfatiza-se o sangue derramado de animais, constando 88 (oitenta e oito) passagens com a palavra דם (sangue). A importância vital deste foi bem retratada no seguinte pasuk (verso):

כִּ֣י נֶ֣פֶשׁ הַבָּשָׂר֮ בַּדָּ֣ם הִוא֒ וַאֲנִ֞י נְתַתִּ֤יו לָכֶם֙ עַל־הַמִּזְבֵּ֔חַ

 לְכַפֵּ֖ר עַל־נַפְשֹׁתֵיכֶ֑ם כִּֽי־הַדָּ֥ם ה֖וּא בַּנֶּ֥פֶשׁ יְכַפֵּֽר

 

Nossa tradução:

“Porque a vida da carne está no sangue. E eu tenho dado para vocês sobre o altar para כפר (expiação, perdão, substituição) sobre suas vidas, pois o sangue é a vida para fazer כפר (expiação, perdão, substituição).” 

(Vayikrá/Levítico 17:11).

 

Esta passagem é parafraseada pelo Talmud Bavli, no massechet Zevachim:

Certamente a expiação [kapará] só pode ser feita com o sangue, como ele diz: pois é o sangue que fará expiação [kapará] em virtude da vida!” (m.Zevachim 6a).

 

Novamente encontramos Vayikrá/Levítico 17:11 sendo citado no Talmud:

“Será que a imposição da mão [na cabeça do animal] faz a expiação [kapará]? Não. A expiação [kapará] vem através do sangue, como é dito: Pois é o sangue que faz expiação [kapará], em virtude da vida!” (Talmud Bavli, massechet Yoma 5a).

 

Seguindo a mesma diretriz talmúdica, os Ketuvim Netsarim (Escritos Nazarenos/“Novo Testamento”) também asseveram que a expiação (kapará) vem pelo sangue, acrescentando que somente o sangue do Mashiach é capaz de realizar kapará:

“Ele [Yeshua] não o fez por meio do sangue de bodes e bezerros, mas pelo próprio sangue, libertando, desta forma, seu povo para sempre. Se a aspersão de pessoas cerimonialmente impuras com o sangue de bodes e touros, e as cinzas de uma novilha, restauravam-lhes a pureza exterior, quanto mais o sangue do Mashiach, que, pela Ruach eterna, se ofereceu a Elohim como sacrifício imaculado...

Por causa dessa morte, ele é o mediador de uma Nova Aliança.

(...)

Pois, segundo a Torá, quase todas as coisas são purificadas com sangue; de fato, sem derramamento de sangue não há perdão de pecados [= Lv 17:11]” (Ivrim/Hebreus 9:12-15,22).

 

É interessante observar que o autor de Ivrim/Hebreus citou a Torá (Lv 17:11) da mesma forma que os rabinos do Talmud, lecionando que é necessário o derramamento de sangue para se fazer a kapará (expiação/perdão).

Todavia, o Judaísmo Normativo vigente costuma atacar o Judaísmo Nazareno, alegando que não é bíblico o conceito de o Mashiach morrer para realizar kapará (expiação) pelo povo. Será verdade?

Yeshayahu/Isaías 53 fala do servo sofredor do ETERNO, um justo que leva sobre si o pecado de muitos por meio de sua morte:

“Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos.

Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Elohim, e oprimido.

Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz shalom [paz] estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas YHWH fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.

Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.

Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido.

E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca tenha cometido violência, nem houve engano na sua boca.

E YHWH desejou moê-lo, fazendo-o sofrer; quando a sua alma fizer oferta pela culpa, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e a vontade de YHWH prosperará na sua mão.

Depois do sofrimento sua alma verá [a luz][1] e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si.

Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; e ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores.” 

(Yeshayahu/Isaías 53:1-12).

 

Quem é o servo do ETERNO, o justo que leva sobre si o pecado de muitos?

Explica o Judaísmo rabínico que tal servo é o povo de Yisra’el, e não o Mashiach. Erram os rabinos, pois não consultam a literatura do nosso próprio povo.

Citemos o Targum Yonatan, que reproduz com comentários o profeta Yeshayahu/Isaías:

CAPÍTULO 52, VERSO 13:

“Eis que prosperará o meu servo, o MASHIACH; será exaltado e engrandecido, e será muito fortalecido”.

