PARTE VIII - YESHUA E OS NETSARIM

24/08/2013 20:15

PARTE VIII

YESHUA E OS NETSARIM

Por Tsadok Ben Derech

 

Se partirmos da premissa de que Yochanan HaMat’bil (João, o Imersor) praticou o Judaísmo de cunho essênio, como visto no estudo anterior, teremos que admitir que Yeshua seguiu parecida linha, visto que: a) existem semelhanças entre o ensino de Yeshua e os pontos centrais do essenismo; b) os ministérios de Yochanan e Yeshua se entrelaçam.

Começou Yeshua seu ministério público quando tinha 30 anos de idade (Lucas 3:23), recebendo a imersão (tevilá) de Yochanan no rio Yarden (Jordão), dizendo o Imersor que Yeshua seria o “cordeiro” que tira o pecado do mundo, em alusão à profecia de Yeshayahu.  Coteje os textos:

“Ainda que maltratado, foi submisso – ele não abriu a boca.

Como um cordeiro levado à morte, como uma ovelha silenciosa diante de seus tosquiadores, ele não abriu a boca.” (Yeshayahu/Isaías 53:7).

“No dia seguinte, Yochanan viu Yeshua vindo em sua direção e disse: Vejam! O Cordeiro de Elohim! Aquele que tira o pecado do mundo!” (Yochanan/João 1:29).

 

Após receber a imersão de Yochanan, Yeshua começou a proclamar a mesma mensagem do Imersor, que por sua vez é semelhante à dos essênios, qual seja, a necessidade de retorno (teshuvá) para Elohim mediante o abandono dos pecados. Correlacione:

Essênios: “... para fazer teshuvá (retornar) à Torá de Moshé (Moisés) com todo coração e com toda a alma (...) Por isso o homem imporá sobre sua alma fazer teshuvá (retornar) à Torá de Moshé (Moisés)...”. (Regra de Damasco, Col., XV, 9-10 e Col. XVI, 1-2).

Yochanan HaMat’bil: “Abandonem seus pecados e façam teshuvá (retornem) para Elohim, porque o Reino do Céu está próximo.” (Matityahu/Mateus 3:2).

Yeshua: “Abandonem seus pecados e façam teshuvá (retornem) para Elohim...” (Matityahu/Mateus 3:2).

 

Além da similitude das mensagens, a autoridade de Yeshua, sob o prisma terreno, advém de Yochanan e não do partido dos fariseus ou dos saduceus, o que pode ter sido a causa do confronto mencionado em Matityahu/Mateus 21:23-27. Neste incidente, os kohanim (sacerdotes) questionaram Yeshua quem lhe tinha dado “semichá” para ensinar, isto é, quem lhe concedeu ordenação rabínica para lecionar e estabelecer normas interpretativas da Torá (halachá). Dizendo de outro modo, quem foi o responsável pela transmissão a Yeshua da autoridade para julgar e decidir questões acerca da aplicação da Torá. Devem ter pensado os kohanim (sacerdotes): “se nem os fariseus e nem os saduceus outorgaram semichá a Yeshua, como um ‘leigo’ pode ensinar a Torá?”. Replicou Yeshua:

“Eu também lhes farei uma pergunta. Se vocês a responderem, eu lhes direi com que semichá faço estas coisas. A imersão de Yochanan – de onde ela veio? Do Céu ou dos homens? Eles discutiam entre si: ‘Se dissermos: do Céu, ele perguntará: Então por que vocês não creram nele? Mas se dissermos: Dos homens, temos medo do povo, pois todos consideram Yochanan profeta’. Eles responderam a Yeshua: ‘Não sabemos’. E ele lhes disse: ‘Então eu não lhes direi com que semichá faço estas coisas’.”  (Matityahu/Mateus 21:24-27).

 

Neste evento, Yeshua colocou os sacerdotes em um “beco sem saída”, pois teriam que optar por dois caminhos que lhe trariam problemas: 1) Yochanan recebeu autoridade do Céu, tal como Yeshua; 2) a autoridade de Yochanan veio dos homens, o que também não o desqualifica, já que era profeta. Eis um detalha importante: a semichá de Yeshua veio do Céu, porém, do ponto de vista humano, a semichá de Yeshua foi concedida por Yochanan, que efetuou sua tevilá (imersão) no rio Yarden (Jordão). E se a semichá de Yeshua, sob a ótica terrena, lhe foi outorgada por Yochanan, então, o Salvador não estava submetido à autoridade daqueles sacerdotes que o confrontaram. Para o rabino nazareno James Trimm, Yochanan recebeu semichá da irmandade dos essênios, razão pela qual a autoridade humana de Yeshua, franqueada pelo Imersor, se vincula ao grupo de Qumran:

