Uma visão crítica do Judaísmo rabínico segundo Avigdor Shinan

09/05/2014 22:06

 

Uma visão crítica do Judaísmo rabínico segundo Avigdor Shinan

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Recentemente, tenho feito várias reflexões críticas sobre o Judaísmo Normativo, demonstrando que muitas de suas práticas são incompatíveis com as Escrituras. Aliás, Yeshua lutou contra diversas tradições judaicas que terminavam por anular as mitsvot (mandamentos) de YHWH:

“E disse-lhes Yeshua: Por que vocês passam [anulam] a fala [palavra] de El [Elohim] pelo testemunho de suas takanot [leis rabínicas]? (Matityahu/Mateus 15:3, traduzido do manuscrito hebraico de Shem Tov).

“Vocês deixam a mitsvá [mandamento] de Elohim, e se apegam à tradição dos homens. Disse-lhes ainda: Bem sabem rejeitar a mitsvá [mandamento] de Elohim, para guardar a sua tradição.” (Yochanan Marcus/Marcos 7:8, traduzido do aramaico).

 

No primeiro texto citado, Yeshua combateu takanot (leis rabínicas) que terminavam por anular a “fala de El”, ou seja, a Palavra de YHWH consignada nas Escrituras. Na segunda passagem transcrita, o Mashiach desaprovou tradições judaicas que anulam os mandamentos (mitsvot) de Elohim.

Com efeito, o Judaísmo rabínico segue mais a tradição e as leis rabínicas do que o próprio Tanach (Primeiras Escrituras/“Antigo Testamento”).

Pois bem, enquanto eu meditava sobre o fato de o Judaísmo rabínico não ser bíblico, tese esta que pareceria absurda para muitas pessoas, YHWH permitiu-me ter contato com a magistral aula de Avigdor Shinan, Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Shinan leciona literatura judaica pós-bíblica, o que compreende o Talmud, Midrash, Targumim, Sidur, escritos rabínicos etc, sendo reputado uma das maiores autoridades em Judaísmo da atualidade.

Quando assisti à aula de Avigdor Shinan, fiquei muito impressionado, pois tudo aquilo que pairava em minha mente foi confirmado pelo renomado especialista.

Neste breve ensaio, farei um resumo das principais teses bosquejadas pelo Professor Avigdor Shinan:

 

1) O Judaísmo atual não é bíblico, é produto da tradição rabínica e foi criado durante os séculos II a VII DC.

2) Talmud, Midrash, Targumim e a literatura dos sábios judeus formam a pedra fundamental do Judaísmo, e não o Tanach.

3) O hebraico moderno é diferente do hebraico bíblico.

4) A teologia judaica não é a teologia do Tanach, e sim a mishnáica e a talmúdica.  

5) A halachá judaica vigente não é bíblica, pois segue a visão dos sábios. Exemplo: de acordo com o Tanach, quem determina a genealogia é o pai, tanto é que os filhos de Yosef com a mulher egípcia foram considerados israelitas, e os descendentes de Boaz com Rut também foram reputados judeus. Porém, segundo a halachá do Judaísmo atual, a genealogia é determinada pela mãe, o que viola as Escrituras.

6) Na época da Torá, não havia sinagoga, kadish, kol nidrei, bar mistvá, talit etc. Todos estes elementos vieram tempos depois, por meio da obra dos rabinos.

7) Se Moshé (Moisés), David e Yehudá HaMacabi (Judas Macabeu) viessem ao mundo nos dias de hoje, não entenderiam nada que as pessoas fazem durante a liturgia judaica, já que eles não faziam shacharit e nem usavam tefilin.

8) Os sábios dizem que receberam inspiração divina para ditar suas leis e tradições. Porém, onde está escrito isto? Em lugar nenhum das Escrituras! Os sábios é quem disseram que eles próprios receberam a autoridade do ETERNO.

9) Para o Judaísmo, o Shulchan Aruch e Maimônides são mais importantes do que o Tanach (Primeiras Escrituras/‘Antigo Testamento’’).

