PARTES I e II - INTRODUÇÃO E QUEM ERAM OS ESSÊNIOS?

21/08/2013 15:05

PARTES I e II

INTRODUÇÃO E

QUEM ERAM OS ESSÊNIOS?

 

Por Tsadok Ben Derech

 

 

I - INTRODUÇÃO

 

Em artigos pretéritos, demonstrou-se que Yeshua não veio criar uma nova religião. Enquanto homem, Yeshua foi um rabino do primeiro século que ensinou Judaísmo. Estudaram-se, na ocasião, algumas semelhanças das lições de Yeshua com a doutrina dos p’rushim (fariseus). No presente ensaio, investigar-se-á a seita judaica dos essênios, cujas crenças e práticas também se aproximam em muito com o Mashiach. Aliás, as semelhanças entre netsarim (nazarenos) e isyim (essênios) são tão grandes que muitos autores chegam a sustentar que Yeshua era essênio, e os netsarim (nazarenos) foram simplesmente essênios que passaram a crer e a seguir o Mashiach Yeshua.

Somente para se dar um exemplo inicial, os essênios já eram conhecidos como “o Caminho” e, a posteriori, este mesmo nome foi usado pelos primeiros discípulos de Yeshua:

“Ele [Sha’ul/Paulo] foi ao kohen hagadol [Sumo Sacerdote] e lhe pediu cartas para as sinagogas de Dammesek [Damasco], que o autorizavam a prender qualquer pessoa que encontrasse, homens e mulheres, que pertencessem ao ‘Caminho’, levando-as de volta para Yerushalayim [Jerusalém].” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 9:2).

“Algumas pessoas, porém, começaram a se endurecer e recusaram-se a ouvir, passando a difamar ‘o Caminho’ perante toda a sinagoga.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 19:9).

“Por volta dessa época, ocorreu um dos maiores tumultos por causa do ‘Caminho’.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 19:23).

“Entretanto, isto eu [Sh’aul/Paulo] admito: adoro o Elohim de nossos pais, de acordo com “o Caminho” (ao qual eles chamam seita). Continuo a crer em todas as coisas de acordo com a Torá [Lei] e todos os escritos dos Profetas.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 24:14).

 

Se os essênios existiam muito tempo antes de Yeshua e já eram conhecidos como “o Caminho”, por que os talmidim (discípulos) de Yeshua iriam se intitular como “o Caminho”? Há três hipóteses: 1) os netsarim (nazarenos) plagiaram injustamente o nome “o Caminho”, pertencente aos essênios, passando a existir, simultaneamente, dois grupos distintos com o mesmo nome ; 2) muitos netsarim (nazarenos) eram essênios que aceitaram Yeshua como Mashiach, razão pela qual continuaram a usar o nome pelo qual já eram conhecidos (“o Caminho”); 3) ambos os grupos reivindicavam para si o cumprimento das profecia de Yeshayahu (Isaías) 40:3 no tocante ao “Caminho” de YHWH, e detinham muitas ideias em comum.

Tendo em vista que os talmidim de Yeshua eram homens com alto grau de santidade e temor, não nos parece que a primeira hipótese seja verdadeira, uma vez que os netsarim não seriam iníquos ao ponto de cometer plágio.

As demais hipóteses são plausíveis, e indicam uma proximidade em maior ou em menor grau entre essênios e nazarenos. Assim, é possível que grande parte dos discípulos do Mashiach tenha vindo do grupo dos essênios, o que não exclui, obviamente, o ingresso de pessoas de outras vertentes do Judaísmo do primeiro século. Porém, já que o nome “o Caminho” deve ter sido dado pela liderança dos netsarim (nazarenos), provavelmente estes mesmos fossem essênios; ou receberam, direta ou indiretamente, influência essênia em sua formação religiosa; ou, ainda, comungassem das mesmas doutrinas e práticas. Como é sabido por todos, Yeshua teve vários talmidim, mas elegeu 12 (doze) para um discipulado direto (Matityahu/Mateus 10:1-4). De igual modo, o líder essênio escolhia e discipulava 12 (doze) noviços. Estas e tantas outras similitudes tornam relevante o estudo dos essênios e sua influência no Judaísmo ensinado por Yeshua, o que abrirá novos horizontes para a melhor compreensão dos escritos da B’rit Chadashá (Aliança Renovada/“Novo Testamento”).

