PARTE V - TESTEMUNHOS HISTÓRICOS ACERCA DOS ESSÊNIOS

21/08/2013 15:19

PARTE V

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS ACERCA DOS ESSÊNIOS

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Em termos históricos, as melhores descrições acerca dos essênios provêm dos escritos do filósofo judeu-alexandrino Filo e do historiador judeu Flávio Josefo. Ouros autores da Antiguidade, como Plínio, Solino, Porfírio, Eusébio e Epifânio praticamente copiaram ou nada acrescentaram de interessante às obras dos dois pensadores judeus citados. Por este motivo, limitar-se-á à descrição dos essênios com base nos livros redigidos pelos israelitas Filo e Josefo.

 

A)   FILO DE ALEXANDRIA

 

Filo de Alexandria (20 A.C a 50 D.C) é o autor dos livros mais antigos em que há o testemunho histórico sobre os essênios, no tratado “Todo homem virtuoso é livre”, bem como na obra “Apologia dos Judeus”. Esta última, apesar de perdida, foi preservada por meio de citações de Eusébio de Cesareia (confira-se em “Philonis Opera”, Ed. Mangey, London, 1742, vol. II, páginas 457-465 e 622 e seguintes).

Abaixo, serão citadas e analisadas as assertivas de Filo.

 

1) O grupo essênio era considerado mais santificado do que os outros dois (p’rushim/fariseus e ts’dukim/saduceus e outros)

 “porque [os essênios] estão acima de todos os outros adoradores de Elohim.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Nos tempos de Yeshua, havia três principais grupos religiosos: os essênios, os fariseus e os saduceus. Enquanto este último não cria em anjos e demônios, em imortalidade da alma, em ressurreição e na tradição oral, os dois primeiros segmentos acreditavam em todos estes fatores. Assim, isyim (essênios) e p’rushim (fariseus) concordavam entre si quanto aos aspectos fundamentais do Judaísmo, porém, no dizer do rabino Rapoport, representavam os essênios “uma forma mais intensificada de farisaísmo”, em razão da grande humildade externada e do zelo a tudo que é sagrado (Bikure Ha-Itim, vol.X, Viena, 1829, vide páginas 118 e seguintes).   Isto comprova a assertiva de Filo no sentido de que os essênios “estão acima de todos os outros adoradores”, isto é, são mais santos, justos e piedosos do que os membros das demais denominações do Judaísmo.

Ainda que o Talmud e os Midrashim não usem o vocábulo “essênios”, o que causa estranheza pela omissão de tão importante grupo judaico, Rapoport afirma que eles são denominados por tais livros como os “piedosos” (chassidim) e “a comunidade santa de Jerusalém”, haja vista o grande zelo pela Torá.

No Serek HaYahad (Regra da Comunidade), renomado manuscrito encontrado no Mar Morto, escreveram os essênios:

“Estes são os seus caminhos no mundo: iluminar o coração do homem, endireitar diante dele todos os caminhos da justiça e da verdade, instalar em seu coração o temor das mitsvot (mandamentos) de Elohim; é um espírito de humildade, de paciência, abundante misericórdia, bondade eterna, inteligência, compreensão, sabedoria poderosa que confia em todas as obras de Elohim e se apoia na abundância de sua graça; um espírito de conhecimento em todos os planos de ação, de zelo pelas mitsvot (mandamentos) da justiça, de planos santos com inclinação firme, de abundante misericórdia com todos os filhos da verdade, de pureza gloriosa que odeia todos os ídolos impuros, de conduta modesta com prudência em tudo, de discrição acerca da verdade dos mistérios do conhecimento. Estes são os conselhos do Espírito aos filhos da verdade no mundo. E a visita de todos os que nele caminham será para cura, paz abundante em uma vida longa, frutuosa descendência com todas as bençãos perpétuas, gozo eterno com vida sem fim, e uma coroa de glória com uma veste de majestade na luz eterna.” (Regra da Comunidade, Col IV, 2-8).

 

Se os essênios eram pessoas tão piedosas, por que a B’rit Chadashá (Nova Aliança/“Novo Testamento”) não os registra?  Parece que os netsarim (nazarenos) se concentraram em escrever nos evangelhos apenas os conflitos entre o Mashiach (Messias) e os p’rushim (fariseus) e os ts’dukim (saduceus), justamente por inexistir qualquer tipo de luta severa entre Yeshua e os essênios, ou seja, a omissão dos isyim na B’rit Chadashá se deve ao fato da conduta exemplar do grupo, que não mereceu a exortação de Yeshua, excetuando-se alguns casos em que a halachá do Mashiach se contrapõe à dos essênios de Qumran (e não de todos os essênios).

