Yeshua através de olhos judaicos: Um rabino examina a vida e os ensinamentos de Yeshua - Parte 5

03/02/2017 17:38

 

YESHUA ATRAVÉS DE OLHOS JUDAICOS:

Um rabino examina a vida e os ensinamentos de Yeshua

 

Por Rav. John Fischer, Ph.D., Th.D.

 

Tradução de Luiz Felippe Cavalcanti

 

 

PARTE 5

 

Yeshua disse de forma bastante direta: "Observem os mandamentos de D'us" (Mc 10, 17-19; Mt. 19: 16-19.; Lc 18, 18-20.). Ele também indicou que a Torá não passará com a sua vinda (Mt 5:18).

Muitas vezes suas declarações começando com "mas eu digo" são apresentadas como evidência para sua anulação da Torá. Mas estas declarações dele - como em breve será mostrado - funcionam mais como uma Midrash, um desdobramento sobre a explicação do significado mais profundo, mais completo da Torá, e não como uma anulação [David Daube, THE NEW TESTAMENT AND RABBINIC JUDAISM, University of London Press, London, 1956, p. 60].

Na verdade, quando comparado com as tradições que servem como fundamentos da Torá Oral no Judaísmo clássico, as interpretações que Yeshua dá são compatíveis com a estrutura da Torá Oral e com o método pelo qual as suas disposições foram elaboradas a partir do texto escrito. [Bokser, p. 194].

Portanto, Mateus 5:17-20 continua a ser a passagem crucial para a compreensão da perspectiva de Yeshua em seu relacionamento com a Torá. É aqui que ele descreveu seu propósito ou intenção ("eu vim / não vir") no que diz respeito à Torá. Ele afirmou que seu propósito não era abolir a Torá. O termo abolir (kataluo) carrega a ideia de: "acabar com, anular, tornar inválido, revogação, terminar" [Bauer, Arndt & Gingrich, "kataluo"].

E Yeshua não veio fazer nenhuma das opções acima. Na verdade, ele mencionou "não abolir" duas vezes, de modo a enfatizar sua intenção. A força de sua afirmação é reforçada pela frase: "Não pensem que", que tem o sentido de "NUNCA pense que". [Nigel Turner, A GRAMMAR OF NEW TESTAMENT GREEK, Vol. III, "Syntax," T. & T. Clark, Edinburgh, 1963, p. 77].

Ele queria que as pessoas entendessem claramente que ele não iria anular, revogar ou rescindir a Torá! Em seguida, ele estabeleceu um forte contraste com esta afirmação. Ao usar a construção particular para "mas" (ouk ... alla), Yeshua estava apresentando "cumprir" como um oposto direto, ou forte contraste com a sua declaração anterior.

Com efeito, tudo o que a palavra "abolir" significa, a palavra "cumprir" não significa, e vice-versa; qualquer explicação para "cumprir" que até mesmo possa relembrar o impulso de "abolir" está, portanto, fora de questão. Agora, no passivo, "cumprir" (pleroo) é usado no sentido de coisas, particularmente as Escrituras, sendo cumpridas. No entanto, no ativo, como é aqui, o sentido é diferente. Aqui ele carrega a ideia de: preencher completamente, tornar completa, confirmar, mostrar claramente o verdadeiro sentido, trazer à plena expressão; em outras palavras, "para preencher integralmente". [Bauer, Arndt & Gingrich, "pleroo"].

A imagem parece ser aquela de um baú de tesouro, repleto de objetos de valor (cf. Mt. 13:52.). As origens linguísticas prováveis do grego no texto aqui ajudam a preencher as implicações de "cumprir", especialmente à luz do contexto desta passagem. Na Septuaginta, o termo traduz Mala, Taman, e Sava com o sentido de "tornar completamente cheio, encher a medida". [Gerhard Delling, "pleroo," in Gerhard Kittel & Gerhard Friedrich, eds., THE THEOLOGICAL DICTIONARY OF THE NEW TESTAMENT, vol. VI, Eerdmans, Grand Rapids, 1968, pp. 287-288].

Nos Targuns, Male e Kum são usados alternadamente. [ D. A. Carson, "Matthew," THE EXPOSITOR'S BIBLE COMMENTARY, vol. 8, Frank Gaebelein, ed., Zondervan, Grand Rapids, 1984, p. 143.] 

