YESHUA ATRAVÉS DE OLHOS JUDAICOS: Um rabino examina a vida e os ensinamentos de Yeshua - Parte 7

08/03/2017 16:44

YESHUA ATRAVÉS DE OLHOS JUDAICOS:

Um rabino examina a vida e os ensinamentos de Yeshua

 

Por Rav. John Fischer, Ph.D., Th.D.

Tradução de Luiz Felippe Cavalcanti

 

PARTE 7

A CONTROVÉRSIA DO SHABAT

 

Os evangelhos registram uma série de discussões e diferenças entre Yeshua e alguns dos líderes religiosos sobre as atividades apropriadas para o Shabat. Algumas pessoas têm visto nestes relatos que os ensinamentos de Yeshua parecem violar ou anular certas leis sobre o Shabat. Ao analisar essas passagens, é importante lembrar que foram autorizadas certas "violações" do Shabat. A visão predominante era a seguinte:

"É permitido violar um Shabat, a fim de que muitos outros possam ser guardados; as leis foram dadas para que os homens pudessem viver de acordo com elas, e não que os homens devessem morrer por elas."

Concessões consideráveis foram feitas, embora tenha havido muito debate sobre os limites dessas concessões. Salvar vidas, aliviar a dor aguda, curar picadas de cobra e cozinhar para os doentes foram condutas autorizadas no Shabat (Shabbat 18,3; Tosefta Shabbat 15,14; Yoma 84b; Tosefta Yoma 84.15), o que demonstra clemência, não absoluta rigidez.

Citando Isaías 58:13, os rabinos também permitiram atos de serviço aos outros, por exemplo, reuniões com a finalidade de decidir sobre doações para caridade e fazer arranjos para o envolvimento ou para a educação de uma criança. Eles viram esses atos de serviço como o negócio de Deus, e não como seus próprios negócios. Uma vez que as boas ações eram assunto de Deus, elas foram autorizadas (Shabat 150a). No entanto, estas flexibilizações não foram prorrogadas de forma indiscriminada por medo de destruir aquilo para o qual este dia foi reservado por Deus. No entanto, o princípio rabínico básico permaneceu: "O shabat foi feito para você; você não foi feito para o shabat" (Mekilta sobre Ex. 31:14, 104a).

Outros questionam a propriedade de Yeshua curar no Shabat. O exemplo mais claro seria em João 5:8, onde ele aparentemente ordena ao homem a "trabalhar" no Shabat, dizendo: "Pegue o seu leito e ande". No entanto, ao examinar fontes judaicas iniciais e do Judaísmo no primeiro século, vemos que o que constituía trabalho ainda não tinha sido totalmente definido. Assim, por exemplo, carregar coisas dentro de uma cidade murada (Jerusalém) nem sempre era considerado trabalho. O que nós aprendemos de João 5:8 é que Yeshua foi retratado como aquele que tem a correta compreensão de como manter o mandamento: "Você não deve fazer nenhum trabalho no dia de Shabat". Assim sendo, o principal que Yeshua estava mostrando aqui é que além de ensinar a forma correta de se guardar o Shabat ele ainda realizou uma cura tão impressionante que nenhum outro homem na terra conseguiria reproduzi-la. Um homem paralítico que carrega sua cama no Shabat era um testemunho vivo dos atos poderosos de Deus através de Yeshua. E sobre a profanação ou não do Shabat, as decisões rabínicas de seu tempo permitiram a realização das curas que Yeshua fez no Shabat. Como Safrai conclui: "As curas que Yeshua fez no Shabat, que irritaram o chefe da sinagoga, eram permitidas pela lei tanaítica”.

Várias outras considerações valem a pena mencionar. Os escritos de Josefo nos mostram que muitas das regras de Shabat e outras regulamentações não estavam em vigor no tempo de Yeshua. Elas ainda estavam em discussão. Yeshua, portanto, em sua interação na questão do Shabat, não negou a validade da Torá ou halachá, mas apenas rebateu essas interpretações extremas propostas por alguns. Nisso, ele geralmente se opôs os pontos de vista de Shamai em favor daqueles de Hillel.