Todos estes dados remetem novamente ao pensamento de Filo: os essênios eram superiores, em nível de santidade, aos p’rushim (fariseus) e aos ts’dukim (saduceus).    

Nisto há uma grande aproximação entre os isyim (essênios) e os netsarim (nazarenos), visto que estes últimos também almejavam alcançar elevados patamares de santidade:

“Ao contrário, seguindo o Santo que os chamou, tornem-se santos em tudo o que fazem; porque o Tanach diz: Vocês devem ser santos, porque eu sou santo.”(Kefá Álef/1ª Pedro 1:15-16).

“Esforcem-se pela manutenção de shalom (paz) com todos e pela santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.” (Ivrim/Hebreus 12:14).

“Porque não nos chamou Elohim para a imundícia, mas para a santificação”. (Tessalonissayah Álef/1ª Tessalonicenses 4:7).

“E vos revistais do novo homem, que segundo Elohim é criado em verdadeira justiça e santidade.” (Efessayah/Efésios 4:24).

 

2) Os essênios deixavam de lado as especulações filosóficas e se preocupavam em estudar a Torá e pôr em prática suas normas éticas

“Eles deixavam a parte lógica da filosofia, que sob nenhum aspecto é necessária à aquisição da virtude, aos caçadores de palavras; e a parte natural, por ser muito difícil para a natureza humana, eles deixavam aos tagarelas da astrologia, excetuando-se a parte que trata da existência de Deus e da origem do Universo; mas da parte ética eles próprios cuidam, usando como orientação as leis [a Torá] que seus pais herdaram e que teriam sido impossíveis de criar sem o derramamento do espírito de santidade [Ruach HaKodesh/’Espírito Santo’].” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Não se ocupavam os essênios de elucubrações filosóficas, mas sim de viver na prática os mandamentos da Torá. Já que a vida do grupo colocava o serviço ao ETERNO como foco de existência, não se ocupavam os essênios de estudos seculares, apenas de estudar aquilo que diz respeito a Elohim, à origem do Universo, aos mistérios do Reino do Céu e às normas éticas da Torá. Eram homens de ação e não de divagação.

De igual modo, Yeshua enfatizou que o homem deve ouvir as palavras da Torá e agir concretamente baseado nelas (Matityahu/Mateus 7:24). O aspecto prático da fé também foi ressaltado por Ya’akov HaTsakik (Tiago, o Justo):

“De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tiver ações que a comprovem? Esse tipo de ‘fé’ é capaz de salvar?

(...)     

Da mesma forma, a fé por si mesma, se não for acompanhada de ações, está morta.

Mas alguém dirá que você tem fé e eu tenho ações concretas. Mostre-me essa sua fé sem atos, eu lhe mostrarei a minha fé por intermédio das minhas ações!” (Ya’akov/Tiago 2:14, 17-18).

 

3) Estudavam a Torá todos os dias

“Nisso [o estudo da Torá] eles se instruem todos os dias...”.

 

Confirmam os Manuscritos do Mar Morto que os essênios estudavam a Torá todos os dias, durante um terço da noite, ou seja, 4 (quatro) horas diárias:

“E os Numerosos [congregação dos essênios] velarão juntos um terço de cada noite do ano para ler o livro [das Escrituras Sagradas], interpretar a norma e bendizer juntos.” (Regra da Comunidade, Col VI, 7-8).

 

Mais uma vez encontramos uma similaridade de comportamento no meio dos netsarim (nazarenos), que se reuniam todos os dias para prestar culto a Elohim:

“Eles se mantiveram fiéis ao ensino dos sh’lichim [emissários/‘apóstolos’], à comunhão, ao partir do pão e às orações.

(...)

De modo contínuo e fiel, e com singeleza de propósito, eles se reuniam no pátio do Templo todos os dias e partiam o pão em várias casas...”. (Ma’assei Sh’lichim/Atos 2:42 e 46).

 

No texto acima, percebe-se que os netsarim (nazarenos) se reuniam todos os dias e recebiam o ensino dos sh’lichim (emissários/“apóstolos”), sendo líquido e certo que este ensino refere-se ao estudo das Escrituras. Assim, tanto os netsarim quanto os isyim (essênios) dedicavam-se diariamente a estudar as Escrituras, principalmente a Torá.

 

4) Guardavam o shabat (sábado)

“Pois consideram o sétimo dia [o shabat] santificado e se abstêm de todo outro trabalho.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

A Regra de Damasco, importante documento arqueológico sobre os essênios, dispõe acerca do shabat (sábado):

“... para observar o dia do sábado segundo a interpretação exata, e as festividades, e o dia do jejum, segundo o que haviam achado os que entraram na nova aliança na terra de Damasco.” (Col. V, 18-19).

