PARTE VI - YESHUA E OS P’RUSHIM: PIEDOSOS OU HIPÓCRITAS?

21/08/2013 11:30

PARTE VI

YESHUA E OS P’RUSHIM: PIEDOSOS OU HIPÓCRITAS?

 

POR TSADOK BEN DERECH

 

Os evangelhos demonstram dezenas de situações em que Yeshua está criticando severamente os p’rushim (fariseus). E esta é a razão pela qual o Cristianismo associa a figura do parush (fariseu) à maldade, falsidade e hipocrisia. Porém, Flávio Josefo elogia os p’rushim, qualificando-os como homens justos, piedosos, amáveis. Ou seja, parece haver uma contradição entre a imagem negativa dos p’rushim retratada nos evangelhos e o conceito positivo autenticado por Josefo.

Somente em Matityahu/Mateus 23, Yeshua chama os p’rushim de hipócritas por 6 (seis) vezes, tachando-os ainda de “guias cegos”, “sepulcros caiados”, “descendentes dos assassinos”, “serpentes” e “raça de víboras”. Se os p’rushim são tudo isso, por que Flávio Josefo escreveu os textos abaixo?

“Essa princesa tinha grande espírito de piedade e os fariseus tinham também a fama de ser muito piedosos e muito mais instruídos que os outros, em coisas de religião.” (Ob. Cit., página 1018).

Eles [os fariseus] granjearam, por essa crença, tão grande autoridade entre o povo que este segue os seus sentimentos em tudo o que se refere ao culto de Deus e às orações solenes que lhe são feitas. Assim, cidades inteiras dão testemunhos valiosos de sua virtude, de sua maneira de viver e de seus discursos”. (Ob.Cit. página 830).

Enquanto os fariseus são sociáveis e vivem em amizade uns com os outros...” (Ob.Cit., página 1134).

 

Não há contradição entre a crítica de Yeshua aos p’rushim e os elogios tecidos por Flávio Josefo. Explica-se.

Lembremo-nos de alguns fatos já estudados:

1) o grupo dos p’rushim (fariseus) se dividia em dois grandes blocos: a Beit Hilel, que interpretava o “amor ao próximo” como alicerce da Torá, e a Beit Shamai, marcada pela severidade e dureza na interpretação legal;

2) os membros da Beit Shamai eram tão ríspidos, alguns extremamente cruéis, que houve o mencionado episódio em que os hileítas foram assassinados covardemente pelos shamaítas;

3) na época de Yeshua, havia pouquíssimos discípulos de Hilel e muitos alunos de Shamai. De acordo com os dados apresentados, os hileítas giravam em torno de 80 pessoas, e os shamaítas contavam com aproximadamente 6.000 membros.

Todas estas informações implicam as seguintes conclusões:

1) Yeshua não estava combatendo os amorosos p’rushim (em regra da Beit Hilel), mas sim aqueles que tinham o coração embrutecido (em regra da Beit Shamai);

2) já que os shamaítas estavam em número muito maior do que os hileítas, estes últimos passavam despercebidos quantitativamente. Assim, os evangelhos se concentraram em narrar o embate de Yeshua com os alunos de Shamai, porquanto estes representavam a facção do Judaísmo predominante. Este fato levou com que o Cristianismo pensasse, incorretamente, que Yeshua era inimigo de todos os p’rushim. Não! O Mashiach travou disputas com grande parte dos p’rushim, entretanto, havia um remanescente fiel;

3) registram os evangelhos, como se estudará adiante, que muitos p’rushim eram amigos e discípulos de Yeshua. Logo, é injusto o Cristianismo ao generalizar que “todos os fariseus foram hipócritas”;

4) Yeshua não atacou os fariseus, e sim os “fariseus hipócritas”. Nunca disse o Mashiach: “abandone o farisaísmo e seja meu discípulo”. A tradição judaica fala que havia o “fariseu do amor” e o “fariseu hipócrita”, donde se conclui que Yeshua lutou apenas contra o último.