“Em Mateus 21:23-27, os fariseus desafiaram Yeshua sobre de onde vem sua semichá, ou autoridade. Yeshua respondeu perguntando a eles sobre de onde a autoridade do Yochanan veio. Yeshua não estava fugindo da pergunta. Yeshua estava levantando este ponto porque a autoridade terrena de Yeshua (semichá) veio de Yochanan (João 1:6-8, 15, 26-27, 29-37) e a autoridade Yochanan veio dos essênios, em vez de uma fonte farisaica (ver comentários Mateus 3:1). Assim, a semichá de Yeshua é traçada através de Yochanan à linha essênia de semichá. Yeshua estava colocando os fariseus na seguinte situação: ou reconhecem a autoridade haláquica dos essênios ou declaram que esta é falsa. Parece que os fariseus estavam hesitantes em questionar a semichá de uma seita que ficou conhecida por ser ainda mais rigorosa na observância [da Torá] do que eles eram.” (Understanding Paul, The Institute for Nazarene Jewish Studies, 2007, páginas 42 e 43).

 

Ainda que, sob ótica humana, a semichá de Yeshua tenha sido outorgada por Yochanan HaMat’bil, é indiscutível que a semichá e os ensinos do Mashiach sejam de origem celestial:

“Os moradores de Yehudá [Judeia] ficaram surpresos: ‘Como este homem sabe tanto sem ter estudado?’, eles perguntaram. Então Yeshua lhes deu uma resposta: ‘Meu ensino não é meu; procede de quem me enviou’.” (Yochanan/João 7:15-16).

 

A estrutura de discipulado de Yeshua aparentemente seguiu o modelo qumrânico. Escolheu o Nazareno 12 (doze) discípulos (Matityahu/Mateus 10:1-4), sendo que existiam três deles que eram mais próximos de Yeshua: Kefá (Pedro), Ya’akov (Tiago) e Yochanan (João), conforme se constata em várias passagens (ex: Lucas 9:28-36, no episódio da “transfiguração”). A regra “dos doze”, com três de maior destaque, era adotada em Qumran:

“No conselho da comunidade haverá doze homens e três sacerdotes, perfeitos em tudo o que tiver sido revelado de toda a Torá, para praticar a verdade, a justiça e o juízo, o amor misericordioso e a conduta humilde para com seu próximo...” (Regra da Comunidade, Col.VIII, 1-2).

 

Ao viajar, os essênios partiam somente com “a roupa do corpo” e com armas, para a legítima defesa contra bandidos. Yeshua deu a mesma instrução a seus talmidim (discípulos), e os nazarenos andavam armados (Matityahu/Mateus 10:9-11 e Lucas 22:35-38).

Escreveu Josefo sobre os essênios:         

“Quando fazem alguma viagem nada levam consigo, apenas armas para se defenderem dos ladrões. Eles têm em cada cidade alguns dos seus, para receber e alojar os de sua seita, que por ali passam e para lhes dar vestes e outras coisas de que podem ter necessidade.” (Ob.Cit. página 1129).

 

Pela narrativa de Josefo, os essênios não necessitavam levar nada consigo, porque havia em várias cidades outros membros da irmandade que poderiam acolhê-los. Logo, nem de dinheiro precisavam. Yeshua enviou seus discípulos para viajar sem dinheiro (Matityahu/Mateus 10:9), levando o rabino James Trimm a concluir:

“Os talmidim [discípulos] de Yeshua provinham em sua maior parte do grupo essênio. Parece que eles eram, portanto, capazes de viajar dentro dos círculos essênios de cidade em cidade sem ter de transportar suprimentos adicionais.” (Understanding Paul, The Institute for Nazarene Jewish Studies, 2007, página 39).

 

Há um evento em que o ínclito rabino James Trimm também salienta a base essênia dos discípulos de Yeshua. Em Lucas 22:24, registra-se que “surgiu uma discussão entre eles [os discípulos], acerca de qual deles seria considerado o maior”. A discussão beira a infantilidade ou, o que é pior, denota o orgulho e a arrogância de discípulos que deveriam ser o exemplo de humildade. Questiona o rabino Trimm: “Será que eles estão brigando sobre qual deles é melhor do que o outro?” (Understanding Paul, The Institute for Nazarene Jewish Studies, 2007, página 40).

A resposta é negativa! Os essênios passavam anualmente por uma avaliação do “padrão espiritual de santidade”, isto é, o líder avaliava seus doze alunos com o fito de estabelecer uma ordem, cujo maior seria aquele que fosse “perfeito em tudo o que tiver sido revelado de toda a Torá, para praticar a verdade, a justiça e o juízo, o amor misericordioso e a conduta humilde para com seu próximo...” (Regra da Comunidade, Col.VIII, 1-2). Então, os talmidim de Yeshua estavam disputando para saber qual deles tinha adquirido o “maior nível espiritual” e o Mashiach respondeu:

“... qualquer que, entre vós, quiser ser grande será vosso serviçal.

E qualquer que, dentre vós, quiser ser o primeiro será servo de todos. Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Yochanan Marcus/Marcos 10:43-45).

