Sha'ul (Paulo): zeloso da Torá ou hipócrita?

21/08/2013 09:11

SHA’UL (Paulo):

ZELOSO DA TORÁ OU HIPÓCRITA?

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Sha’ul (Paulo) é muito mal compreendido por muitos que dizem que a Torá não é mais válida hoje. Alguns realmente se sentem desconfortáveis com seus escritos, tais como os antigos ebionitas, que removeram as Escrituras de Sha’ul de seu cânon.

O ebionismo foi um dos grupos do Judaísmo do primeiro século, constituído por judeus que creram que Yeshua é o Mashiach. Os ebionitas defendiam a plena vigência da Torá, porém, erroneamente achavam que Sha’ul (Paulo) pregou a abolição da Lei, razão pela qual declararam que Sha’ul seria um herege. Eis o raciocínio dos ebionitas: 1) Yeshua não anulou a Torá (Mt 5:17); 2) Sha’ul (Paulo) anulou a Torá; 3) logo, os ensinos de Sha’ul são contrários às lições de Yeshua, fazendo do primeiro um herege.  Conforme será explicado, os ebionitas estavam errados[1], pois Sha’ul nunca ensinou nada contra a Torá, apenas a interpretou da maneira correta, despida do legalismo danoso que corrompia o Judaísmo.

Até hoje a Igreja Cristã, seguindo o erro ebionita, ensina que Sha’ul (Paulo) afirmou a anulação da Torá. Porém, existem raras exceções, já que uma minoria de teólogos cristãos giza corretamente que Sha’ul não contrariou a mensagem de Yeshua. Klaus Berger, Professor de Novo Testamento da Universidade de Heildelberg (Alemanha), redigiu:

Tese: Paulo ‘traiu’ a exigência de Jesus, qual seja, que se realize totalmente a lei [Torá], até o jota e o til (Mt 5,17-19). Ele, como agente dos romanos, combateu a comunidade primitiva, que era fiel à lei [Torá].

Contra essa esse: Paulo não aboliu a lei [Torá]. Ele diz expressamente que ela é ‘santa’ e que provém do ‘Espírito de Deus’. O Espírito Santo, concedido às pessoas cristãs, agora justamente torna possível realizar a lei [Torá] de Deus (Rm 8,3-4). Por isso, Paulo também pode dizer que o amor implica a realização de todos os mandamentos da lei [Torá] – afirmar isso seria totalmente absurdo, caso não se objetivasse o cumprimento da lei [Torá]. Aliás, Paulo nem sequer aboliu as prescrições rituais e de penitência do Antigo Testamento

(Qumran e Jesus, Vozes, 2ª edição, página 27).

 

O pensamento equivocado de que Sha’ul anulou a Torá não é exclusivo do Cristianismo. Incidindo no mesmo engano, o Judaísmo rabínico sustenta que Sha’ul (Paulo) foi um apóstata, por posicionar-se contra a Torá. Em “Toledot Yeshu”, por exemplo, que se trata de uma antiga paródia rabínica dos Evangelhos e do livro de Atos, acusa-se Sha’ul de contradizer os ensinos de Yeshua, causando muitos problemas (Toledot Yeshu 6:16-41; 7:3-5).

Pelo menos um dispensacionalista moderno, Maurice Johhson, leciona que o Messias não veio abolir a Torá, mas que Sha’ul (Paulo) ensinou tal abolição anos mais tarde. Escreveu o citado dispensacionalista:

“Aparentemente, Deus permitiu que o sistema de ordenanças judaicas fosse praticado até trinta anos da morte de Cristo, porque em Sua paciência, Deus foi gradualmente mostrando aos judeus

 

que Seu programa [a Torá] estava mudando... Assim, Deus foi lentamente retirando os judeus da religião judaica, e Paulo finalmente escreveu estas gloriosas verdades libertadoras.”

(Saved by "Dry" Baptism!; a pamphlet by Maurice Johnson; pp. 9-10).

 

O mencionado autor se equivoca, uma vez que assevera que o ETERNO progressivamente promoveu uma migração do Judaísmo para o Cristianismo, e esta religião se consumou com os escritos de Paulo. Se Yeshua não veio criar uma nova religião, já que pregava a Torá (Mt 5:17), conclui-se com toda certeza que Sha’ul (Paulo) não adotaria uma postura antagônica ao Mashiach.