O termo hebraico provável por trás do grego é Kiyyem (o equivalente ao kum aramaico do Targum), que significa "manter, sustentar, preservar". [Daube, p. 80; David Bivin, "Preview: The Jerusalem Commentary," THE JERUSALEM PERSPECTIVE, March 1988, p. 4.]. O termo implica que o ensino dado concorda com o texto da Escritura em questão. Isso se encaixa admiravelmente com a discussão dos versos 21-48.

O provável equivalente aramaico, la'asuphe, significa "adicionar"; e conota a ideia de preservar o significado pretendido de uma declaração, incluindo todas as ações ou proibições implicadas por ela [Finkel, p. 163].

A discussão de Yeshua nos versículos 21-48 ilustra incisivamente esta ênfase. Assim, tanto o pano de fundo aramaico quanto o hebraico reforçam a ideia de plenitude como o preenchimento total ou plenificação. Como se vê, "abolir" e "cumprir" são, na verdade, termos usados na época como parte do debate acadêmico e discussão rabínica. [Bivin, p. 4.].

Um sábio foi acusado de abolir ou cancelar a Torá se ele interpretou mal uma passagem, anulando a sua intenção. Se ele "cumpriu", ele interpretou corretamente a Escritura, de modo a preservar e corretamente explicar o seu significado. O restante deste parágrafo (vv 18-20) reforça ainda mais esse entendimento de cumprir. Quando Yeshua falou que nem mesmo o "Yud" ou "menor traço de uma caneta" passariam, ele falou em termos semelhantes aos Sábios: "Se o mundo inteiro se reunisse para destruir o Yud, que é a menor letra na Torá, eles não conseguiriam." (Cânticos Rabá 5.11; cf. Levítico Rabbah 19). "Nenhuma letra deve ser abolida da Torá, para sempre" (Êxodo Rabá 6.1).

E, ele acrescentou que ninguém pode quebrar ou anular nem mesmo o menor dos mandamentos, sem colocar em risco o seu status futuro (v.19). Como se isso não bastasse, ele concluiu esta seção (v.20) enfatizando que seus seguidores precisavam ser ainda mais atentos e devotos do que os fariseus, ultrapassando até mesmo a sua prática exemplar das tradições! Portanto, ao que tudo indica, o que de fato Yeshua está dizendo é: ... "Eu não somente não derrubo a Lei ... ou a esvazio de seu conteúdo, mas pelo contrário, eu aumento esse conteúdo, de modo a preencher a Lei, até que ela fique cheia até a borda." [Isaac, p. 66].

Então, Yeshua veio trazer a correta interpretação e compreensão da Lei, ou seja, para indicar as implicações e significado profundo e completo dos mandamentos. Portanto, uma pessoa que obedecia aos ensinamentos de Yeshua obedecida até mesmo ao menor dos mandamentos (v. 19). Porque ele estava ensinando a sua importância pretendida pela Torá (cf. Rm 8. 4). O contexto seguinte (v. 21f) desenvolve este princípio fundamental (vv. 17-20) de forma rabínica típica, ou seja, uma lista de casos que demonstram ou que ilustram o princípio [Daube, p. 61].

Basicamente, nesta seção, Yeshua estava dizendo: "Eu digo a você: não pare no meio do caminho em obediência a D'us e seus santos mandamentos; vá além, sempre além da letra do mandamento, em direção ao espírito que lhe dá vida, a partir do literal para o sentido profundo interior;"... sejam perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt. 5:47); e que a Lei finalmente seja levada a efeito, em sua plenitude. [Isaac, p. 66].

Com efeito, Yeshua construiu uma "cerca em torno da Lei" - como indicados pelo aramaico e hebraico fundamental "cumprir" - muito como os sábios anteriores citados pelo Talmud fizeram (Pirkei Avot 1.2). E o seu muro é muito semelhante ao dos sábios rabinos. [See Lachs; Montefiore; Finkel; G. Friedlander, THE JEWISH SOURCES OF THE SERMON ON THE MOUNT, KTAV, New York, 1991; Pinhas Lapide, THE SERMON ON THE MOUNT, Orbis Books, Maryknoll, NY, 1986; Gregory Hagg, "The Interrelationship Between the New Testament & Tannaitic Judaism," doctoral dissertation, New York University, 1988; and Strack-Billerbeck's German commentary on the gospels].

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