 

Yeshua e os netsarim observavam o mandamento do shabat (Lc 4:14-16; Mc 6:1-2; Lc 6:6 e Lc 13:10; At 13:14, 43-44; 16:13; 17:2).

 

5) Eram dotados os essênios de nobres valores morais e espirituais

“São instruídos na piedade, na santidade, na retidão, na economia, na política, no conhecimento do que verdadeiramente é bom, mau e indiferente, para escolher as coisas que são necessárias e evitar as que são contrárias. Nisso usam uma regra e uma definição tríplice, isto é: amor a Deus, amor à virtude e amor à humanidade. De seu amor a Deus dão inúmeras demonstrações  - por exemplo, sua constante e inalterável santidade em todos os aspectos de sua vida; sua abstenção de juramentos  e falsidades, e sua firme crença de que Deus é a fonte de todo o bem, mas de nada de mal. De seu amor à virtude eles dão provas no seu desprezo pelo dinheiro, pela fama e pelos prazeres, na sua continência, na sua resistência, na fácil satisfação de suas necessidades, na sua simplicidade, alegria de temperamento, modéstia, ordem, firmeza, e em todas sãs coisas do gênero.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Na transcrição supra, constata-se que os essênios priorizavam o mandamento do amor em três dimensões: amor a Elohim, amor aos homens e amor à virtude. Estes mesmos vetoriais foram agasalhados pelos netsarim (nazarenos):

“Um dos mestres da Torá se aproximou e ouviu o debate. Notando que Yeshua lhe dera uma boa resposta, perguntou-lhe: ‘Qual é a mitsvá [mandamento] mais importante?’.

Yeshua respondeu: A mais importante é:

‘Ouve, ó Yisra’el, YHWH, nosso Elohim, YHWH é um, e você deve amar YHWH, seu Elohim, de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com toda a força’.

A segunda é esta:

‘Ame o próximo como a si mesmo’.

Não existe mitsvá (mandamento) maior que estas.” (Yochanan Marcus/Marcos 12:28-31).

“Mas o fruto da Ruach (Espírito) é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fé, humildade, autocontrole.” (Galutyah/Gálatas 5:22).

 

6)  Viviam na simplicidade e eram despidos de ambições materiais

“Alguns cultivam a terra, outros estão empenhados nas diversas artes que promovem a paz, beneficiando assim a si próprios e aos seus vizinhos. Eles não acumulam tesouros de ouro e prata, nem adquirem grandes extensões de terra por um desejo de lucro, mas para se proverem somente com as necessidades absolutas da vida. Embora sejam quase as únicas pessoas em toda a humanidade que não têm riquezas e posses – e por isso por sua própria escolha e não por carência de sucesso – no entanto eles se consideravam os mais ricos, porque sustentam que o suprimento de nossas necessidades e o contentamento da mente são riquezas, como na verdade o são.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Yeshua seguiu o estilo de vida essênio ao desprezar as riquezas materiais e dedicar-se exclusivamente ao Reino do Céu. Ensinou o Mashiach que a riqueza do mundo não é importante, e sim ser rico para com Elohim:

“Não juntem riquezas para vocês na terra, onde traças e ferrugem destroem, e onde os ladrões abrem à força e roubam. Em vez disso, juntem riquezas para vocês no céu, onde nem a traça nem a ferrugem destroem, e onde os ladrões não entram nem roubam.” (Matityahu/Mateus 6:19-20).

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância;

E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos.

E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens;

E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga.

Mas Elohim lhe disse: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Elohim.” (Lucas 12:16-21).

 

Para o jovem rico, ordenou Yeshua que vendesse seus bens e os doasse aos pobres e, assim, teria um tesouro no céu (Lucas 18:22). Também lecionou que dificilmente os que têm riquezas entrarão no Reino de Elohim (Lucas 18:24). Já o rabino Sha’ul (Paulo) escreveu que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (Timoteus Álef/Timóteo 6:10).  Estas mesmas doutrinas eram ensinadas pelos essênios.

 

7) Dedicavam-se ao trabalho comunitário com intenso prazer, atuando em diversas áreas com o objetivo de tornar a comunidade autossuficiente