Se Yeshua possuía um sistema doutrinário próximo da Beit Hilel, é óbvio e evidente que se envolveria em conflito com a Beit Shamai, uma vez que ambas as escolas farisaicas se opunham. Atente-se para o escólio de David Stern:

“Enquanto é verdade que o próprio Yeshua acusou ‘ai de vós, mestres da Torá e p’rushim, hipócritas, porque fechais aos homens o reino dos céus’ (veja o capítulo 23 e 23:1N), os cristãos frequentemente esquecem que essas palavras duras foram dirigidas num contexto familiar – um judeu criticando alguns de seus colegas judeus. Uma espiada em qualquer jornal comunitário judaico moderno vai mostrar que os judeus ainda são críticos com relação uns aos outros e desejam manter esse espírito de criticismo – reprovar e repreender são comportamentos normais e aceitáveis em muitos assentamentos judeus. No entanto Yeshua não condena seus companheiros judeus pelo fato de serem fariseus, mas sim por serem hipócritas – o primeiro não implica no segundo. Mais ainda, a crítica de Yeshua não era dirigida a todos os p’rushim, mas apenas aqueles que eram hipócritas.” (Comentário Judaico do Novo Testamento, editora Atos, 2008, página, 44).

 

Dissertou Geza Vermes:

“Não obstante, o conflito entre Jesus da Galileia e os fariseus de sua época ter-se-ia assemelhado, em circunstâncias normais, à mera luta intestina de facções pertencentes ao mesmo corpo religioso, como a que se travou entre caraítas e rabanitas na Idade Média, ou entre os ramos ortodoxo e progressista do judaísmo na época moderna.” (Jesus e o Mundo do Judaísmo, Loyola, 1996, página 20).

 

Escreveu-se que os shamaítas mataram membros da Beit Hilel, mediante um plano ardiloso. Do mesmo modo, os p’rushim (provavelmente shamaítas) planejaram matar Yeshua:

“Então, os p’rushim saíram e começaram a conspirar sobre como poderiam eliminar Yeshua. Sabendo disso, ele se retirou daquele lugar.” (Matityahu/Mateus 12:14-15).

 

Quando Yeshua chamou os p’rushim de “descendentes (filhos) dos assassinos”, talvez estivesse se referindo, ainda que de modo subliminar, à citada tragédia em que os hileítas foram executados pelos shamaítas. Eis a passagem:

“Ai de vocês, mestres da Torá e p’rushim, hipócritas! Edificam os túmulos dos profetas, adornam os monumentos dos tsadikim (justos), e dizem: ‘Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, jamais teríamos participado da morte dos profetas’. Dessa forma, testemunham contra si mesmos que são descendentes dos assassinos dos profetas. Continuem, então, terminem o que seus pais começaram!” (Matityahu/Mateus 23:29-32).

 

Ao analisar o texto bíblico referido, assim o compreendeu o rabino ortodoxo Harvey Falk:

“O Rabino Falk era um rabino ortodoxo judeu que, em seu livro ‘Jesus, o fariseu: um novo olhar sobre o judaísmo de Jesus’, é reconhecido como o segundo estudioso rabínico a tentar demonstrar que Jesus de Nazaré sempre manteve os pontos de vista dos rabinos da escola de Hilel, e que toda a sua crítica era dirigida à Escola de Shamai e a seus seguidores.  (...)

O rabino Harvey Falk afirma que Jesus, o Nazareno, fez uma grave acusação contra os fariseus por volta do ano 30 EC [era comum], quando Ele estava no Templo durante a sua última Páscoa, referindo-se diretamente ao conflito entre as escolas rabínicas de Hilel e Shamai, e que resultou na morte de muitos dos discípulos de Hilel, o Ancião.” (Rabbi Harvey Falk mets Jesus the Nazarene, Robert D. Mock).

 

Por todo o exposto, entende-se que, ordinariamente, Yeshua contendeu com os shamaítas e não com os hileítas, e foi duro com o “fariseu hipócrita” e não com o “fariseu do amor”. Com efeito, na época de Yeshua já havia uma luta entre grupos rivais do farisaísmo, e muitos deles foram reputados como hipócritas por outros fariseus, conforme atesta o Talmud. Ou seja, não foi Yeshua quem inventou o rótulo “hipócrita”. Vejamos o relato do Talmud:

 “O Rei Janeu disse à sua esposa: ‘Não tema os fariseus e os não-fariseus, mas os hipócritas que imitam os fariseus; porque as suas obras são as obras de Zimri, mas eles esperam a recompensa de Pinchas (Fineias)”. (Sotá 22b).