 

Capta-se que Yeshua ensinou a humildade, usando, inclusive, a expressão “pobres de espírito” para designá-la (Matityahu/Mateus 5:3). Em Qumran, a comunidade doutrinava que os “pobres de espírito” (ou “pobres”) são aqueles que conseguem controlar o coração duro, ou seja, quem é humilde, amoroso, justo:

“Nos pobres de espírito está a autoridade sobre o coração duro.” (1QM XIX).

 

Na narrativa de Lucas, Yeshua não menciona “os pobres de espírito”, mas apenas os “pobres” (Lucas 6:20), que herdariam o Reino de Elohim. Repare o parecido discurso em Qumran:

“... à congregação dos pobres, pois deles é a herança de todo o mundo.” (4Q171, Pesher Tehilim/Salmos, Col.III, 10)

 

Nazarenos e essênios eram conhecidos como “o Caminho”:

Nazarenos: “Enquanto isso, Sha’ul [Paulo] ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor. Ele foi ao Sumo Sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, que o autorizavam a prender qualquer pessoa que encontrasse, homens ou mulheres, que pertencessem ao ‘Caminho’, levando-as de volta para Jerusalém.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 9:2).

Essênios: “Que repreenda com conhecimento verdadeiro e com juízo justo os que escolhem ‘o Caminho’.” (Regra da Comunidade, Col.IX, 17).

 

Ambos os grupos se intitulavam “os filhos da luz”:

Nazarenos: “Vocês eram trevas; mas agora, unidos ao Senhor, são luz. Vivam como filhos da luz.” (Efessayah/Efésios 5:8).

“Enquanto têm luz, creiam na luz, para que sejam filhos da luz...” (Yochanan/João 12:36).

Essênios: “Para o sábio, para que instrua e ensine todos os filhos da luz...” (Regra da Comunidade, Col.III, 13).

 

Ser “filho da luz” significa ser obediente à Torá, uma vez que a Torá é identificada como sendo a luz (Mishlei/Provérbios 6:23; Tehilim/Salmos 119:105).

Os nazarenos, filhos da luz, se contrapunham aos que estão em trevas (distantes da Torá), tal como os essênios:

Nazarenos: “porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas.” (Tessalonissayah Álef/1ª Tessalonicenses 5:5).

Essênios: “O primeiro ataque dos filhos da luz será lançado contra a porção dos filhos das trevas, contra o exército de Belial.” (Regra de Guerra, Col.I, 1).

 

Yeshua foi chamado de “Príncipe” (At 5:31) e Yochanan expressa que Yeshua é “a luz” (Yochanan/João 1:9). O Salvador proclamou: “eu sou a luz do mundo” (Yochanan/João 8:12). Ou seja, é correto identificar o Messias como o “Príncipe da Luz”. Este título é o do Messias esperado pela comunidade de Qumran, que não era um simples homem, mas Aquele que auxiliava Israel desde a antiguidade:

“Desde antigamente, encarregaste o Príncipe da Luz que nos ajudasse...” (Regra de Guerra, Col.XIII, 10).

 

Na mentalidade qumrânica, o Príncipe da Luz é relatado como sendo o próprio ETERNO, que levantou Moshé (Moisés) e Aharon (Aarão). Para os nazarenos, Yeshua, o Príncipe da Luz, é YHWH:

“Porque nos tempos antigos surgiram Moshé e Aharon pela mão do Príncipe da Luz...” (6Q15).

 “... Yeshua HaMashiach é YHWH...” (Filipissayah/Filipenses 2:11, traduzido do aramaico). 

 

Assim, para os nazarenos Yeshua é YHWH, e exerce um sacerdócio eterno “na imagem (בַּדמוּתֵה) de Malki Tsedek (Melquisedeque)” ou “na forma (בַּדמוּתֵה) de Malki Tsedek”, registra o texto em aramaico de Ivrim/Hebreus 6:20. Desta maneira, à luz da Escritura em aramaico, o Messias Yeshua é a imagem (forma) de Malki Tsedek. Nos escritos do Mar Morto, o Messias é Malki Tsedek, que é YHWH:

“Sua interpretação para os últimos dias se refere aos cativos, dos quais diz: ‘Para proclamar aos cativos a libertação’. E fará prisioneiros os seus rebeldes ... e da herança de Malki Tsedek, pois... eles são a herança de Malki Tsedek, que os fará retornar a eles. Ele proclamará para eles a libertação para libertá-los da dívida de todas as suas iniquidades.

(...)

... no qual [Malki Tsedek] expiará por todos os filhos de Elohim...

... pois é o tempo da graça de Malki Tsedek, para exaltar no processo os santos de Elohim...

Porém, Malki Tsedek executará a vingança dos juízos de Elohim nesse dia, e eles serão libertados das mãos de Belial e das mãos de todos os espíritos de sua porção.

(...)

Este é o dia da paz da qual falou Elohim desde antigamente pelas palavras de Yeshayahu [Isaías], o profeta, que disse: ‘Que belos são sobre os montes os pés do proclamador que anuncia a paz, do proclamador do bem que anuncia a salvação, dizendo a Tsion [Sião]: ‘teu Elohim reina’.