“Eles vivem em conjunto no mesmo lugar, organizam-se em companhias, sociedades, agrupamentos e associações, e trabalham juntos durante toda a vida para o bem comum da irmandade. Os diferentes membros da ordem estão empenhados em ocupações diversas; trabalham alegre e diligentemente, e nunca abandonaram suas tarefas por causa do frio, do calor e de qualquer mudança climática. Dirigem-se para o trabalho diário antes que o Sol se levante, e não o deixam senão depois que o Sol se pôs, quando, então, voltam para casa não menos alegres do que aqueles que estiveram se exercitando em concursos de ginástica. Acreditam que sua ocupação é uma espécie de ginástica de maior benefício para a vida, de maior prazer, tanto para a alma como para o corpo e de uma vantagem mais duradoura do que quaisquer competições atléticas, porque eles podem continuar alegremente em seu trabalho como uma recreação mesmo quando a juventude e o vigor do corpo já se foram. Os que conhecem o cultivo da terra empenham-se na agricultura; outros, que sabem como lidar com animais, cuidam dos rebanhos; alguns são hábeis para lidar com as abelhas; e outros, ainda, são artesãos e manufatureiros, precavendo-se dessa forma contra a falta do que quer que seja. Eles não excluem nada que seja indispensável para suprir as necessidades absolutas da vida.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

8) Havia simplicidade e comunhão na irmandade dos essênios, inclusive por meio de um sistema comunitário de bens

“Para começar, ninguém tem casa própria, pois ela pertence a todos. Além do mais, todos vivem juntos em sociedade; a casa também está aberta para os membros da irmandade que vêm de outros lugares. Além disso, todos têm um único tesouro em comum e um armazém de provisões, de roupas comuns e de alimentos comuns para todos os que comem juntos. Esse modo de viver juntos, e de comer juntos, na verdade não poderia ter sido tão facilmente criado em qualquer outro povo; com efeito, isso teria sido impossível. Pelo que quer que recebessem diariamente, quando trabalhavam por salários, não o retinham como coisa própria, mas entregavam-no ao fundo comum, e deixavam todos os que o quisessem fazer disso uso comum. Os doentes não são negligenciados pelo fato de não poderem ganhar coisa alguma, mas recebem o que é necessário para o seu auxílio do fundo comum, de modo que eles sempre passam muito bem, sem carecer de coisa alguma. Eles mostram respeito, reverência e cuidado para com os idosos, como os filhos fazem com os pais, ajudando-os continuamente com toda a generosidade, tanto material como espiritualmente em sua idade provecta.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

“Eles comem na mesma mesa e recebem todos os dias o mesmo alimento, sendo amantes da frugalidade e da moderação e avessos ao luxo e extravagâncias, como uma moléstia tanto da mente como do corpo. Não somente sua mesa é em comum como também suas vestes. Eles têm uma provisão de tecido de capas rústico para o inverno, e para o verão roupas baratas, sem mangas, a cujo estoque podem recorrer e apanhar livremente a espécie que desejarem, porque o que quer que seja que pertença a cada um pertence a todos, e o que quer que seja que pertença a todos pertence a cada um.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

“Se um deles fica doente, é curado com os recursos comuns e atendido pelo cuidado e preocupação de todos.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Vemos na B’rit Chadashá (Aliança Renovada/“Novo Testamento”) algumas práticas dos netsarim (nazarenos) idênticas a dos essênios: a) permaneciam unidos e possuíam tudo em comum, vendendo a propriedade de seus bens e distribuindo o dinheiro a cada um conforme a necessidade, ou seja, a propriedade era coletiva (Ma’assei Sh’lichim/Atos 2:45); b) as casas estavam abertas aos membros da comunidade (Ma’assei Sh’lichim/Atos 2:46); c) os doentes eram cuidados, inclusive por meio de curas sobrenaturais ((Ma’assei Sh’lichim/Atos 5: 15-16).

Quanto ao sistema comunitário de bens, a descrição da comunidade essênia dada por Filo, acima reproduzida, é praticamente igual à narrativa dos Ketuvim Netsarim (Escritos Nazarenos/“Novo Testamento”):

“Todos os crentes tinham um coração e uma alma, e ninguém reivindicava suas posses; todos, porém, partilhavam o que possuíam. Com grande poder, os emissários [‘apóstolos’] continuaram a testemunhar a ressurreição do Senhor Yeshua, e eles eram tidos em alta conta. Nenhum deles era pobre, porque os proprietários de terras ou casas as vendiam e entregavam o valor correspondente aos emissários, para fazer a distribuição a cada um de acordo com sua necessidade.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 4:32-35).

“Todos os que confiavam em Yeshua permaneciam unidos e possuíam tudo em comum; na verdade, eles venderam suas propriedades e bens e distribuíram o dinheiro a cada um conforme a necessidade.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 2:44-45).

 

Cumpre registrar que na irmandade essênia os neófitos também entregavam seus bens à liderança para a satisfação das necessidades coletivas:

“... também seus bens e suas posses serão incorporados em mãos do Inspetor [Líder] sobre as posses dos Numerosos [congregação dos essênios].” (Regra da Comunidade, Col. VI, 19-20).

“E se lhe cai a sorte de incorporar-se à comunidade [dos essênios], ele [o neófito] será inscrito na Regra de sua categoria em meio aos seus irmãos para a Torá, para o juízo, para a pureza e para a colocação em comum dos seus bens.” (Regra da Comunidade, Col. VI, 21-23).