CAPÍTULO 53:

“Quem acreditou em nosso relato? E a quem o poder do braço de YHWH foi revelado?

O justo será grande perante Ele, como ramos que brotam; como a árvore que envia suas raízes pelos córregos de água. Assim será a geração dos justos que se multiplicaram na terra, que têm necessidade Dele.

Seu rosto não será como o de uma pessoa comum, nem o Seu temor como o temor de um estúpido; porém, o santo esplendor será o Seu esplendor, todo aquele que o vir será agraciado por Ele.

Todavia, Ele será desprezado. Mas Ele cortará a glória dos perversos, eles serão fracos e miseráveis. Estávamos em desprezo e não estimávamos, tal como um homem com dor e doenças. E é como se Ele tivesse removido a face de sua Shechiná[2] sobre nós.

Por isso, Ele orou pelos nossos pecados, e as nossas iniquidades por causa Dele serão perdoadas. Nós fomos considerados esmagados, feridos por YHWH e afligidos.

Ele construirá a casa do santuário, que tem sido profanado por conta de nossos pecados. Ele foi entregue por conta de nossas iniquidades, e por meio de Sua doutrina o shalom [paz] foi multiplicado sobre nós, e por meio do ensino de Suas palavras os nossos pecados serão perdoados.

E todos nós fomos levados como a ovelha para o matadouro, todo aquele que trilhou o seu próprio caminho; aprouve a YHWH perdoar os pecados de todos nós por causa Dele.

Ele irá orar e Ele será respondido. Sim, antes Ele abrirá a boca, Ele será ouvido. Ele se entregará aos poderosos das nações como um cordeiro para o abatedouro, como uma ovelha diante de seus tosquiadores. Ninguém em sua presença abrirá a boca, ou falará uma palavra.

Ele irá reunir nossos cativos de suas aflições e dores, e quem poderá narrar as maravilhosas obras que Ele fará por nós em Seus dias?

Ele irá remover o governo das nações da terra de Yisra’el. Os pecados que meu povo tem cometido serão levados sobre Ele.

E Ele libertará o perverso do Guey Hinom, e [também] os ricos com tesouros obtidos por violência da morte do Abadon [Destruidor]. Aqueles que cometem pecados não irão permanecer [pecando], bem como aqueles que falam malícias com suas bocas.

E isto aprouve a YHWH para purificar e refinar o remanescente de seu povo, a fim de limpar suas almas de seus pecados, para que eles possam ver O REINO DE SEU MASHIACH, para que seus filhos e suas filhas possam se multiplicar e prolongar seus dias, e aqueles que guardam a Torá de YHWH irão prosperar por meio do prazer DELE.

Ele libertará as almas deles da servidão das nações, eles verão a vingança sobre seus inimigos, eles serão saciados com o espólio de seus reis. Por sua sabedoria, Ele justificará os justos, a fim de fazê-los guardar a Torá, e Ele orará pelos pecados deles.

Portanto, eu irei dividir para Ele o despojo de muitas pessoas, e os tesouros das fortificações; Ele dividirá o despojo, porque Ele entregará sua vida à morte, e Ele fará com que os rebeldes guardem a Torá; e Ele orará pelos pecados de muitos; e quanto aos transgressores, cada um será perdoado por causa Dele” (Targum Yonatan de Yeshayahu/Isaías 53).

 

No referido Targum, fala-se expressamente sobre o “Mashiach”, concluindo-se que o servo sofredor de Yeshayahu/Isaías 53 é o Mashiach. Logo, o profeta narra sobre a kapará (expiação, perdão) que é realizada pela morte de um justo que voluntariamente se entrega com este propósito, e este justo é o Mashiach. Apreende-se ainda com o manuscrito targúmico que a Shechiná (presença/manifestação do ETERNO) repousa sobre Ele (o Mashiach), o que possui conexão com os Ketuvim Netsarim (Escritos Nazarenos/“Novo Testamento”):

“porque nele [Yeshua HaMashiach] habita corporalmente a plenitude da elohut [divindade]” 

(Colossayah/Colossenses 2:9, traduzido do aramaico).