A incompreensão acerca dos escritos de Sha’ul se deve, em parte, à erudição de suas palavras. Aliás, Kefá (Pedro) advertiu que as Escrituras de Sha’ul são difíceis de serem entendidas:

“De fato, ele [Sha’ul] fala sobre essas coisas em todas as suas cartas. Elas contêm pontos difíceis de entender, coisas que os indoutos e os instáveis distorcem, para sua destruição, como também o fazem com as outras Escrituras.”

(Kefá Beit/2ª Pedro 3:16).

 

Extrai-se do texto que algumas pessoas estavam distorcendo os ensinos de Sha’ul, o que recebeu a reprovação de Kefá (Pedro). Lamentavelmente, foram estas distorções que se instalaram no Cristianismo, e até hoje persistem.

Sha’ul (Paulo) sabia que seus ensinos estavam sendo deturpados, pois menciona este fato ao escrever aos romanos:

“Na verdade, por que não dizer (como algumas pessoas nos caluniam ao afirmar que declaramos): ‘Façamos o mal, para que nos venha o bem?’ A condenação dessas pessoas é justa!”

(Ruhomayah/Romanos 3:8)

 

Sha’ul fala da distorção caluniadora de seus ensinamentos, dizendo:

“Portanto, devemos dizer: ‘Vamos continuar pecando para que haja mais graça?’ De jeito nenhum!”

(Ruhomayah/Romanos 6: 1-2).

 

“Desse modo, a que conclusão chegamos? ‘Vamos pecar, porque não jazemos sob o legalismo, mas debaixo da graça?’. Elohim não

 

o permita!”

(Ruhomayah/Romanos 6:15 – tradução da Bíblia Judaica Completa, com a substituição de “Deus” por “Elohim”).

 

Reflita sobre os versos citados. Sha’ul ensinou que o homem não deveria pecar (Rm 6:1-2). Logo, se pecado significa violação da Torá, esta é a ideia contida em Rm 6:1-2: “Portanto, devemos dizer: ‘Vamos continuar pecando [= violando a Torá] para que haja mais graça?’ De jeito nenhum!”.

A mensagem de Sha’ul é clara como a luz do dia, qual seja, o homem deve abandonar todo o tipo de transgressão contra a Torá (o pecado). Isto demonstra que a lição de Sha’ul está em total harmonia com o magistério de Yeshua, porquanto ambos pregaram a Torá. 

Então, Sha’ul (Paulo) foi mal interpretado quando alguns acharam incorretamente que, por estarmos debaixo da graça, não seria mais preciso observar a Torá. Se Yeshua ensinou que não veio revogar a Torá (Mt 5: 17), é óbvio que esta NÃO seria revogada por Sha’ul!!!

Após sua visita a Jerusalém em Atos 21, Sha’ul foi confrontado com a deturpação de seus ensinamentos. Foi-lhe dito:

“Ao ouvir o relato, eles louvaram a Elohim, mas também lhe disseram: ‘Vejam, irmãos, quantas dezenas de milhares de crentes há entre os habitantes de Yehudá, e eles são zelosos da Torá”. 

“O que eles ouviram falar a seu respeito é que você [Sha’ul] está ensinando aos judeus que vivem entre os gentios a apostatar de Moshé [Moisés], dizendo-lhes que não mais realizem a circuncisão em seus filhos e não sigam as tradições.”

(Atos 21:20-21).

 

A fim de provar que isso não era nada mais do que calúnia, Sha’ul cumpre o voto de nazireu e vai fazer ofertas (sacrifícios[2]) no Templo (At 21:22-26 e Nm 6:13-21), demonstrando que ele próprio observava a Torá:

“Que faremos? Certamente eles saberão que você [Sha’ul] chegou;

 

portanto, faça o que lhe dizemos. Estão conosco quatro homens que fizeram um voto.

Participe com esses homens dos rituais de purificação e pague as despesas deles, para que rapem a cabeça. Então todos saberão que não é verdade o que falam de você, mas que você continua vivendo em obediência à Torá [Lei]

(Ma’assei Sh’lichim/Atos 21:22-24).

 

Sha’ul fez e disse muitas coisas para provar que os nazarenos mantinham e ensinavam a Torá. Sha’ul:

a) circuncidou Timóteo (Atos 16:1-3);

b) fez o voto de nazireu (Atos 18:18; 21:17-26);

c) ensinou que fossem observadas as festas prescritas por YHWH, tais como: a) Pessach/Páscoa (Atos 20:6)[3]; b) Shavuot/Pentecostes (Atos 20:16; 1Cr 16:8.); c) jejum no Yom Kippur (Atos 27:9);

d) guardava o shabat (At 17:2; 18:4).

e) ainda realizava sacrifícios de animais no Templo (Atos 21:17-26/ Números 6:13-21; Atos 24:17-18). Obviamente, tais sacrifícios não eram para a remissão de pecados, pois o sacrifício de Yeshua foi perfeito. Porém, a Torá prevê outros tipos de sacrifícios (exemplo: ofertas de paz, Lv 3).