Como se vê, até mesmo suas respostas não foram tão revolucionárias como inicialmente se imaginava, mas estavam "em harmonia com os pontos de vista dos escribas modernos." E ele fez essas suas respostas em forma e estilo tipicamente rabínico, com frequência usando um tipo específico de argumentação chamada de Yelammedenu. Trata-se de uma pergunta dirigida ao professor, seguida por sua resposta baseado em um Midrash (interpretação) ou halachá (opinião autorizada).

As passagens sobre o Shabat (Mt 12: 1-8; 12: 9-13; Mc 2: 23-28; 3: 1-6.; Lc 13: 10-17; 14:.. 1-6; Jo 5: 1-16; 7: 22-23) registram a resposta de Yeshua neste formato, no qual ele citou uma interpretação da Escritura ou uma opinião rabínica aceita, por exemplo, "É lícito salvar a vida ou deixá-lo morrer no Shabat?" (35b Yoma). De fato, seu argumento é estreitamente paralelo ao de um rabino um pouco posterior chamado Rabino Ismael (Yoma 85a), particularmente em Marcos 3. Ele também frequentemente cita, em estilo tipicamente rabínico, tanto o princípio quanto um exemplo que ajudou a esclarecê-lo. Ao expor seu argumento em situações como esta, ele usou uma variedade de conceitos judaicos familiares, conclusões haláquicas e métodos rabínicos.

Yeshua justificou a ação impugnada, alegando uma porção de ensino que os seus adversários também reconheciam como válido. Diz um sábio ditado: "uma passagem da Escritura ... um mandamento estabelecido ...", em outras palavras, ele começa a partir da mesma base que os seus antagonistas. Se ele não o fizesse, não os teria colocado em silêncio.

Portanto, tanto a forma de suas respostas quanto o conteúdo que ele comunicou nestas situações atingiram acordes familiares nos ouvintes, consistentes com o ensinamento que eles tinham recebido, o que, por causa de sua força de convicção, deixou-os sem resposta.

Várias implicações surgem a partir das discussões anteriores. Primeiro, houve discordância e discussão no tempo de Yeshua sobre o que era e não era lícito, e isto não era uma questão resolvida. Ele entrou nesta discussão e proclamou os seus ensinamentos. Neles ele reconheceu as proibições contra trabalhar no Shabat e explicou suas aplicações e qualificações. Mas, então, ele com isso expôs como os regulamentos de Shabat foram manipulados pelos líderes religiosos fariseus.

Em segundo lugar, o fato de que ele tomou o problema para argumentar e declarar certas coisas lícitas, e não apenas dizer que o Shabat e as suas tradições foram suspensas, é significativo.

Significa que ele reconheceu que certas ações eram ilegais no Shabat e, portanto, não afastou os preceitos e práticas do Shabat. (Compare com Mateus 24:20, onde assumiu a continuidade das leis do Shabat, quando ele disse: "Orai para que vossa fuga não seja nem no inverno nem no Shabat"). Se ele tivesse quebrado o Shabat e as suas tradições, como observado anteriormente, as evidências disto teriam sido usadas contra ele em seu julgamento perante o Sinédrio. Este tipo de evidência teria sido apresentada se tivesse havido a menor base para a acusação; ainda assim não há nenhum vestígio disso em lugar algum (Mc. 14:55-64).

Em terceiro lugar, nos casos de controvérsia, Yeshua tomou uma posição clara, e não contra a Torá ou os costumes, ou mesmo contra o farisaísmo e as tradições, mas contra certas tendências ou interpretações entre alguns dos fariseus, frequentemente usadas paralelamente por uma escola do fariseus contra outra.

Finalmente, quando Yeshua entrou no debate e apresentou seu caso, ele o fez da forma típica rabínica, usando argumentos haláquicos e exemplos familiares aos seus ouvintes, e chegando a conclusões que se mostravam tanto consistentes com o que eles tinham sido ensinados e bastante convincentes.

O que é intrigante para estudantes judeus de todas as Yeshivot é que a atitude sobre o Shabat como hoje é refletido no judaísmo rabínico é muito próximo ao que foi ensinado por Yeshua, e muito distante daquilo que foi ensinado por seus adversários.

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