SHAVUOT (Pentecostes): aspectos gerais e manifestação de Ruach HaKodesh

04/06/2014 23:04

 

SHAVUOT (“Pentecostes”):

Aspectos gerais e manifestação de Ruach HaKodesh

 

Por Tsadok Ben Derech

 

No calendário bíblico-israelita, existem três festas de peregrinação a Yerushalayim (Dt 16:16): 

1) Pêssach (Páscoa),

2) Shavuot (Semanas/“Pentecostes”), 

3) Sukot (Tendas/“tabernáculos”).

Tratar-se-á, neste estudo, da festa conhecida como Shavuot, palavra hebraica que significa “semanas”. Nas bíblias cristãs, a festa é denominada “Pentecostes”, nome dado pelos judeus de língua grega, que viveram nos séculos III e IV A.C., a partir da palavra grega “pente” (cinquenta).

Além de Shavuot e Pentecostes, a festa sub examine é tão multifacetada que é conhecida por outros nomes:

1) Yom HaBikurim (Dia das Primícias), porquanto o ETERNO determina a entrega das primícias, ofertas de grãos, neste dia (Bamidbar/Números 28:26). OBS: não confundir estas primícias com aquelas mencionadas em Lv 23:9-12, que se referem a Pessach.

2) Chag HaKatsir (Festival da Colheita), nome que se extrai de Shemot (Êxodo) 23:16;

3) Bikurei Ketsir Chitim (os primeiros frutos da colheita do trigo), conforme Shemot (Êxodo) 34:22

4) Zeman Matan Torateinu (Tempo da Entrega da Torá), porquanto, segundo a tradição judaica, a Torá foi entregue a Moshé (Moisés) pelo ETERNO na Festa de Shavuot.

 

Em suma, no Judaísmo, comemoram-se na Festa de Shavuot os (i) primeiros frutos da colheita de cereais e (ii) o dia em que o ETERNO entregou a Torá no Sinai.

Durante Shavuot, há a proibição de trabalho (Vayikrá/Levítico 23:21), visto que o ETERNO requer dedicação exclusiva no dia festivo.

A festa de Shavuot (Semanas) recai no dia seguinte após sete shabatot (sábados), a partir de Pêssach (Páscoa). Então, temos: 7 x 7 + 1 = 50.

“Depois para vós contareis desde o dia seguinte ao shabat [sábado], desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão.

Até ao dia seguinte ao sétimo shabat [sábado], contareis cinquenta dias; então oferecereis nova oferta de alimentos a YHWH.

Das vossas habitações trareis dois pães de movimento; de duas dízimas de farinha serão, levedados se cozerão; primícias são a YHWH.

Também com o pão oferecereis sete cordeiros sem defeito, de um ano, e um novilho, e dois carneiros; holocausto serão a YHWH, com a sua oferta de alimentos, e as suas libações, por oferta queimada de cheiro suave a YHWH.

Também oferecereis um bode para expiação do pecado, e dois cordeiros de um ano por sacrifício pacífico.

Então o sacerdote os moverá com o pão das primícias por oferta movida perante YHWH, com os dois cordeiros; santos serão a YHWH para uso do kohen [sacerdote].

E naquele mesmo dia apregoareis que tereis santa convocação; nenhum trabalho servil fareis; estatuto perpétuo é em todas as vossas habitações pelas vossas gerações.

E, quando fizerdes a colheita da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás. Eu sou YHWH vosso Elohim” (Vayikrá/Levítico 23:15-22).

 

Como visto no texto acima, a contagem da festa tem como referencial sete shabatot (sábados), e o shabat (sábado) se refere ao sétimo dia da semana. Já que a festa recai no dia seguinte ao sétimo shabat, será necessariamente no primeiro dia da semana (domingo). Tal interpretação está de acordo com a literalidade do texto de Vayikrá/Levítico 23:15-16, bem como com o entendimento dos netsarim (nazarenos), antigos essênios, ts'dukim (saduceus), minoria dos p’rushim (fariseus), karaítas, falashas e samaritanos.