 

9) Eram os essênios amantes da paz

“Nenhum fabricante de flechas, dardos, lanças, espadas, elmos, couraças ou escudos – nenhum fabricante de armas ou de engenhos de guerra, nem qualquer homem que faça coisas relacionadas com a guerra, ou até coisas que poderiam levar à maldade em tempos de paz é encontrado entre eles.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

É equivalente o ensino de Yeshua:

“Quão abençoados os que promovem a paz!

Porque serão chamados filhos de Elohim.” (Matityahu/Mateus 5:9).

 

O rabino Sha’ul (Paulo) assim abordou o tema:

“Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.” (Ruhomayah/Romanos 12:18).

 

10) Pensavam os essênios que os homens são iguais e, consequentemente, repudiavam a escravidão, que infelizmente era tão natural na época

“Não se encontra entre eles nenhum escravo, porque todos são livres e se servem mutuamente. Eles condenam os proprietários de escravos, não apenas como injustos, visto que corrompem o princípio da igualdade, mas também como ímpios...” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Ensinou Sha’ul acerca da igualdade entre os homens:

“Não há judeu nem gentio, escravo nem livre, homem ou mulher; porque, em união com o Messias Yeshua, todos vocês são um.” (Galutyah 3:28).

 

11) Não praticavam o sacrifício de animais

“Eles não sacrificam animais, mas procuram tornar suas mentes dignas de ser uma oblação santa.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

O livro de Vayikrá (Levítico) estabelece o sistema sacrificial de animais para a expiação de pecados (Lv 17:11), pois “sem derramamento de sangue não há perdão de pecados” (Ivrim/Hebreus 9:22). Contudo, mesmo antes da vinda de Yeshua HaMashiach, não bastava o mero sacrifício do animal, porquanto Elohim somente perdoava aquele que realmente houvesse se arrependido de seus pecados, convertendo-se de seus maus caminhos:

“Entretanto, tudo isto acontecerá se deres ouvidos à voz de YHWH, teu Elohim, guardando os seus mandamentos e os seus estatutos, escritos neste livro da Torá, se te converteres a YHWH, teu Elohim, de todo o teu coração e de toda a tua alma.” (Devarim/Deuteronômio 30:10).

“Quando os céus se cerrarem, e não houver chuva, por ter o povo pecado contra ti, e orar neste lugar, e confessar o teu nome, e se converter dos seus pecados, havendo-o tu afligido...” (Melachim Álef/1º Reis 8:35).

“Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra.” (Divrei Hayamim Beit/ 2º Crônicas 7:14).

 

Logo, analisando a Torá, verifica-se que os pecados eram perdoados mediante o derramamento de sangue de animais associado ao genuíno arrependimento (sacrifício + arrependimento = perdão dos pecados). Todavia, o ETERNO sempre ressaltou que a obediência aos mandamentos contidos na Torá é mais importante do que o sacrifício em si:

“YHWH tem tanto prazer em ofertas queimadas e sacrifícios quanto em obedecer ao que YHWH diz?

Certamente obedecer é melhor do que o sacrifício, e atender às ordens, melhor do que gordura de carneiros.” (Sh’muel Álef/1º Samuel 15:22).

 

Na época dos essênios surgiu um grande problema: apesar de ser verdadeira a fórmula “sacrifício + arrependimento = perdão dos pecados”, os sacerdotes que oficiavam no Templo eram ímpios e, consequentemente, os sacrifícios oferecidos não tinham nenhum valor, tal como falou o ETERNO por meio de Yeshayahu (Isaías) e Yirmeyahu (Jeremias):

“Por que são oferecidos a mim todos aqueles sacrifícios, pergunta YHWH.

Estou farto de ofertas queimadas de carneiros e da gordura de animais engordados!

Não me agrado do sangue de touros, cordeiros e bodes!” (Yeshayahu/Isaías 1:11).

“Suas ofertas queimadas são inaceitáveis, e seus sacrifícios não me agradam.” (Yirmeyahu/Jeremias 6:20).

 

Já que os o ETERNO repudiava sacrifícios ministrados por sacerdotes iníquos, os essênios deixaram de ir ao Beit Hamikdash (Templo) para ofertar animais. Não era a seita religiosa contra o sacrifício em si, já que este foi instituído pelo ETERNO, mas sim contra a ilegitimidade do sacrifício profano. Daí, passaram a viver os essênios sem o sacrifício de animais, respaldados pelos seguintes textos das Escrituras:

Pois desejo misericórdia, não sacrifícios, o conhecimento de Elohim mais que ofertas queimadas.” (Hoshea/Oséias 6:6).