 

Zimri foi o israelita que, durante a travessia do deserto, se relacionou sexualmente com uma midianita e passou a adorar outros deuses. Pinchas (Fineias) foi o kohen (sacerdote) que se indignou com tal situação e matou Zimri. O ETERNO se agradou do ato de Pinchas e estabeleceu uma aliança com ele e com seus descendentes (Bemidbar/Números 25:1-15). Na frase acima reproduzida do Talmud, o rei afirma que os hipócritas que imitam os fariseus praticam as obras de Zimri (prostituição moral e espiritual), mas desejam receber o prêmio de Pinchas/Fineias (a aliança com o ETERNO).

Prossegue o Talmud criticando muitos fariseus:

“R. Yehoshua disse: ...e a praga dos fariseus traz a destruição sobre o mundo.” (Sotá 20a).

 

Descreve o Talmud que havia sete tipos de p’rushim (fariseus) e que apenas duas espécies eram virtuosas -  o “fariseu do amor” e o “fariseu do temor”:

“Existe o fariseu shichmi, que se comporta como um Siquém, que se submeteu à circuncisão por motivos indignos [Bereshit/Gênesis 34]); o fariseu nikpi, que em seu modo de caminhar exibe uma docilidade exagerada; o fariseu kizai, que faz fluir seu sangue contra as paredes – significando isto que em sua ansiedade de evitar olhar a uma mulher, bate seu rosto contra uma parede; [...] o fariseu do amor; o fariseu do temor.” (Sotá 22b).

 

Diante de tais relatos talmúdicos, infere-se que Yeshua dirigiu suas críticas às cinco espécies ímpias de p’rushim, mantendo respeito ao fariseu do amor e ao fariseu do temor.

Se não bastasse, Yeshua chegou até mesmo a elogiar o ensino dos p’rushim, repudiando tão somente suas ações, que eram incompatíveis com a Torá:

“Então Yeshua disse à multidão e aos discípulos: ‘Os mestres da Torá e os p’rushim se assentam na cadeira de Moshé [Moisés]. Portanto, tenham o cuidado de fazer tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois eles falam e não fazem!’” (Matityahu/Mateus 23:1-2).

 

Eis o comentário de Andrew Gabriel Roth acerca do significado da expressão “cadeira” de Moshé (Moisés), acima citada:

“A palavra aramaica korseya (o cognato hebraico é kisseh – veja Gênesis 41:40) especificamente significa ‘trono’, exatamente como aparece na porção aramaica de Daniel 7:9. Yeshua está claramente descrevendo a cadeira de julgamento que implica a autoridade de YHWH. Por isso, enquanto Yeshua vigorosamente repreende os escribas e os fariseus por rebelião, hipocrisia e as tradições humanas que invalidam a Torá, ele também os reconhece como herdeiros legítimos da Torá baseada na halachá (aplicação da Palavra de YHWH sobre nossas vidas).” (Aramaic English New Testament, Netzari Press, 2011, página 66).

 

Muitos cristãos somente se lembram das cenas em que Yeshua aparece combatendo os p’rushim, esquecendo-se de que existiam p’rushim discípulos de Yeshua. Tanto é verdade que certos p’rushim alertaram Yeshua do plano de Herodes para assassiná-lo:

“Naquele momento, alguns p’rushim apareceram e disseram a Yeshua: ‘Saia e vá embora daqui, pois Herodes quer matá-lo’.” (Lucas 13:31).

 

Ma’assei Sh’lichim (Atos) também comprova que existiam p’rushim discípulos de Yeshua:

“Alguns, porém, dos que chegaram a crer [em Yeshua] eram do partido dos p’rushim...” (At 15:5).

 

Por mais que certos p’rushim tivessem alguns pensamentos equivocados, o livro de Atos nunca mostra os sh’lichim (emissários ou “apóstolos”) pedindo para que alguém renunciasse à sua fé farisaica.

Na narrativa de Ma’assei Sh’lichim/Atos 5:17-39, os emissários (“apóstolos”) são presos e levados ao Sanhedrin (Sinédrio). Então, entra em cena outro parush importante, Gamli’el (Gamaliel), neto de Hilel, e professor de Sha’ul (Paulo), consoante Atos 22:3. O respeitado fariseu Gamli’el forneceu um conselho para proteger os discípulos de Yeshua!!!