Todavia, o atual calendário rabínico segue entendimento diverso, no sentido de que os cinquenta dias não seriam contados a partir do shabat (sétimo dia da semana), mas sim do dia imediatamente posterior ao primeiro dia da Festa das Matsot (pães ázimos). Por quê? Porque este dia é de descanso, ainda que recaia em qualquer dia da semana (Lv 23:7), sendo reputado shabat (cessação de atividades). Não concordamos com este raciocínio, porquanto, conforme exposto acima, os textos de Lv 23:15-16 referem-se ao shabat – sétimo dia da semana.

A contagem dos cinquenta dias até a Festa de Shavuot é denominada Sefirat Ha-Omêr (Contagem do Ômer), pois o omer é um feixe de cereal que era levado ao Templo no feriado de Shavuot.

Em Shavuot, os israelitas traziam os primeiros frutos da colheita (primícias) para o Mishkan (Tabernáculo) e, posteriormente, ao Beit HaMikdash (Templo). Trata-se de uma festa com dimensão agrícola em que YHWH é honrado com as primícias da colheita, verdadeiras ofertas de gratidão por Sua provisão e sustento:

Até ao dia seguinte ao sétimo shabat [sábado], contareis cinquenta dias; então oferecereis nova oferta de alimentos a YHWH.

Das vossas habitações trareis dois pães de movimento; de duas dízimas de farinha serão, levedados se cozerão; primícias são a YHWH.

Também com o pão oferecereis sete cordeiros sem defeito, de um ano, e um novilho, e dois carneiros; holocausto serão a YHWH, com a sua oferta de alimentos, e as suas libações, por oferta queimada de cheiro suave a YHWH.

Também oferecereis um bode para expiação do pecado, e dois cordeiros de um ano por sacrifício pacífico.

Então o sacerdote os moverá com o pão das primícias por oferta movida perante YHWH, com os dois cordeiros; santos serão a YHWH para uso do kohen [sacerdote]” (Vayikrá/Levítico 23:15-20).

 

Era costume que as famílias apresentassem as ofertas ao Kohen (sacerdote) recitando o seguinte texto das Escrituras:

“Então vocês declararão perante YHHW, o seu Elohim: ‘O meu pai era um arameu errante. Ele desceu ao Egito com pouca gente e ali viveu e se tornou uma grande nação, poderosa e numerosa.

Mas os egípcios nos maltrataram e nos oprimiram, sujeitando-nos a trabalhos forçados.

Então clamamos a YHWH, ao Elohim dos nossos antepassados, e YHWH ouviu a nossa voz e viu o nosso sofrimento, a nossa fadiga e a opressão que sofríamos.

Por isso YHWH nos tirou do Egito com mão poderosa e braço forte, com feitos temíveis e com sinais e maravilhas.

Ele nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra, terra onde manam leite e mel.

E agora trago os primeiros frutos do solo que tu, ó YHWH, me deste’. Ponham a cesta perante YHWH, o seu Elohim, e curvem-se perante ele” (Devarim/Deuteronômio 26:5-10).

 

Ainda que hoje se viva em uma sociedade predominantemente industrial, deve-se honrar e agradecer o ETERNO pela produção agrícola, pois esta é essencial para a sobrevivência humana. Materializava-se a gratidão por meio de ofertas ao ETERNO:

“... Não aparecerão vazios perante YHWH;

cada qual oferecerá conforme puder, conforme a bênção que YHWH teu Elohim lhe houver dado”. (Devarim/Deuteronômio 16:16-17).

 

Se hoje não existe mais Beit HaMikdash (Templo), como cumprir esta mitsvá (mandamento)? Como podemos ofertar a YHWH?

Entende-se que alimentos e contribuições devam ser doados aos pobres:

“O que se compadece do pobre empresta a YHWH, que lhe retribuirá o seu benefício” (Mishlei/Provérbios 19:17).

 

Como dito acima, afirma a tradição que a Torá foi entregue a Moshé (Moisés) no dia de Shavuot, razão pela qual este dia festivo é de suma importância, visto que a Torá é a base do Judaísmo, inclusive sendo o alicerce de todos os ensinamentos de Yeshua:

“17. Não pensem que vim abolir a Torá ou os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir.

18. Sim, é verdade! Digo a vocês: até que os céus e a terra passem, nem mesmo um yud ou um traço da Torá passará – não até que todas as coisas que precisam acontecer tenham ocorrido.