Sua interpretação: Os montes são os profetas. E o proclamador é o Messias [ungido] do Espírito do qual falou Dani’el... e o proclamador do bem que anuncia a salvação é aquele do qual está escrito que ele enviará ‘para consolar os aflitos, para vigiar sobre os aflitos de Tsion [Sião]’.

‘Para consolar os aflitos’. Sua interpretação: para instruí-los em todos os tempos do mundo... em verdade.

(...)

... como está escrito sobre ele: ‘Dizendo a Tsion [Sião]’: ‘teu Elohim reina’. ‘Tsion [Sião]’ é a congregação de todos os filhos da justiça, os que estabelecem a aliança, os que evitam andar pelo caminho do povo. ‘Teu Elohim’ é Malki Tsedek, que os livrará da mão de Belial.” (11Q Malki Tsedek – 11Q13).   

 

Da mesma forma que os essênios vislumbravam Malki Tsedek como Messias e YHWH, os netsarim descrevem Yeshua como a imagem (ou forma) de Malki Tsedek (Ivrim/Hebreus 6:20 em aramaico), e todo o capítulo 7 de Ivrim/Hebreus estabelece uma comparação entre Yeshua e Malki Tsedek.

Sustentava a escatologia essênia que viriam 2 (dois) Messias ao mundo: o primeiro seria um sacerdote e sábio, chamado de “Messias de Aharon” (Aarão), e o segundo seria um líder (rei), intitulado  “Messias de Yisra’el”:

“... até que venha o profeta e os Messias de Aharon e Yisra’el.” (Regra da Comunidade, Col.IX, 11).

 

No texto acima, a palavra está no plural (“os Messias”), enquanto há outros manuscritos em que o vocábulo está no singular (“o Messias de Aharon e Yisra’el”). Há referência em Qumran de que o Messias irá sofrer e ser castigado para expiar os pecados dos fiéis:

“E esta é a exata interpretação da norma ‘até que surja o Messias de Aharon e Yisra’el’. Ele expiará por seus pecados... será castigado seis dias.” (Regra de Damasco, Col.XIV, 19).

“... minha morada está no conselho santo. Quem [...] quem foi desprezado como eu? E quem foi rejeitado pelos homens como eu? E quem se compara a mim nos sofrimentos? Nenhum ensino se compara ao meu ensino. Pois eu sento [...] no céu. Quem é como eu dentre os anjos? Quem poderia abolir minhas palavras? E quem poderia medir a fluência de meus lábios? Quem pode juntar-se a mim e se comparar com o meu juízo? Eu sou o amado do Rei, um companheiro dos santos, e ninguém pode me acompanhar. E ninguém pode se comparar à minha glória...” (4Q431).

 

Verifique que na última citação a narrativa está na primeira pessoa do singular, e o interlocutor fala que ninguém pode se comparar à sua glória. Ora, quem possui uma glória incomparável? Resposta simples: YHWH. Infere-se daí que quem está falando é o próprio ETERNO e, curiosamente, Ele se coloca na posição do “Servo Sofredor” de Yeshayahu/Isaías 53 (examine que sublinhamos na transcrição supra a parte dos sofrimentos). Confronte os textos:

QUMRAN: “Quem [...] quem foi desprezado como eu? E quem foi rejeitado pelos homens como eu? E quem se compara a mim nos sofrimentos?” (4Q431).

YESHAYAHU (ISAÍAS): “Era desprezado e o mais indigno entre os homens, homem de dores... era desprezado...

Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e nas nossas dores levou sobre si; e nós o reputamos por aflito, ferido de Elohim e oprimido.

Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras, fomos sarados.” (Capítulo 53: 3-5).

 

Por conseguinte, o Messias de Qumran é o ETERNO e, simultaneamente, o “Servo Sofredor”. Ademais, o primeiro Messias qumrânico vem ao mundo e leva sobre si sofrimento e castigo, porém, o segundo Messias aparece como líder vitorioso (Rei), o “broto de David” com o “trono de seu reino para sempre” (4QFlorilegium, 4Q174).

A teologia essênia de dois Messias (um Sofredor e outro Rei) foi albergada pelos netsarim, que enxergaram tanto o Messias-Sofredor como o Messias-Rei sendo Yeshua HaMashiach, recordando-se que alguns textos de Qumran falam apenas de 1 (um) Messias.

Kefá (Pedro), em seu manuscrito, descreve Yeshua e lhe aplica a profecia de Yeshayahu (Isaías) 53 acerca do “Servo Sofredor”:

“De fato, para isso é que vocês foram chamados; porque também o Mashiach sofreu a favor de vocês, deixando o exemplo para que sigam os passos dele.

‘Ele não cometeu pecado, nem engano algum foi encontrado em seus lábios’ [Is 53:9].