Com efeito, muito da sabedoria de Yeshua possui estreita relação com o modo de pensar e viver essênio e, em decorrência, muitos eruditos chegam a declarar que os essênios, cuja provável origem gira em torno de 150 A.C., foram os precursores da comunidade de discípulos do Mashiach, bem como ingressaram amplamente em suas fileiras. Esta tese se justifica pelo fato de que, conforme se verá mais a frente, muitas doutrinas e práticas essênias são semelhantes às dos netsarim (nazarenos). Inclusive o famoso Sermão da Montanha proferido por Yeshua (Matityahu/Mateus 5 a 7) é apontado pelo historiador orientalista Christian Ginsburg como sendo a exemplificação do estilo de vida essênio:

“A seriedade e determinação desses essênios para avançarem até o mais alto estado de santidade podiam ser observadas em sua vida de abnegação e religiosidade; e, com justiça, se pode perguntar se qualquer sistema religioso jamais produziu uma comunidade de santos como a deles. Sua confiança absoluta em Deus e sua resignação quanto à conduta da Providência; sua vida uniformemente santa e abnegada; seu irrestrito amor à virtude e máximo desprezo pela fama, pela riqueza ou pelos prazeres do mundo; sua diligência, temperança, modéstia e simplicidade de vida; o contentamento de sua mente e a alegria de seu temperamento; seu amor à ordem e sua aversão até mesmo pela aparência de falsidade; sua benevolência e filantropia; seu amor pelos confrades e sua busca de paz com todos os homens; seu ódio à escravidão e à guerra; sua consideração gentil para com as crianças e a reverência e a preocupação para com os idosos; seu atendimento dos doentes e sua presteza em aliviar os aflitos; sua humildade e magnanimidade; sua firmeza de caráter e poder para controlar as paixões; sua resistência heroica aos sofrimentos mais angustiantes em favor da probidade; e seu modo alegre de aguardar a morte, como libertadora de suas almas imortais dos vínculos do corpo, a fim de estarem para sempre num estado de bem-aventurança com o Criador – dificilmente encontraram paralelo na história da raça humana. Não é de admirar que os judeus de seitas diferentes, grego e romanos, historiadores eclesiásticos cristãos e escritores pagãos tenham sido igualmente forçados a prodigalizar os mais irrestritos elogios a essa irmandade santa. Parece que o Salvador do Mundo, que apresentou como exemplo de simplicidade e inocência de caráter a criancinha que tomou nos braços, também mostrou o que é necessário para uma vida santa no Sermão da Montanha segundo uma descrição dos essênios. De maneira notável, essa irmandade exemplifica as lições que Cristo apresenta em Mateus, cap.5, etc.” (Os Essênios – Sua História e Doutrinas, editora Pensamento, 1993, páginas 19 e 20).

 

Antes de analisarmos as semelhanças entre os netsarim e os essênios, faz-se mister conhecer este grupo, envolto em tantos mistérios.

 

II - QUEM ERAM OS ESSÊNIOS?

Os isyim/essênios (no hebraico moderno: אִסִּיִים) foram uma seita do Judaísmo no período do Segundo Templo.  Obsevavam com mais rigidez do que os fariseus as regras de pureza levítica, aspirando alcançar o mais alto grau de santidade. Viviam exclusivamente pelo trabalho de suas mãos e em estado de comunismo, já que aqueles que ingressavam no grupo entregavam todos os seus bens, que passavam a ser de propriedade de todos. Afastavam-se de toda a prática do mal e dos prazeres deste mundo, dedicando seu tempo ao estudo da Torá, à devoção ao ETERNO e à prática da benevolência. Para atingir a máxima santidade almejada, muitos essênios passaram a viver em comunidades afastadas da sociedade, isolando-se de toda a contaminação das coisas mundanas, instituindo núcleos monásticos no deserto (regiões do Mar Morto) e em Dammesek (Damasco). Todavia, há registros de essênios que viviam normalmente nas cidades, relacionando-se com pessoas de outras crenças. Muitos dos essênios optavam pelo celibato para se dedicarem exclusivamente ao aprimoramento espiritual, servindo ao ETERNO. Os casados, por sua vez, mantinham relações sexuais, mas praticavam períodos de abstenção para não se prenderem aos prazeres sensuais. Criam em anjos e demônios, e especializaram-se em batalha espiritual, visto que pensavam existir uma guerra entre os “filhos da luz” (os essênios) e as forças malignas de Belial. Buscavam e exercitavam dons espirituais, principalmente o de profecia, e raramente erravam em suas predições do futuro.