10) O Tanach é lido e interpretado de acordo com a ótica ditada pelos rabinos.

11) Avraham (Abraão) e Moshê (Moisés) não eram judeus.

12) Todas as correntes do Judaísmo seguem os sábios, e não o Tanach.

13) No Talmud, vemos o debate constante dos sábios. Hoje, o Judaísmo é monolítico, inexistindo grandes divergências entre os diversos grupos judaicos.

14) Em cada século, as gerações foram promovendo a alteração do pensamento da geração anterior sobre o Tanach, até que tudo ficou bem diferente do pensamento original acerca do Tanach. Exemplo: o Tanach foi alterado pelo Talmud; o Talmud foi alterado por Maimônides; as gerações posteriores fizeram novas alterações, e assim sucessivamente. É como se o Judaísmo fosse uma pirâmide invertida, cuja ponta no chão é o Tanach, e toda a estrutura posterior seja composta do Talmud e de toda a literatura rabínica.

15) Exemplo: a Torá diz para não cozer o cabrito no leite da mãe. O texto fala apenas em “cabrito” e em “cozer” no leite da própria “mãe”. Porém, os rabinos alargaram a regra e proibiram misturar até mesmo os derivados de leite com carne (não só a carne de cabrito, mas também a carne de galinha, búfalo etc).

16) A religião pautada no Tanach era baseada em revelação sobrenatural do ETERNO, principalmente por meio dos profetas, de sonhos e do Sumo Sacerdote. Todas estas revelações foram anuladas pelo Judaísmo. Atualmente, o Judaísmo afirma que não existem mais profetas e revelações do ETERNO. Todo o sobrenatural foi substituído pelos “livros dos rabinos” (Talmud, Midrash, Sidur etc). O livro se tornou o centro da vida religiosa do povo de Israel.

17) Em todas as eras, os judeus sofreram influência das sociedades em que viviam, e terminaram assimilando costumes de outros povos, inclusive costumes pagãos.

18) No Judaísmo antigo, não existia a tradição de recitar o kadish nos funerais e em memória aos falecidos. O acendimento de velas no shabat não é uma legítima tradição judaica, mas sim recebeu forte influência do uso de velas pelos cristãos (católicos).

19) Para conhecer o legítimo Judaísmo, é necessário analisar a história, a influência geográfica, a cultura da época, as línguas faladas etc.

 

Como vimos nestes tópicos acima apresentados, a minha tese de que o Judaísmo rabínico está distante das Escrituras foi confirmada por preclaro Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Surpreendente história no Talmud há acerca do suposto encontro entre Moshé (Moisés) e o rabino Akiva.

Trata-se de um conto lendário em que o ETERNO levou Moshé a um futuro distante, para a sala de aula do rabino Akiva, que viveu por volta de 50 a 135 D.C., isto é, Moshé viajou no tempo por 1500 anos.

No caso narrado pelo Talmud, Moshé assentou-se para ouvir os ensinamentos do rabino Akiva sobre a Torá, e não entendeu o que estava sendo explicado. Em outras palavras, o grande profeta Moshé, que recebeu a Torá diretamente de YHWH, não compreendeu os ensinos do Judaísmo rabínico aparentemente extraídos da Torá.

Eis o excerto do Talmud Bavli, m. Menachot 29b, com interpolações pessoas entre colchetes:

“R. Yehudá disse em nome de Rav: Quando Moshé [Moisés] subiu aos céus ele encontrou o Santo, Bendito Seja [= YHWH], sentado e fazendo a aposição de coroas nas letras [obs: trata-se de uma técnica de caligrafia para embelezar as letras da Torá].

 Moshé [Moisés] disse: " Mestre do Universo, quem detém a Sua mão? [Ou seja, por que Tu demoras tanto para adicionar essas coroas nas letras da Torá?]

Elohim lhe disse: "Um homem virá no final de muitas gerações, e seu nome é Akiva Ben Yosef; e ele precisará destas coroas, porque de cada espinho [certa marca caligráfica da letra] ele extrairá pilhas e pilhas de leis.