Quando insultado, não retaliava ofensas; quando sofria, não ameaçava, mas entregava seus agressores àquele que julga com justiça. Ele mesmo carregou nossos pecados [Is 53:4,12] em seu corpo sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça – por suas feridas, vocês foram curados [Is 53:5].” (Kefá Álef/1ª Pedro 2:21-24).

 

De fato, Yeshua veio como “Servo Sofredor”, porém, voltará como “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Guilyana/Apocalipse 19:15-16), ou seja, existem dois estágios distintos para a consumação do Reino de Elohim, e isto já havia sido profetizado pelos essênios.

Em síntese, essênios e nazarenos escreveram sobre duas vindas do Messias: a primeira como o “Servo Sofredor”, descrito por Yeshayahu/Isaías 53, e a segunda como Rei e Senhor para estabelecer o Reino de Elohim. Nos Manuscritos de Qumran, há textos falando sobre 1 (um) Messias e outros sobre 2 (dois) Messias, ficando incerto se os dois Messias são ou não duas pessoas distintas.  Para os nazarenos, o Messias é Yeshua, que veio primeiramente ao mundo como Servo e que voltará como Rei, tal como descrito em Apocalipse.

Adicional elo de contato entre essênios e nazarenos diz respeito à “nova aliança” (ou aliança renovada). Pautados na profecia de Yirmeyahu/Jeremias 31:30-33 (Jr 31:31-34 nas versões cristãs), os essênios afirmavam que tinham “entrado na nova aliança” para aguardar a vinda do Messias nos últimos tempos:

“Profetizaram falsidade para apartar Yisra’el do seguimento de Elohim. Porém, Elohim recordou a aliança dos primeiros e suscitou de Aharon (Aarão) homens de conhecimento, e de Yisra’el homens sábios, e os fez escutar. E eles escavaram o poço: ‘Poço que escavaram os príncipes, que trouxeram à luz os nobres do povo com a vara’. O poço é a Torá. E os que a escavaram são os convertidos de Yisra’el que saíram da terra de Yehudá [Judá] e habitaram na terra de Dammesek [Damasco], a todos os quais Elohim chamou príncipes, pois o buscaram, e sua fama não foi rejeitada pela boca de ninguém.

(...)

... tenham cuidado de agir segundo a exata interpretação da Torá para a época da impiedade: para separar-se dos filhos da fossa; para abster-se da riqueza ímpia que contamina, na promessa ou no voto, e da riqueza do templo, e de roubar os pobres de seu povo, de fazer das viúvas seus despojos, e de assassinar os órfãos. Observem o shabat [sábado] segundo a exata interpretação, e as festividades, e o dia do jejum, segundo o que haviam achado os que entraram na Nova Aliança [Aliança Renovada] na terra de Dammesek [Damasco]; para apartar as porções santas segundo a sua exata interpretação; para amar cada qual o seu irmão como a si mesmo; para reforçar a mão do pobre, do indigente e do estrangeiro; para buscar cada qual a paz de seu irmão...”. (Documento de Damasco, Col.VI, 1-7, 14-21).

 

Os netsarim também entraram em uma “nova aliança” (ou aliança renovada) por meio do sangue de Yeshua, que disse:

“Porque este é o meu sangue, que confirma a Nova Aliança [Aliança Renovada], meu sangue derramado a favor de muitos, para que tenham os pecados perdoados.” (Matityahu/Mateus 26:28).

 

Desenvolveram os nazarenos o conceito da “nova aliança” em diversos textos (Ruhomayah/Romanos 11:26-27; Curintayah Álef/1ª Coríntios 11:25; Curintayah Beit/2ª Coríntios 3:6; Ivrim/Hebreus 7:22; 8:6-10, 13; 9:15; 10:16, 29; 12:24). Esta “nova aliança” já era prevista na própria Torá (Devarim/Deuteronômio 28:69 a 30:20; versões cristãs: Dt 29:1 a 30:20), razão pela qual Yeshua renovou (e não inovou) as promessas feitas aos patriarcas, que hão de se consumar com o retorno do Mashiach.  Por conseguinte, além da aproximação entre essênios e nazarenos ao declararem que eram participantes de uma “nova aliança”, ambos abalizaram-na na Torá.

Evitavam os essênios fazer juramentos: “Não jurará pelo Álef e o Lamed [EL = O ETERNO], nem pelo Álef e o Dálet [ADONAI = Meu SENHOR].” (Regra de Damasco, Col.XIV, 1). Yeshua trouxe o mesmo ensino sobre os juramentos (Matityahu/Mateus 5:33-37).

Em uma sociedade em que os homens obtinham “carta de divórcio” com o objetivo de legitimar a substituição de esposas, inclusive com o aval do farisaísmo hileíta (e não shamaíta), os essênios e Yeshua mais uma vez doutrinaram em conformidade:

“Os construtores de muros [= fariseus] ... são capturados duas vezes na fornicação: por tomar duas mulheres em sua vida, apesar de que o princípio da criação é: ‘macho e fêmea os criou’.” (Documento de Damasco, Col.IV, 19-21).