 

Rabinos renomados, do porte de Ramban e Abarbanel, também associam Yeshayahu/Isaías 53 ao Mashiach:

“Da mesma forma, Yeshayahu descreve ‘um homem de sofrimento e familiarizado com a doença’ (53:3), desprezado e zombado, mas por fim vingado, e considerado superior aos seus detratores. Segundo muitos comentaristas, esta imagem refere-se ao povo judeu, oprimido durante a galut [exílio] mas destinado a prevalecer sobre as nações gentias quando vier a gueulá [redenção]. Ramban e Abarbanel, no entanto, entendem Yeshayahu 53 como pertinente ao próprio Mashiach” (Os Dias de Mashiach, Menachem M. Brod, editora Chabad, página 99).

 

Em razão dos argumentos bosquejados, conclui-se que a morte do Mashiach para fazer kapará pelos pecados de muitos é um conceito tipicamente israelita.

Na Torá, após o pecado do bezerro de ouro (Ex 32), o ETERNO falou a Moshé (Moisés) que acenderia sua ira contra o povo, exterminando-o. Então, Moshé intercedeu por Yisra’el e pediu o perdão do ETERNO, propondo entregar sua própria vida em prol da comunidade: “Ah, se tu perdoasses o pecado! No entanto, se não o desejares, então, imploro-te, risca-me do teu Livro [da Vida] que escreveste!” (Shemot/Êxodo 32:32). Dizendo de outro modo, o justo Moshé ofertou sua vida como kapará dos pecados dos iníquos.

De acordo com a Jewish Encyclopedia (Enciclopédia Judaica), desenvolveu-se no Judaísmo antigo a ideia de que a morte de justos teria maior poder expiatório do que o sacrifício de animais no Beit HaMikdash (Templo):

“... maior poder expiatório do que todos os sacrifícios no Templo era o sofrimento dos eleitos, aqueles que eram servos e testemunhas do Senhor” (Jewish Encyclopedia, verbete “atonement”).

 

Filo de Alexandria, o ínclito filósofo judeu, fala do martírio heroico dos chassidim (piedosos), que teriam se inspirado na concepção de morte expiatória pelos pecados da coletividade (Quod Omnis Probus Liber, § XIII).

No Sefer Macabim Dálet (4º Livro dos Macabeus), o justo e idoso Eleazar (El’azar) é torturado severamente por ímpios, que ficam admirados com sua resistência. Bastava Eleazar comer carne de porco, ou fingir comê-la, que seria liberado das torturas. Porém, já que a carne de porco é proibida pela Torá, Eleazar preferiu ser torturado de forma cruel a transgredir o mandamento. Em belo discurso, proclama Eleazar:

“Seria vergonhoso viver em curto espaço de tempo e ser desprezado por todos os homens por covardia, e ser condenado pelo tirano afeminado, pelo fato de eu não ter lutado até a morte pela Torá de Elohim.

(...)

Quando seus ossos estavam queimando, prestes a morrer, ele [Eleazar] ergueu os olhos para Elohim e disse:

Tu sabes, ó Elohim, que eu poderia ter sido salvo. Eu estou sendo assassinado por causa da lei de tortura com fogo.

Seja misericordioso para com seu povo, e fique satisfeito com minha punição no lugar dele [do povo].

Deixa o meu sangue fazer kapará [expiação/purificação] por eles, e toma a minha vida como recompensa em favor deles” (Sefer Macabim Dálet, capítulo 6).

Fica patente que o justo Eleazar entregou sua vida com a intenção de realizar kapará pelo povo de Yisra’el.  Em sua mente, o sangue do justo seria derramado em prol dos ímpios de Yisra’el, que estavam distantes da Torá. É provável que o testemunho de Eleazar tenha influenciado pessoas a retornar ao ETERNO, cumprindo suas mitsvot (mandamentos).

Para os essênios de Qumran, o Mashiach iria sofrer e ser castigado para expiar os pecados dos fiéis:

“E esta é a exata interpretação da norma ‘até que surja o Messias de Aharon e Yisra’el’. Ele expiará por seus pecados... será castigado seis dias.” (Regra de Damasco, Col.XIV, 19).