Sacrifícios e ofertas de grãos, tu não queres; de ofertas queimadas e ofertas pecaminosas, não precisas.

Em vez disso, tu me deste ouvidos abertos; então eu disse: ‘Aqui estou, YHWH! Aqui me achego!’

Nos rolos de um livro, está escrito a meu respeito.

Cumprir teu desejo, meu Elohim, é minha alegria; tua Torá está no fundo de meu coração.” (Tehilim/Salmos 40: 7-9 ou, nas versões cristãs, 6-8).

“YHWH fala (...): Não preciso de nenhum novilho de seus rebanhos, nem dos bodes de seus currais, pois todos os animais são meus...

Acaso como carne de touros ou bebo sangue de cabritos?” (Tehilim/Salmos 50:9 e 13).

 

Já que os essênios não sacrificavam animais, dedicaram-se a outro tipo de sacrifício:

Meu sacrifício a Elohim é um espírito quebrantando; tu não desprezas; tu não desprezas um coração humilde e contrito.” (Tehilim/Salmos 51:19, ou, nas versões cristãs, 51:17).

Ofereça a Elohim sacrifício de ação de graças.” (Tehilim/Salmos 50:14).

 

À luz do pensamento essênio, sua irmandade formaria uma “comunidade de santidade” e a própria santidade seria a oferta a Elohim, consoante a prescrição da Regra da Comunidade:

“... e depois será inscrito segundo a sua categoria na comunidade de santidade.

Quando estas coisas existirem em Yisra’el de acordo com estas disposições para fundamentar o espírito de santidade na verdade eterna, para expiar pela culpa da transgressão e pela infidelidade do pecado, e pelo beneplácito para a terra sem a carne dos holocaustos e sem as gorduras do sacrifício – a oferenda dos lábios segundo o preceito será como o perfume agradável de justiça, e a perfeição de conduta será como a oferenda voluntária aceitável...” (Regra da Comunidade, Col.IX, 3-5).

 

Em Matityahu (Mateus), em dois embates com os p’rushim (fariseus), Yeshua cita Hoshea (Oséias): “Misericórdia quero e não sacrifício” (Mt 9:13 e 12:7 combinado com Os 6:6). Daí, conclui-se que o ensino de Yeshua se harmoniza com a irmandade essênia, à medida em que ambos priorizam a misericórdia.

Por trás de tudo isso existe uma questão interessante: antes mesmo do nascimento de Yeshua, os essênios não realizavam sacrifícios de animais, ofertando ao ETERNO suas próprias vidas santas. Com a morte expiatória de Yeshua, tornou-se desnecessário o sacrifício de animais para os que nele creem (Ivrim/Hebreus 10:11-18), razão pela qual os netsarim (nazarenos) adotaram a mesma doutrina dos essênios, qual seja, passaram a se oferecer “em sacrifício vivo, santo e agradável a Elohim” (Ruhomayah/Romanos 12:1). Logo, o pensamento essênio acerca do “sacrifício vivo” é, sem dúvida alguma, precursor da doutrina dos netsarim (nazarenos).

 

11) Habitavam os essênios em Yisra’el e na Síria

“A Judeia, e também a Síria, que são habitadas por não pequena parte da grande população de judeus, não são destituídas de virtudes. Há alguns entre eles chamados ‘essênios’, que são mais de quatro mil...”.

“Eles viviam em muitas cidades da Judeia, e em aldeias e em grandes e populosas comunidades.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

A informação trazida por Filo é de extrema relevância, porquanto demonstra que nem todos os essênios eram sectários e viviam isolados da sociedade. Este fato parece desconhecido de muitos historiadores que incorretamente gizam que todos os essênios praticavam o monasticismo na desértica região de Qumran. Erram ainda ao estabelecer a seguinte vinculação: essênios = comunidade qumrânica. Em verdade, o essenismo é um movimento religioso muito amplo, sendo que apenas parte do grupo habitava na região de Qumran. Então, é certo dizer que os essênios residiam:

1) em populosas cidades, convivendo normalmente com outras pessoas, inexistindo isolacionismo social;

2) em Qumran, sendo que este grupo de essênios realmente tinha doutrinas monásticas;

3) em Dammsek (Damasco), conforme atesta o Documento de Damasco.

Conclusão idêntica chegou o professor espanhol Florentino García Martínez:

“As informações sobre os essênios proporcionadas pelas fontes clássicas são precisas ao descrever o movimento essênio como um movimento de grande envergadura e de tipo nacional, cujos membros não vivem separados do resto do judaísmo mas se acham disseminados por todas as cidades do país. Reduzir o essenismo ao fenômeno marginal que é Qumran supõe deixar sem explicação o essenismo não qumrânico, um fenômeno mais amplo e mais importante que o fenômeno de Qumran.” (Textos de Qumran, editora Vozes, 1995, página 39).