“Alguns dos fariseus se aproximaram dele e tentaram armar uma armadilha, perguntando: ‘É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?’. Ele [Yeshua] respondeu: ‘Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea e disse: por esta razão, o homem deverá deixar pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne’.” (Matityahu/Mateus 19:3-5).

 

Assim, tanto Yeshua quanto os essênios opinaram contra o divórcio e usaram o mesmo raciocínio, qual seja, apesar de a Torá prever a “carta de divórcio”, na própria Torá (Bereshit/Gênesis) está escrito que no princípio o ETERNO criou somente macho e fêmea, o que exclui a poligamia e a separação de cônjuges[1].

 A Comunidade Qumrânica estabeleceu a nova aliança, que consistia em retornar à Torá. Faziam um midrash no sentido de que a Torá é um poço de “águas vivas” e os que escavam tal poço são os convertidos de Yisra’el (Documento de Damasco, Col.VI, 1-5 e Col.XIX, 33-35). Semelhantemente, no episódio em que Yeshua dialogou com a mulher samaritana junto ao poço de Ya’akov/Jacó (Yochanan/João 4), o Mashiach disse que poderia lhe oferecer “água viva”, e quem bebesse desta água nunca mais teria sede, porque faria na pessoa “uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. E o que simboliza esta água?

Em Yochanan/João 15:3, afirmou Yeshua: “vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado”. Por sua vez, Efessayah/Efésios 5:26 registra: “para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra”. Dos dois textos, infere-se que a água simboliza a palavra de Yeshua, ou seja, aquilo que o Nazareno ensinava: a Torá!!! Então, “águas vivas” é uma metáfora para designar a Torá, figura de linguagem adotada por Yeshua e pelos membros de Qumran.   

Nos Manuscritos do Mar Morto, há profecia de que o Mashiach estaria junto com seus seguidores em um banquete, comemorando com pão e vinho. O Mashiach deveria pegar o pão e abençoar toda a comunidade, e este rito deveria ser observado “em cada refeição, quando se reunissem ao menos dez homens” (1Q28a/1QSa, Col., II, 11-22). Tal cena é bastante parecida com a refeição de Pesach (Páscoa) em que Yeshua está reunido com seus talmidim (discípulos) antes de sua prisão e morte, ocasião em que o Mashiach se vale do pão e do vinho para simbolizar seu corpo e seu sangue (Matityahu/Mateus 26:17-30; Lucas 22:7-23).

Doravante, serão investigadas as diferenças entre o pensamento de Yeshua e o dos essênios de Qumran. Primeiramente, cabe advertir que nem todos os essênios habitavam em Qumran. Josefo estima a existência de aproximadamente quatro mil essênios, sendo que as descobertas arqueológicas indicam que tão somente uns trezentos deveriam habitar em Qumran. Logo, a comparação entre Yeshua e os membros de Qumran não pode ser generalizada para abarcar todos os essênios, mas apenas uma pequena parte destes. Ou seja, é possível que as diferenças apresentadas a seguir sejam inexistentes em relação aos 3.700 essênios que habitavam nas cidades. 

A primeira diferença entre Yeshua e a irmandade de Qumran refere-se ao conceito de amor e seu relacionamento com o próximo. O Mashiach ensinou o amor a todos os homens, e não se afastava dos pecadores. Pelo contrário, comia e bebia com pecadores e publicanos (coletores de impostos), conhecidos por sua corrupção (Matityahu/Mateus 9:9-13; Yochanan Marcus/Marcos 2:14-17 e Lucas 5:27-32). Já a seita de Qumran também ensinava o amor ao próximo, mas se isolava dos pecadores:

“E estas são as disposições de conduta para o Instrutor nestes tempos, sobre seu amor e o seu ódio. Ódio eterno [= afastar-se] para com os homens da fossa...” (Regra da Comunidade, Col., IX, 21-22).

 

Se não bastasse, o “próximo” para Yeshua era qualquer homem, santo ou pecador (conceito amplo). A comunidade de Qumran entendia que o “próximo” somente era o homem justo, não devendo ser externado o amor para os ímpios (conceito restrito):

“Porém, não apartarei minha cólera dos homens ímpios,

nem estarei satisfeito, até que se cumpra o juízo.

Não guardarei rancor irado de quem se converte da transgressão;

porém não terei piedade de todos os que se apartam do caminho.

Não consolarei os oprimidos até que seu caminho seja perfeito.” (Regra da Comunidade, Col.X, 20-21).

 

A segunda diferença entre Yeshua e a congregação de Qumran diz respeito ao caráter missionário do primeiro e ao segregamento do segundo. Yeshua ordenou a seus alunos que fizessem discípulos em todas as nações, bem como profetizou que as boas novas do Reino seriam anunciadas em todo mundo antes que viesse o fim dos tempos (Matityahu/Mateus 28:19 e 24:14), ou seja, a pregação do Mashiach e dos netsarim possui nítida visão missionária. Em contrapartida, os religiosos de Qumran não tinham o objetivo de expandir a mensagem da Torá aos quatro cantos da Terra.    