No plano doutrinário, tanto os essênios quanto os fariseus pensavam de forma semelhante: 1) a Torá é a base da religião dos dois grupos; 2) ambos seguiam tradições de seus antepassados, apesar de muitas tradições essênias serem diferentes das farisaicas; 3) ambos criam que Elohim controla o destino de todos; 4) pensavam que o homem pode optar entre o bem e o mal (livre arbítrio); 5) criam na imortalidade da alma; 6) sustentavam a existência da ressurreição; 7) aguardavam ansiosamente pela vinda do Mashiach; 8) lecionavam que, no mundo vindouro, há uma recompensa para os justos e o castigo para os ímpios; 9) tal como a farisaica Escola de Hilel, os essênios interpretavam que o fundamento da Torá está no amor a Elohim e no amor ao próximo.

Estas semelhanças entre o essenismo e o farisaísmo não foram olvidadas por muitos estudiosos. Ensina Christian D.Ginsburg:

“Na doutrina, assim como na prática, essênios e fariseus eram particularmente parecidos.” (Os Essênios: sua História e Doutrinas, Ed. Pensamento, 1993, página 26).

 

A Jewish Encyclopedia, no verbete “essenes”, define os essênios como um “ramo dos fariseus” cujo objetivo seria alcançar “o mais alto grau de santidade”.

Gizou o rabino Shelomoh Yehudah Rapoport (1790-1867) que os essênios não constituíram uma seita distinta do Judaísmo, sendo simplesmente uma das formas de expressão desta religião, e que não houve a ruptura dos essênios com o restante da comunidade judaica. Escreveu ainda que, apesar de o Talmud e os Midrashim não usarem o nome “essênios”, há referências aos membros desta seita, chamados pelos escritores do Talmud de “chassidim” (piedosos), “velhos crentes” e “comunidade santa de Yerushalayim”. Para o emérito rabino citado, os essênios desenvolveram uma forma intensificada do farisaísmo, buscando a santidade pelo zelo por tudo que é sagrado, pela grande humildade, moderação no comer e beber, comunhão de bens, ou seja, uma vida totalmente dedicada à santidade (Bikure HaItim, vol.X, Viena, 1829, vide páginas 118 e seguintes).   

Por conseguinte, ainda que haja diferenças entre os essênios e os p’rushim (fariseus), ambos os grupos são denominações do Judaísmo vigente no primeiro século e tiveram relevância doutrinária e devocional na formação do Judaísmo do “Caminho”, a religião praticada pelos netsarim (nazarenos), os primeiros discípulos de Yeshua.

Postas as semelhanças, destacam-se as principais diferenças entre o essenismo e o farisaísmo:

1) os essênios criaram um grupo religioso com vida monástica, isolando-se em grande parte da sociedade. Já os p’rushim (fariseus) habitavam normalmente nas cidades e não se distanciavam da população em geral. Tal distinção não é absoluta, mas relativa, visto que parte dos essênios habitava normalmente em cidades. Logo, temos tanto essênios sectários, como o famoso grupo de Qumran, como essênios que interagiam com a sociedade israelita e demais grupos religiosos judaicos;

2) os essênios optaram pelo celibato, enquanto os p’rushim (fariseus) sempre valorizaram o casamento como uma instituição sagrada, recomendando a Mishná que um homem tome uma esposa aos dezoito anos de idade (Avot 5:22). Esta diferença também comporta exceção, uma vez que alguns essênios se casavam. Todavia, estes não valorizavam tanto a necessidade do casamento como os p’rushim;

3) os essênios não iam ao Beit Hamikdash (Templo) e nem ofereciam sacrifícios, pois interpretavam rigidamente as leis levíticas sobre a pureza. Já que o sacerdócio estava corrompido, entendiam os essênios que o Beit Hamikdash tornou-se impuro e, consequentemente, os sacrifícios perderam o valor, já que eram oferecidos sem a intenção genuína no coração. Por tal motivo, diziam que eles mesmos eram o “Templo do Espírito”, e que seus sacrifícios deveriam ser espirituais, por meio de oração, louvor, estudo das Escrituras e caridade aos necessitados. De modo contrário, os p’rushim (fariseus) frequentavam o Beit Hamikdash e não se opunham ao sacrifício de animais.

Continua...

 

 

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