Ele [Moshé] disse para Ele [YHWH]: Mestre do Universo, mostre-o para mim.

Elohim disse-lhe [a Moshé]: Vire-se.

Moshé entrou e sentou-se no final da oitava fileira [da sala de aula], mas não sabia o que eles estavam dizendo. Moshé ficou pouco à vontade e desorientado.

Quando o Rabino Akiva chegou a um ponto, um de seus alunos lhe disse: Mestre, qual é o fundamento para este regramento?

Akiva respondeu: É a Torá dada a Moshé no Monte Sinai.

E Moshé foi consolado”.

 

Com base neste texto, afirmam os judeus tradicionais que o Rabino Akiva, pai do Judaísmo rabínico, recebeu tanto a aprovação do ETERNO quanto a de Moshé (Moisés) para extrair da Torá leis rabínicas que não estão nas Escrituras. Dizendo de outro modo, outorgou-se ao rabino Akiva autoridade para criar normas além da Torá e, já que os rabinos são sucessores de Akiva, estes também têm poder para determinar o sentido e o alcance de leis orais, ainda que muitas delas terminem por anular, como de fato anulam, a própria Torá. É por tal motivo que o Judaísmo rabínico ensina que a Torá oral é superior à Torá escrita.

Todavia, discordo totalmente da tese rabínica.

Compendiam-se as sete principais razões pelas quais está equivocada a ideia de que existe uma Lei Oral inspirada pelo ETERNO:

1) a Lei Oral não é mencionada sequer uma vez no Tanach (Primeiras Escrituras/“Antigo Testamento”);

2) nem Yeshua e nem seus discípulos falaram expressamente sobre a existência da Lei Oral;

3) quando Elohim ordenou a Moshé (Moisés) que subisse ao monte Sinai para receber as tábuas, disse-lhe: “Suba o monte, venha até mim, e fique aqui; e lhe darei as tábuas de pedra com a Torá e os mandamentos que escrevi para a instrução do povo” (Shemot/Êxodo 24:12). Nenhuma menção é feita à existência de certa Lei Oral;

4) o Tanach afirma que os rolos da Torá foram perdidos e completamente esquecidos por mais de 50 anos, e só foram redescobertos pelos sacerdotes do Templo (II Rs 22:8; II Cr 34:14-15). É inconcebível que uma Lei Oral pudesse ter sido lembrada se até mesmo a Lei escrita foi esquecida;

5) as palavras da Mishná e do Talmud são claramente palavras de homens que viveram entre os séculos II a V depois de Yeshua, faltando as seguintes fórmulas tão tradicionais dos relatos bíblicos: “E YHWH falou a..., dizendo:” e “Assim diz YHWH” etc;

6) aqueles que escreveram a Lei Oral foram homens que negaram Yeshua HaMashiach, logo, é impossível que tais homens tenham recebido a inspiração do ETERNO para redigir outros livros que integrariam o cânon das Sagradas Escrituras;

7) os rabinos afirmam que a Lei Oral é a interpretação oficial da Torá dada pelo ETERNO a Moshé (Moisés) no Monte Sinai. Contudo, se realmente olharmos para os tratados do Talmud, perceberemos que estão cheios de opiniões de rabinos que discordam uns dos outros em quase todas as questões. Os rabinos explicam que sempre que houver tais discordâncias “ambas as opiniões são as palavras do Elohim vivo”. Ora, não é razoável acreditar que o ETERNO iria se contradizer em sua própria Palavra.

Ante todos os escólios bosquejados, voltemos ao suposto encontro folclórico entre Moshé (Moisés) e o rabino Akiva. No caso citado, Moshé assentou-se na escola de Akiva para aprender sobre a Torá e não entendeu nada, isto é, detectou que as lições do Judaísmo rabínico são manifestamente contrárias àquilo que ele próprio escreveu na Torá!

Destarte, por mais que o conto talmúdico seja lendário, serve para ensinar-nos a seguinte lição: o Judaísmo rabínico não é bíblico!!!

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