19. Portanto, quem desobedecer à ‘menor’ dessas mitsvot [mandamentos] e ensinar outras pessoas a agirem da mesma forma será chamado menor no Reino dos Céus ” (Matityahu/Mateus 5:17-19).

 

Tendo em vista que em Shavuot se comemora a outorga da Torá, há a tradição de se ler o texto de Shemot (Êxodo) 19 e 20, pois nele se encontram as palavras ditas pelo ETERNO em Asseret HaDibrot (As Dez Palavras; “Dez Mandamentos”).

Importante registar que a Torá não é apenas o padrão de conduta do povo de Israel, mas também o conjunto de normas dirigidas aos gentios (estrangeiros). Dizendo de outro modo: já que YHWH não faz acepção de pessoas, a própria Torá estabelece que seus mandamentos seriam aplicáveis tanto aos israelitas quanto aos gentios:

A mesma Torá será para natural e para o estrangeiro [gentio] que peregrinar entre vós” (Shemot/Êxodo 12:49).

“Quanto à congregação, haja apenas um estatuto, tanto para vós outros como para o estrangeiro [gentio] que morar entre vós, por estatuto perpétuo nas vossas gerações; como vós sois, assim será o estrangeiro [gentio] perante YHWH.   A mesma Torá e o mesmo estatuto haverá para vós outros e para o estrangeiro [gentio] que mora convosco” (Bemidbar/Números 15:15-16).

Um e o mesmo juízo havereis, tanto para o estrangeiro [gentio] como para o natural [israelita]; pois eu sou YHWH, vosso Elohim” (Vayikrá/Levítico 24:22).

 

Muitos judeus têm o hábito de passar a madrugada da festa estudando o Tanach (Primeiras Escrituras).

Outra tradição é a leitura de Megilat Rut (Livro de Rute), uma vez que as cenas descritas na colheita de Rut estão de acordo com a Festa de Shavuot.

Imperioso registrar que foi durante a Festa de Shavuot que os discípulos de Yeshua ficaram cheios da Ruach HaKodesh (espírito de santidade ou “Espírito Santo”), e Kefá (Pedro) começou a anunciar com ousadia a morte e a ressurreição de Yeshua:

Chegou a FESTA DE SHAVUOT, e os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar.

E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados.

E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.

E todos foram cheios da Ruach HaKodesh [espírito de santidade ou “Espírito Santo”], e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.

(...)

Então Kefá [Pedro] levantou-se com os onze e, em alta voz, dirigiu-se a eles...” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 2:1-4 e 14).

 

Após Kefá (Pedro) proclamar que Yeshua é o Mashiach de Israel, firme na autoridade que lhe foi concedida pela Ruach HaKodesh (“Espírito Santo”), aproximadamente três mil judeus se juntaram aos netsarim (nazarenos):

“E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Kefá [Pedro] e aos demais emissários: Que faremos, homens irmãos?

E disse-lhes Kefá [Pedro]: Arrependei-vos, e cada um de vós seja imerso em nome de Yeshua HaMashiach, para perdão dos pecados; e recebereis o dom da Ruach HaKodesh [Espírito Santo];

Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Elohim nosso Senhor chamar.

E com muitas outras palavras isto testificava, e os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa.

De sorte que foram imersos os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas” (Atos 2:37-41).

 

Todos aqueles que creem em Yeshua sabem a importância dos eventos ocorridos no capítulo segundo de Ma’assei Sh’lichim (Atos dos Emissários/Apóstolos).  Consequentemente, a festa de shavuot também nos lembra deste grande dia e de todos os gloriosos dias em que os emissários pregaram a mensagem de Yeshua, manifestando inúmeros milagres operados pelo ETERNO.

Como netsarim (nazarenos), devemos nos espelhar nos emissários e pregar a mensagem de arrependimento para que os homens abandonem seus pecados e se voltem para Elohim, recebendo o perdão pelo reconhecimento do sacrifício expiatório de Yeshua HaMashiach (Ma’assei Sh’lichim/Atos 2:38). Nesta jornada, devemos ainda, em nome de Yeshua HaMashiach, curar enfermos e expulsar demônios (Yochanan Marcus/Marcos 16:17 e 18).