 

Logo, nem todos os essênios eram refratários ao contato social.

 

12) Alguns se isolavam das cidades e passavam a viver monasticamente em aldeias

“Em primeiro lugar, vivem em aldeias, evitando as cidades por causa da habitual maldade dos cidadãos, julgando que como se contraem doenças por respirar uma atmosfera impura, do mesmo modo causa-se uma impressão incurável na alma nessa maléfica companhia.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Como visto no tópico anterior, nem todos os essênios eram sectários. Daí, a descrição de Filo parece dizer respeito apenas à facção mais radical.

 

13) Existiam um pouco mais de 4 mil essênios

“Há alguns entre eles chamados ‘essênios’, que são mais de quatro mil...” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Se considerarmos que a população de Yisra’el, no primeiro século, girava em torno de 500 mil a dois milhões e meio de habitantes (há divergência entre os pesquisadores), os 4 (quatro) mil essênios representavam uma minoria da nação. Isto não é de se estranhar, já que durante a história de Yisra’el os piedosos sempre foram a minoria, chamados pelas Escrituras de “remanescentes” (Yeshayahu/Isaías 10:22).

O mesmo fenômeno ocorreu com os netsarim, que representaram a minoria da população israelita, os remanescentes que seriam salvos (Ruhomayah/Romanos 9:27). Contudo, ainda resta o cumprimento da profecia de que “todo o Yisra’el será salvo” (Ruhomayah 12:26).

 

14) Alguns essênios praticam o celibato

“... eles repudiam o casamento e ao mesmo tempo praticam a continência em grau eminente. Por isso, nenhum essênio se casa, porque a mulher é uma criatura interesseira e excessivamente ciumenta, e tem grande poder para destruir princípios morais de um homem e desencaminhá-lo com artifícios contínuos; pois ela está sempre inventando falas lisonjeiras e outros tipos de hipocrisia, como se estivesse num palco, seduzindo os olhos e os ouvidos; e quando eles são subjugados como coisas estupidificadas, ela passa a debilitar a capacidade de decisão do intelecto”.

“Mas quando tem filhos, ela se torna cheia de orgulho e arrogância, fala audaciosamente, o que antes apenas indicava em disfarce traiçoeiro, e sem qualquer vergonha força uma pessoa a fazer o que quer que seja de hostil à irmandade; pois aquele que se acha acorrentado pelos encantos de uma mulher, ou cuida dos filhos pela necessidade da natureza, já não é mais a mesma pessoa para os outros, pois mudou por completo e, sem o perceber, tornou-se um escravo em vez de um homem livre.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

A descrição de Filo sobre a vida celibatária dos essênios não espelha a totalidade do movimento, uma vez que muitos deles se casavam, conforme narra Flávio Josefo. Contudo, enquanto os fariseus valorizavam sobremaneira o matrimônio, incentivando que o homem se unisse à mulher aos dezoito anos de idade (Avot 5:22), os essênios priorizam a vida espiritual a tal ponto que buscavam ser como anjos, “que não se casam e nem se dão em casamento”. Então, pode-se compendiar a filosofia essênia nas seguintes proposições: 1) o casamento é permitido e em sua constância as relações sexuais são lícitas, porém, não podem se sobrepor às práticas de elevação espiritual; 2) aqueles que conseguiram atingir alto grau de espiritualidade praticam o celibato.

Estes dois conceitos aparecem nos ensinamentos de Yeshua. Em um primeiro momento, o rabino galileu interpreta a Torá e expõe regras rígidas sobre o casamento, ensinando que o divórcio é proibido, exceto por causa de imoralidade sexual (adultério).  E mais: quem se divorcia e novamente se casa é considerado adúltero (!!!), salvo se repudiou o cônjuge em razão da infidelidade conjugal (Matityahu/Mateus 19:3-9). Em outras palavras, Yeshua ensina que o casamento é uma instituição legítima, erigida pelo Criador, e que possui rígidas normas sobre a indissolubilidade do vínculo matrimonial.

Por outro lado, seguindo a diretriz essênia, o Mashiach de Yisra’el leciona que existem pessoas que não se casam para melhor servir ao Reino do Céu, e incentiva seus discípulos, caso sejam capazes, à conduta celibatária:

“Os talmidim [discípulos] lhe disseram: ‘Se as coisas são desse jeito entre marido e mulher, é melhor não se casar!’. Ele [Yeshua] lhes disse: ‘Nem todos aceitam esta palavra; só a quem ela é concedida. Porque existem diferentes razões pelas quais os homens não se casam: alguns nasceram sem este desejo; outros, por terem sido castrados; e  outros renunciaram ao casamento por causa do Reino do Céu. Quem puder aceitá-lo, que o faça.” (Matityahu/Mateus 19:10-12).