Há inúmeras passagens na B’rit Chadashá apontando que Sha’ul (Paulo) cumpria a Torá. Vale citar notáveis declarações do próprio Sha’ul:

Não cometi nenhuma ofensa contra a Torá, crida pelos judeus, nem contra o Templo, nem contra o imperador.”

(Atos 25:8).

 

Eu não fiz nada contra o nosso povo ou os costumes de nossos pais.

(Atos 28:17).

 

“... a Torá é santa, e o mandamento é santo, justo e bom.”

(Rm 7:12).

 

“Porque, no eu interior, concordo totalmente com a Torá de Elohim...”

(Rm 7:22).

 

Segue-se então que abolimos a Torá por meio dessa fé? De maneira nenhuma! Ao contrário, confirmamos a Torá.”

(Rm 3:31).

 

Após serem confrontados por vários atos e ensinos de Sha’ul que comprovam que a Torá ainda é válida e dura para sempre, aqueles que ensinam que “a Lei acabou” acusam Sha’ul de ser um hipócrita.

Charles Ryrie, por exemplo, nos comentários de rodapé ao texto de Atos 21:24 (Bíblia de Estudo Ryrie), afirma que Sha’ul (Paulo) era um “cristão no meio da estrada” (“em cima do muro”, ou um “meio cristão”). M.A. DeHaan escreveu em um livro chamado “Cinco erros de Paulo” que Sha’ul cometeu erros porque seguia a Torá. Estes professores da iniquidade (opositores da Torá) lecionam que Paulo obedecia aos mandamentos da Torá, mas ensinava que os outros não precisavam obedecê-la por ter sido anulada. Em outras palavras, Sha’ul seria um hipócrita, pois guardaria a Torá mesmo sabendo que esta não mais existe.

Vejamos o que diz o próprio Sha’ul (Paulo) acerca de sua suposta hipocrisia:

Por acaso busco agora a aprovação humana? Não. Desejo a aprovação de Elohim! Ou estou tentando agradar às pessoas? Se eu ainda fizesse isso, não seria servo do Messias

(Gl 1:10).

 

“Vocês mesmos sabem, irmãos, que a visita que lhes fizemos não foi infrutífera. Ao contrário, apesar de termos sofrido e sido insultados em Filipos, como sabem, tivemos a coragem, unidos a Elohim, de lhes anunciar as boas-novas, em meio a grande pressão. Porque a solicitação que fazemos não procede de erro ou de motivos impuros, tampouco temos a intenção de enganá-los. Ao contrário, pelo fato de Elohim ter nos testado e considerado aptos, confiou-nos as boas-novas; esta é a razão pela qual falamos: não para obter o favor das pessoas, mas o de Elohim, que testa o coração. Pois, como sabem, jamais empregamos discursos lisonjeiros, nem nos mascaramos a fim de dissimular a cobiça – Elohim é testemunha.”

(1 Ts 2: 1-5).

 

Já que Sha’ul disse expressamente que guardava a Torá (At 25:8, Rm 3:31, Rm 7:12,22), das duas uma: ou disse a verdade ou  estava mentindo em suas epístolas.

Quem foi Paulo? Zeloso da Torá ou hipócrita?

Ficamos com a primeira opção. E você?

 

 


[1] Os ebionitas também cometeram outros erros doutrinários: 1) apenas usavam o evangelho de Mateus, em uma versão menor da usada atualmente; 2) diziam que Yeshua era “um homem simples e comum, justificado à medida em que progredia em seu caráter”, ou seja, não era Elohim em carne; 3) parte dos ebionitas negava o nascimento virginal do Mashiach (vide História Eclesiástica, Eusébio de Cesaréia, Novo Século, 2002, página 67).

[2] Obviamente, o sacrifício realizado por Sha’ul não era para a remissão de pecados, já que este sacrifício foi realizado perfeitamente por Yeshua. Não obstante, a Torá prevê várias espécies de sacrifícios com outras finalidades (ex: o sacrifício de pazes/shelamim destina-se ao reconhecimento a Elohim pelas suas generosidades e bondades em geral; Lv 3).

[3] Já que pessach (páscoa) é seguida da festa das matzot (pães ázimos), Atos 20:6 refere-se a ambas as festas.

 

 

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