Segundo o Judaísmo Nazareno, a Festa de Shavuot vai muito além da comemoração dos primeiros frutos da colheita e da outorga da Torá, preordena-se precipuamente a buscar a imersão (batismo) em Ruach HaKodesh (Espírito Santo). É dia de buscar o sobrenatural do ETERNO!!!

A imersão em Ruach HaKodesh é o ato sobrenatural pelo qual o Espírito de YHWH passa a habitar dentro do homem (I Co 6:19), caracterizando-se:

1) por ser o próprio Espírito do Mashiach:

“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Elohim habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito do Mashiach, esse tal não é dele” (Rm 8:9).

OBS: verifique que o texto utiliza um paralelismo sinônimo, típico da poesia hebraica, em que o Espírito de Elohim é sinônimo do Espírito do Mashiach. Aliás, o Midrash afirma que o Espírito de Elohim mencionado em Gn 1:2 é o Espírito do Mashiach (Midrash Rabá, Vayikrá XIV, I).

 

2) por ser promessa de Yeshua dirigida a todos aqueles que o seguem:

“Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará a Ruach HaKodesh àqueles que lho pedirem?” (Lucas 11:13)

 

3) por ser dada somente àqueles que são obedientes a Elohim:

“Ora, nós somos testemunhas destes fatos, e bem assim a Ruach HaKodesh, que Elohim outorgou aos que lhe obedecem” (Atos 5:32)

 

4) por guiar o discípulo em toda a verdade, que é a Torá (Sl 119:105, 142, 151; Pv 6:23):

“Mas quando a Ruach da Verdade  vier, ela  os conduzirá em toda a verdade...”  (Jo 16:13)

 

5) por conferir santidade:

“os quais foram escolhidos segundo conhecimento prévio de Elohim, o Pai, para a obediência através da santidade da Ruach...” (I Pe 1:2)

 

6) por manifestar fruto:

“Mas o fruto da Ruach é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé” (Gl 5:22)

 

7) pela concessão de sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento e temor de YHWH:

“E repousará sobre ele a Ruach de YHWH, a Ruach de sabedoria e de entendimento, a Ruach de conselho e de fortaleza, a Ruach de conhecimento e de temor de YHWH” (Yeshayahu/Isaías 11:2)

 

8) pela outorga de poder para testemunhar o nome de Yeshua HaMashiach:

“Mas receberão poder quando a Ruach HaKodesh descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Yerushalayim [Jerusalém], em toda a Yehudá [Judeia] e Shomron [Samaria], e até os confins da terra" (Atos 1:8)

 

9) pela dádiva de poder sobrenatural para produzir milagres:

“Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24:49)

“À vista disto, Kefá [Pedro] se dirigiu ao povo, dizendo: Israelitas, por que vos maravilhais disto ou por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?” (Atos 3:12)

“Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo” (Atos 6:8)

 

10) pela manifestação de dons espirituais:

“Ora, há diversidade de dons, mas a Ruach é a mesma.

E há diversidade de serviços, mas YHWH é o mesmo.

E há diversidade de operações, mas é o mesmo Elohim que opera tudo em todos.

Mas a manifestação da Ruach é dada a cada um, para o que for útil.

Porque a um pela Ruach é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pela mesma Ruach, a palavra da ciência;

E a outro, pela mesma Ruach, a fé; e a outro, pela mesma Ruach, os dons de curar;

E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas.

Mas uma só e a mesma Ruach opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.

Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é também o Mashiach” (1 Co 12:4-12)

 

CONCLUSÃO

Asseverou-se acima que, à luz do Judaísmo Normativo, a Festa de Shavuot comemora os primeiros frutos da colheita e a entrega da Torá. Se os judeus tradicionais se alegram neste dia festivo, nós, yehudim netsarim (judeus nazarenos), devemos nos regozijar sobremaneira, pois temos a própria Torá Viva, que é Yeshua, habitando em nós.

Busquemos na Festa Shavuot os melhores dons para proclamar a Torá de YHWH e testemunhar Yeshua HaMashiach. Que o sobrenatural de YHWH recaia sobre todos nós!!!

 

חג שמח

בוא רוח הקודש

Feliz Festa!

Venha, Ruach HaKodesh!

 

 

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