Quanto à terceira distinção, Yeshua enfatizou a obediência à Torá, que contém os mandamentos prescritos por YHWH, e manifestou-se contra os mandamentos criados por homens, o que se conhece por “obras da lei” ou legalismo (Matityahu/Mateus 5:17-20 e Yochanan Marcus/Marcos 7:5-9). Em outras palavras, apesar de o homem ser salvo pela graça, deve se esforçar para guardar os mandamentos de YHWH expressos na Torá, e não deve pensar que será salvo mediante a obediência a mandamentos de homens (legalismo = “obras da lei”). A irmandade de Qumran concordava com Yeshua quanto à guarda dos mandamentos da Torá, porém, eram favoráveis à observância de preceitos criados por homens (“obras da lei”) com suposta base nas Escrituras, imaginando que o homem seria justificado pelas “obras da lei” (legalismo).

De fato, nos Manuscritos do Mar Morto, há um documento denominado “miksat ma’aseh hatorah”, que significa “algumas das obras da lei” (4QMMT). O arquivo contém uma série de prescrições da halachá, isto é, um conjunto de regras humanas (“obras da lei”) criadas pela comunidade de Qumran e que derivam de determinada interpretação do Tanach. O grupo religioso listou dezenas de condutas que deveriam ser cumpridas por seus membros, sendo que muitas delas não possuem respaldo nas Escrituras. Se não bastasse, supunham que o homem alcançaria a justificação pela observância de tais “obras da lei” (mandamentos de homens e não de YHWH):

“E também NÓS te escrevemos algumas das obras da lei que pensamos boas para ti e para o teu povo. Considera todas estas coisas e busca diante dele que ele confirme o teu conselho...

E te será contado em justiça quando fizeres o que é reto e bom diante dele, para o teu bem e o de Yisra’el.” (4QMMT, 112-117).

 

Ao perscrutar o texto supra, repara-se que a congregação de Qumran (“Nós”) escreveu “algumas obras da lei” (mandamentos humanos) crendo que seriam capazes de justificar o homem (“contado em justiça”). Para os netsarim, o homem é salvo pela graça por meio da fé, o que não exclui a obediência aos mandamentos de YHWH e nem as obras que provam a fé alegada:

Porque pela graça vocês são salvos, por meio da fé; e isso não vem de vocês; é presente de Elohim.

Não vem de obras, para que ninguém se glorie.

Porque somos feitos por Elohim, criados em união com o Messias Yeshua para a vida de boas ações já preparadas por Elohim para serem realizadas por nós.” (Efessayah/Efésios 2:8-10).

“Da mesma forma, a fé por si mesma, se não for acompanhada de obras, está morta.” (Ya’akov/Tiago 2:17).

“Além disso, se vocês chamam Pai àquele que julga imparcialmente segundo as ações de cada pessoa, vivam sua estada temporária na terra com temor.” (Kefá Álef/1ª Pedro 1:17).

 

Enquanto a seita de Qumran valorizava os mandamentos criados por homens (= “obras da lei”), os netsarim os consideravam desnecessários:

“Os p’rushim e os mestres da Torá lhe perguntaram [a Yeshua]: ‘Por que seus discípulos não vivem de acordo com a tradição dos anciãos, mas, em vez disso, comem com as mãos ritualmente impuras?’ Yeshua lhes respondeu... ‘Na verdade, vocês se afastam dos mandamentos de Elohim e se apegam à tradição humana [“obras da lei”]. Ele [Yeshua] lhes disse: ‘Vocês se tornaram especialistas em fugir do mandamento de Elohim a fim de manterem suas tradições’.” (Yochanan Marcus/Marcos 7:5-9).

“Sabendo que o homem não é justificado pelas ‘obras da lei’ [legalismo = mandamentos humanos], mas pela fé em Yeshua HaMashiach...” (Galutyah/Gálatas 2:16).

 

A quarta diferença entre a seita de Qumran e Yeshua relaciona-se à interpretação acerca de como se deve cumprir o shabat, ou seja, o que seria permitido e o que seria proibido fazer no dia sagrado. Os qumranitas eram muito rígidos na exegese das Escrituras, buscando mais o sentido literal do que a finalidade da mitsvá (mandamento). Já Yeshua foi mais flexível, por ressaltar mais a essência do que o formalismo. Um exemplo prosaico bem reflete o pensamento em Qumran: seus membros não defecavam no shabat, porque não queriam enterrar os excrementos na areia, já que isto seria considerado trabalho e profanação ao dia santo. Compare ainda:

QUMRAN:

“E no dia de shabat... que não empreste nada a seu próximo”. (...)

“Que ninguém coma no dia de shabat, exceto o que tiver sido preparado; e do perdido no campo não o coma. E que não beba exceto do que houver no acampamento”. (...)