Segundo Clemente de Alexandria (150 a 215 D.C),  Gamli’el abraçou a fé em Yeshua como Mashiach, mantendo-se como membro do Sanhedrin (Sinédrio) com a finalidade de ajudar secretamente seus companheiros (Recognitions of Clement, I, LXV, LXVI). Não obstante, a literatura judaica nada fala a este respeito. Esta omissão talvez possa ter a seguinte justificativa: se Gamli’el tornou-se um nazareno “secreto”, os opositores de Yeshua não tiveram conhecimento e, por tal razão, não registraram sua crença no Mashiach.

Se o menino Yeshua foi abençoado por Shim’on (Simeão), provavelmente o pai de Gam’liel (vide Lucas 2:25-35), então, este último poderia ter sido influenciado por seu próprio progenitor. Se Gamli’el seguiu a trilha de seu avô Hilel, cujo amor exalava entre as pessoas, realmente pode ter se tornado discípulo de Yeshua. A Mishná ratifica a narrativa de Atos no sentido de que o rabino era “muito respeitado por todo o povo”:

“Quando o raban Gamli’el, o Ancião, morreu, a glória da Torá chegou ao fim; e a pureza e a santidade chegaram ao fim.” (Sotá 9:15).

 

Outro importante parush (fariseu) foi Nakdimon (Nicodemos), consoante Yochanan/João 3:1. Depois de uma longa conversa com Yeshua, em um dos capítulos mais belos dos evangelhos (leia Yochanan/João 3), Nakdimon tornou-se discípulo de Yeshua, chegando até mesmo a defender o Mashiach quando acusado pelos kohanim (sacerdotes) e outros p’rushim:

“Nakdimon (Nicodemos), o homem que se encontrara anteriormente com Yeshua, e que era um deles, disse-lhes: ‘Nossa Torá não condena um homem até que ele fale e que se descubra o que ele faz’.” (Yochanan/João 7:50-51).

 

Mesmo após a execução de Yeshua no madeiro, quando muitos o abandonaram, o fariseu Nakdimon permaneceu fiel ao Mashiach, ajudando Yosef de Ramatayim (José de Arimatéia) a envolver o corpo de Yeshua com faixas de linho e especiarias, sepultando-o em um jardim (Yochanan/João 19:38-42).

Sha’ul (Paulo), anos e anos depois de ter se tornado discípulo de Yeshua, continuava se declarando fariseu:

Sha’ul (Paulo) gritou: ‘Irmãos, eu sou parush (fariseu), filho de p’rushim (fariseus); estou sendo julgado por causa da esperança na ressurreição dos mortos’.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 23:6).

 

Note bem: Sha’ul não disse “eu sou um ex-fariseu”, mas sim que continuava sendo fariseu.

Ao se ler Ma’assei Sh’lichim/Atos 23:1-10, aprende-se que os p’rushim (fariseus) defenderam Sha’ul (Paulo). E isto é de fácil compreensão: se Sha’ul era parush (fariseu), seus colegas de fé o protegeram:

“Portanto, houve uma grande agitação, e alguns dos mestres da Torá que estavam ao lado dos p’rushim puseram-se em pé e uniram-se ao coro: ‘Não encontramos nada de errado neste homem [Sha’ul/Paulo]; e se um espírito ou anjo falou-lhe, o que há de errado?’.” (At 23:9).

 

Ante os argumentos bosquejados, torna-se indubitável que muitos fariseus ingressaram no corpo de discípulos de Yeshua, sem a necessidade de renúncia à fé farisaica, até por que as lições do Mashiach eram pautadas nas linhas-mestras do Judaísmo da Beit Hilel. Logo, diversamente do que prega o Cristianismo, Yeshua não foi inimigo dos p’rushim, mas tão somente lutou contra os desvios farisaicos, mormente da Beit Shamai. Tudo isto implica que o Judaísmo Nazareno possui raízes no farisaísmo, que merece ser estudado a sério, com vistas à melhor compreensão dos ensinamentos de Yeshua e dos netsarim à luz do contexto original.

 

 


 

 

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