“... minha morada está no conselho santo. Quem [...] quem foi desprezado como eu? E quem foi rejeitado pelos homens como eu? E quem se compara a mim nos sofrimentos? Nenhum ensino se compara ao meu ensino. Pois eu sento [...] no céu. Quem é como eu dentre os anjos? Quem poderia abolir minhas palavras? E quem poderia medir a fluência de meus lábios? Quem pode juntar-se a mim e se comparar com o meu juízo? Eu sou o amado do Rei, um companheiro dos santos, e ninguém pode me acompanhar. E ninguém pode se comparar à minha glória...” (Manuscrito do Mar Morto, 4Q431).

 

Com fulcro em todos os argumentos expendidos, conclui-se que o conceito de um justo fazer kapará em favor de muitas pessoas faz parte do pensamento judaico. À luz do Targum Yonatan de Yeshayahu (Isaías) 53 e dos Manuscritos do Mar Morto, bem como de parte da literatura rabínica, a kapará (expiação, perdão) é feita pelo sofrimento e morte do Mashiach.

De posse de tal arcabouço doutrinário, os netsarim (nazarenos) escreveram que é o sangue do Mashiach quem realiza a kapará dos pecados daqueles que verdadeiramente se arrependem, e passam a obedecer aos mandamentos da Torá do ETERNO:

“Enquanto comiam, Yeshua pegou a matsá [pão ázimo], disse a b’rachá [benção], partiu-a, e a deu aos talmidim, dizendo: Peguem e comam; isto é o meu corpo! Ele também pegou um cálice de vinho, disse a b’rachá [benção], e o deu a eles, dizendo: Bebam dele todos vocês. Porque este é o meu sangue, que confirma a Nova Aliança, meu sangue derramado a favor de muitos, para que tenham os pecados perdoados” (Matityahu/Mateus 26:26-28).

“Por causa dessa morte [de Yeshua HaMashiach], ele é o mediador de uma Nova Aliança.

(...)

Pois, segundo a Torá, quase todas as coisas são purificadas com sangue; de fato, sem derramamento de sangue não há perdão de pecados” (Ivrim/Hebreus 9:15 e 22).

“Em união com ele [Yeshua HaMashiach], pelo derramar de seu sangue, somos libertados – nossos pecados são perdoados...” (Efessayah/Efésios 1:7).

“Eles o venceram [referindo-se ao dragão, HaSatan] por causa do sangue do Cordeiro e por causa da mensagem de seu testemunho (...)

O dragão [HaSatan] irou-se contra a mulher e saiu para lutar contra o resto de seus filhos, aqueles que obedecem aos mandamentos [da Torá] de Elohim e dão testemunho de Yeshua” (Guilyana/Apocalipse 12:11 e 17).

 

Destarte, se Yom Kipur (Dia da Expiação/Perdão) é o dia em que há jejum absoluto (comida e bebida) objetivando-se pedir perdão ao ETERNO pelos pecados cometidos, abandonando-os de nossas vidas, nós netsarim (nazarenos) sabemos que somente existe kapará (expiação/libertação) por meio da fé no sacrifício de Yeshua HaMashiach. Iremos jejuar em Yom Kipur sabendo que fomos libertos do pecado por meio do precioso sangue de Yeshua. E mais: o ser humano somente obtém a kapará e a vida eterna através de Yeshua HaMashiach (Jo 3:16-21 e 36, 10:27-28, 11:25-26, 14:6-7, 15:5-6, 23-25, 18:37; Mt 10:32-33; Lc 12:8-9; II Co 3:14-16; I Jo 2:23).

Consequentemente, aqueles que participam de Yom Kipur, porém não seguem Yeshua HaMashiach, NÃO receberão a kapará por seus pecados.

Aliás, há uma prova histórica de que, depois da morte de Yeshua HaMashiach, o ETERNO nunca mais aceitou o sacrifício de animais no Beit HaMikdash (Templo).

Com efeito, o Talmud relata que o sistema sacrificial foi alterado por volta de quarenta anos antes de o Templo ser destruído, isto é, exatamente quando ocorreu a execução de Yeshua HaMashiach:

“Nossos rabinos ensinaram que ao longo dos quarenta anos em que Shim’on o Tsadik [Justo] serviu (...) o tecido vermelho se tornou branco. Daquela época em diante, ele às vezes ficava branco e às vezes não... ao longo dos últimos quarenta anos antes de o Templo ser destruído (...) o tecido escarlate nunca ficou branco” (Talmud Bavli, m. Yoma 39a-39b).