“Que ninguém coloque perfume no shabat...” (...)

E se o fizer [um animal] cair num poço ou numa fossa, que não o retire no shabat”. (...)

E a todo homem vivo que cai em um lugar de água... que ninguém o tire com uma escada ou uma corda ou utensílio [no shabat].” (confirma o Documento de Damasco, Col.X, 18, 22-36; Col.XI, 9-10, 13-14, 16-17).

YESHUA:

“Naquele tempo passou Yeshua pelas searas, em um shabat; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer.

E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num shabat.

Ele, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez David, quando teve fome, ele e os que com ele estavam?

Como entrou na Casa de Elohim, e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes?

Ou não tendes lido na Torá que, nos shabatot [sábados], os sacerdotes no Templo violam o shabat, e ficam sem culpa?

Pois eu vos digo que está aqui quem é maior do que o Templo.

Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes.

Porque o Filho do homem até do shabat é Senhor.

E, partindo dali, chegou à sinagoga deles.

E, estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e eles, para o acusarem, o interrogaram, dizendo: É lícito curar nos shabatot [sábados]?

E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que tendo uma ovelha, se num shabat ela cair numa cova, não lançará mão dela, e a levantará?

Pois, quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por consequência, lícito fazer o bem nos shabatot [sábados].

Então disse àquele homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e ficou sã como a outra.” (Matityahu/Mateus 12:1-13).

 

No episódio transcrito, comprova-se que Yeshua discordava do pensamento da comunidade de Qumran, visto que promoveu distinto ensino:

1) é lícito fazer o bem no shabat, ou seja, qualquer obra que seja para o benefício do próximo não é considerada profanação do shabat, mas sim o verdadeiro cumprimento do sentido espiritual do sétimo dia: a elevação espiritual;

2) já que é lícito fazer o bem no shabat, é plenamente admissível a realização de curas milagrosas no dia santificado;

3) pode-se salvar um animal que caiu em um buraco no shabat. Com mais razão, o prestar socorro ao próximo é admitido;

4) o ser humano faminto pode colher espigas no shabat, isto é, não é pecado saciar a fome no dia sagrado, já que os direitos à vida e à saúde possuem mais peso axiológico;

5) o shabat foi criado para o homem e não o homem para o shabat, ou seja, o sétimo dia deve ser de júbilo e regozijo, e não um fardo pesado (ex: proibições absurdas como a abstenção do ato de defecar e até mesmo o singelo colocar de um perfume, bem como a infundada proibição de fazer o bem ao próximo).

Logo, a halachá de Yeshua sobre o shabat se harmoniza com seus lídimos propósitos espirituais, razão pela qual o Mashiach interpretou os preceitos acerca do shabat com olhos na valorização de seus fins, e não de seus meios.

Quinta distinção tem que ver com os sacrifícios no Beit HaMikdash (Templo), que não eram realizados pela congregação de Qumran. Todavia, quando Yeshua curou o homem com tsara’at (“lepra”), disse-lhe: “vá, deixe o kohen [sacerdote] examinar você e ofereça o sacrifício ordenado por Moshé [Moisés]” (Matityahu/Mateus 8:4). Assim, por mais que o sacerdócio estivesse corrompido na época do Mashiach, este não condenou o cumprimento do mandamento sacrificial insculpido na Torá.

Uma sexta diferença cinge-se ao relacionamento com os prosélitos. No Judaísmo praticado pelos nazarenos, os gentios discípulos (prosélitos) eram bem vindos e tratados como iguais, inexistindo acepção de pessoas (Ma’assei Sh’lichim/Atos 13:43 e 10:34; Ruhomayah/Romanos 2:11). A confraria do Mar Morto não aceitava em seus quadros o prosélito, exceto se este houvesse realizado a circuncisão e se tornasse judeu:

“YHWH reinará por todo o sempre. Isto se refere à Casa da qual não entrará nunca nem o amonita, nem o moabita, nem o bastardo, nem o estrangeiro, nem o prosélito, nunca...” (4QFlorilegium. Col.I, 3-4).

 

Como sétima divergência, a seita de Qumran estabeleceu uma nova aliança fundada em seus próprios atos de justiça, alguns deles consistentes em “obras da lei” (legalismo). Os nazarenos firmaram a nova aliança (ou aliança renovada) por meio do sangue derramado de Yeshua HaMashiach, mediador entre os homens e YHWH (Ivrim/Hebreus 12:24).  

Repisa-se que as sete diferenças apresentadas não levaram em conta o pensamento de todos os essênios (um pouco mais de quatro mil pessoas), mas apenas dos habitantes de Qumran (cerca de trezentos indivíduos). Como asseverado, é provável que as lições de Yeshua, nos tópicos examinados, não entrem em conflito com a teologia dos essênios não-qumrânicos (aproximadamente 3.700 pessoas).

 

 

 


[1] Yeshua admitiu a separação em caso de adultério.

 

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