Yeshua através de olhos judaicos: Um rabino examina a vida e os ensinamentos de Yeshua - Parte 4

02/02/2017 11:12

YESHUA ATRAVÉS DE OLHOS JUDAICOS:

 

Um rabino examina a vida e os ensinamentos de Yeshua

 

 

 

Por Rav. John Fischer, Ph.D., Th.D.

 

 

 

Tradução de Luiz Felippe Cavalcanti

 

 

 

 

PARTE 4

 

O Conflito Examinado

 

Como a citação anterior ilustra [veja a parte 3], enquanto Yeshua estava muito em sintonia com seu tempo e seu povo, havia pontos de conflito entre ele e alguns dos líderes religiosos.

Então, qual era a natureza desse conflito? Yeshua ensinou em um período de fluxo e transição, de várias interpretações da Torá em desenvolvimento, e ocasionalmente conflitantes entre si. E aproveitando essa liberdade de interpretação, ele, no entanto, manteve-se completamente judaico e integrado à visão principal do Judaísmo.

Por exemplo, ele aceitou as leis sobre o Shabat, mas se diferenciou na interpretação de algumas dessas leis relativas a determinadas condições que justificam a sua suspensão. [Israel Abrahams, STUDIES IN PHARISAISM AND THE GOSPELS, KTAV, New York, 1967, vol. I, pp. 134, 131].

“Em pontos menores ... ele mostrou uma liberdade do costume tradicional, que implicava uma ruptura com a regra mais rigorosa dos adeptos mais rigorosos da Lei naquele tempo”. [Joseph Jacobs, JEWISH ENCYCLOPEDIA, vol. VII, Funk and Wagnalls, New York, 1916, p. 162].

No entanto, “algumas dessas, é claro, podem ser violações permitidas de tradições que, longe de ter uma força de ligação, foram objeto de livre e contínuos debates internos”.

Deve-se lembrar, então, que ele não violou os costumes e práticas geralmente aceitos; ele simplesmente não concordou com algumas declarações específicas apresentadas por alguns professores. A questão do Shabat ilustra isso.... “Há provas de que Yeshua nunca quebrou abertamente o Shabat; quando ele apareceu diante do Sanhedrin (Sinédrio), não havia qualquer vestígio de tal acusação contra ele, a qual certamente não deixaria de ser feita caso tivessem a menor possibilidade de fundamento ... no caso do Shabat, como em todos os casos deste tipo, Yeshua tomou a posição clara, não contrária à Lei, nem mesmo contra as práticas rituais, mas contra a excessiva importância que determinados doutores fariseus atribuíam a elas; nem mesmo contra o farisaísmo, mas contra as tendências particulares no farisaísmo, especialmente a tendência de colocar a letra antes do Espírito” [Isaac, p. 60].

Uma outra consideração merece menção. Vários comentários de Yeshua indicam que ele interagiu com a discussão entre as escolas de Hillel e Shammai, e, portanto, estaria em conflito com uma ou outra [Finkel, pp.139-142].

Por exemplo, a declaração sobre o dízimo da hortelã e endro (Mt. 23.: . 23f) reflete uma das coisas incluídas para o dízimo por Shamai, mas não por Hillel (Maaserot 1.1 cf. 4.6; Eduyyot 5,3; Demai 1.3).

Isso mostra o grau de zelo e compromisso de Shammai para a Lei do dízimo (Dt 14: 22-23). A referência sobre o aumento da tsitsit alude a uma outra discussão entre as escolas. Em resposta ao comando para fazer tsitsit (Dt. 22:12), Shammai queria fazer tsitsiot maiores do que Hillel (Menaot 41b).

Qual era então o principal foco do conflito entre Yeshua e alguns dos líderes religiosos do seu tempo? Foram simplesmente diferentes interpretações e aplicações da Torá? Ou era algo mais profundo? A aura sobre Yeshua difere muito daquela sobre os líderes religiosos de sua época. Ele vem como uma figura soberana fazendo reivindicações supremas. Ele alegou autoridade excepcional e fez afirmações extraordinárias, fazendo “exigências” consistentes com eles. Sua autoridade era tão radicalmente diferente da dos líderes (cf. Mc 01:22) que o conflito era inevitável.

Enquanto ele falava com a sua própria autoridade, isto não constituiu uma ruptura com o Judaísmo. Ele não desafiou o Judaísmo, mas chamou a atenção para a sua intenção apropriada, um processo também central na tradição rabínica. Mas ele o fez com uma autoridade que foi bastante inigualável.

O tom adotado em recomendar essas variações foi totalmente inovador na experiência judaica, ele enfatizou sua própria autoridade para além de qualquer poder vicário ou poder delegado do alto. [Jacobs, p. 163].

A chave para o conflito, então, gira em torno da singularidade e autoridade de Yeshua como o Messias esperado e como o segundo Moisés. Em seu ministério, “Eu digo” substitui “assim diz o Senhor”. Pois o que ele falava vinha diretamente e expressamente do Eterno D’us. Da mesmo forma que D’us fez com que Moisés fosse ELOHIM sobre o faraó, e as palavras de Moisés eram as palavras diretas do Eterno D’us, e Arão era o profeta de Moisés (Êxodo 7:1).

Como o Messias e iniciador do “Mundo Vindouro”, ele trouxe uma nova ordem das coisas [Cf. Moore, vol.1, pp. 270-271.]. A messianidade de Yeshua implicava que algo novo havia chegado para o Judaísmo. Isso formou uma base para a sua autoridade e por quaisquer adaptações ou interpretações apropriadas que ele pudesse ter feito, ou para os desafios que ele levantou contra certas interpretações que obscureciam o significado pretendido da Torá.

Como Messias esperado e Segundo Moisés, ele foi o intérprete oficial da Lei.

De fato, o Talmud indica que a autoridade do Messias é tão grande que: “Mesmo que ele lhe diga para transgredir qualquer dos mandamentos da Torá, obedeça a ele em todos os aspectos” (Yebamot 90).

Em última análise, a identidade e a autoridade de Yeshua como o Messias esperado o colocaram em conflito com os líderes religiosos de sua época (cf. Jo 11, 48-50). Porém, seus ensinamentos permaneceram firmemente enraizados dentro do Judaísmo.

 

 

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