 

Este relato talmúdico se refere à atividade do Kohen HaGadol (Sumo Sacerdote) que sacrificava um cordeiro, amarrando-o a um pedaço de tecido vermelho entre seus chifres. Após o sacrifício, se o tecido ficasse branco, isto significaria que Elohim tinha perdoado os pecados de Yisra’el: “ainda que os vossos pecados sejam escarlates, eles se tornarão brancos como a neve” (Is 1:18).

Leia novamente a citação do Talmud acima e perceba que o tecido nunca mais ficou branco por volta de 40 anos antes da destruição do Templo, isto é, aproximadamente no ano 30 D.C, que foi justamente a época da morte de Yeshua, haja vista a variação de três a quatro anos no calendário. Logo, a partir da morte do Mashiach, o sistema do sacrifício de animais para a expiação de pecados não mais era aceito pelo ETERNO! Por quê? Porque agora somente há kapará por meio do sangue de Yeshua HaMashiach !!!

Por este motivo, devemos orar e interceder por nosso povo para que Yisra’el reconheça Yeshua como o Mashiach prometido pelo ETERNO, o que levará ao cumprimento da profecia de que “todo o Yisra’el será salvo” (Ruhomayah/Romanos 11:26).

Em Yom Kipur, quando jejuarmos aproximadamente por 25 horas, devemos pedir perdão ao ETERNO invocando o sangue de Yeshua. Acresce registrar que somente há perdão para aqueles que realmente abandonam o pecado. Quem diz que serve Yeshua e continua aprisionado pelo pecado não receberá kapará, salvo se efetivamente deixar os seus maus caminhos. Reflitamos a partir das Escrituras:

Se continuarmos pecando voluntariamente depois de recebermos o conhecimento da verdade, não resta sacrifício pelos pecados, apenas a terrível expectativa do juízo, do fogo que consumirá os inimigos.

Quem desobedecesse a Torá de Moshé [Moisés] era morto sem misericórdia pela palavra de duas ou três testemunhas. Pensem agora quão mais severa será a punição merecida pela pessoa que pisar o Filho de Elohim, que tratar como algo comum o sangue da aliança que o fez santo...” (Ivrim/Hebreus 10:26-29).

“Todo aquele que crê que Yeshua é o Mashiach tem Elohim por Pai, e todo aquele que ama o Pai ama também seu Filho. Assim sabemos que amamos os filhos de Elohim: amando a Elohim e obedecendo aos mandamentos. Porque amar a Elohim significa obedecer-lhe os mandamentos” (Yochanan Álef/1ª João 5:1-3).

 

Façamos teshuvá!

 

השיבנו אבינו לתורתך

 וקרבנו מלכנו לעבודתך

 והחזירנו בתשובה שלמה לפניך

ברוך אתה יהוה הרוצה בתשובה

 

 

Reconduze-nos, ó nosso Pai, para tua Torá.

Retoma-nos, ó nosso Rei, ao teu serviço.

E faça com que regressemos com sincero arrependimento para Ti.

Bendito sejas Tu, YHWH, que te comprazes com o arrependimento.

 

 

 

 

 



[1] A cláusula “a luz” consta dos textos da Septuaginta e dos Manuscritos do Mar Morto (ambos anteriores à vinda de Yeshua), não figurando no Texto Massorético (século X D.C). Atente para interessante fato: o servo sofredor morre e é posto em uma sepultura, e depois “vê a luz”. O que isto significa? Para o rabino James Trimm, a “luz” para alguém que morreu simboliza a ressurreição, ou seja, Yeshayahu estava tratando da morte e da ressurreição do servo sofredor do ETERNO. Parece que o Texto Massorético omitiu a palavra “luz” para ocultar a ressurreição do Mashiach, lembrando-se que os massoretas provieram da escola do Judaísmo que rejeitou Yeshua HaMashiach.

[2] Presença/manifestação do ETERNO. No Targum, “Shechiná” é usada para substituir o nome YHWH em situações que impliquem em antropomorfismo.

 

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