 

É de clareza ímpar o texto ao demonstrar que o Nazareno desafia seus discípulos a renunciar o matrimônio em prol do Reino de Elohim, caso pudessem, fato que é confirmado por seu próprio testemunho de vida: o Mestre nunca se casou!

 O estímulo ao celibato, nos mesmos moldes essênios, também é encontrado nos escritos do rabino Sha’ul (Paulo):

“Ora, quanto às coisas que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher, mas por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e casa uma tenha o seu próprio marido.

(...)

Porque queria que todos os homens fossem como eu mesmo ... [ou seja, não se casassem]

(...)

Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se.

(...)

Estás ligado à mulher? Não busques separar-te. Estás livre de mulher? Não busques mulher.

(...)

A mulher está ligada a seu marido enquanto ele viver; mas se o marido morrer, ela está livre para se casar com quem quiser, desde que ele seja crente no Senhor. No entanto, em minha opinião, ela será mais feliz se permanecer sem se casar, e ao dizer isso, creio ter o Espírito de Elohim.” (Curintayah Álef/1ª Coríntios 7: 1,2, 7, 8, 9, 27, 39 e 40).

 

Criam parte dos essênios que a pessoa solteira é capaz de melhor servir ao ETERNO, enquanto a casada termina por se ocupar das questões familiares, perdendo o tempo precioso de dedicação a Elohim. Compare esta ideologia com as palavras do rabino Sha’ul (Paulo):

“E bem quisera eu que estivésseis sem cuidado. O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar a mulher.

Há diferença entre a mulher casada e a virgem: a solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido.

E digo isso para proveito vosso; não para vos enlaçar, mas para o que é decente e conveniente, para vos unirdes ao Senhor, sem distração alguma.” (Curintayah Álef/1ª Coríntios 7:32-35).

 

Na aula de Sha’ul (Paulo), há a contraposição entre solteiros e casados. Os primeiros são santos “tanto no corpo como no espírito” (verso 34), deduzindo-se do texto que os casados serão santos apenas no espírito. Esta reticência quanto ao matrimônio possui nítido verniz essênio e não se coaduna com o farisaísmo hileíta aprendido por Sha’ul, porquanto Hilel ensinava que o homem deveria se casar aos dezoito anos de idade (Avot 5:22).

A preferência celibatária de Yeshua e Sha’ul, doutrina eminentemente essênia, é totalmente oposta à concepção farisaica. Confira-se o relato do Talmud, no Tratado de Kidushin 29b, citado e comentado por Irving Bunim:

“... Rabi Chisda elogiava muito um colega como alguém notável. Rabi Huna lhe disse: ‘Quando te visitar, traze-o para que me veja’. O colega veio e Rabi Huna percebeu que não usava roupa de homem casado; ‘Por que não usas esta roupa?’ perguntou Rabi Huna.  ‘Porque não sou casado’, respondeu o outro. ‘Esteja certo’ – replicou – ‘de que não tornarás a ver meu semblante até que tomes mulher (por esposa)!’, pois Rabi Huna (continua o Talmud) sustentava a ideia de que, se aos vinte anos uma pessoa não se casou, todos os seus dias (viverá depois) em pecado ou, no mínimo, acrescenta o Talmud, teve pensamentos pecaminosos. E tanto Rava quanto a escola de Rabi Yishmael ensinaram: ‘Até que o homem complete vinte anos, o Santíssimo, bendito seja, espera, confiantemente, (por assim dizer, perguntando): ‘Quando tomarás esposa’. Mas quando completou vinte e um anos e ainda é solteiro, Ele exclama: ‘Que sequem seus ossos!’.

Evidentemente, entre eles era fácil e aceito o casamento com a idade de dezoito, já que o Talmud continua com uma asserção de Rabi Chisda: ‘se sou superior ao meus colegas, isto se deve a que contraí núpcias aos dezesseis...’. Parece então que o solteiro com mais de vinte anos pode ser o culpado de sua própria má situação.” (A Ética do Sinai, Sefer, 2009, página 414).

 

Ora, enquanto o farisaísmo exalta o casamento e reputa uma maldição o solteirismo a partir dos 21 anos de idade, chegando o rabino Chisda a vangloriar-se e achar-se superior por ter contraído núpcias aos 16 anos, o essenismo apregoa justamente o contrário, ao enaltecer aqueles que se dedicam exclusivamente à santidade e ao Reino de Elohim, sem preocupar-se com “as coisas do mundo”. Neste ponto, Yeshua e Sha’ul concordam com os essênios. 

 

15) Externavam um testemunho de vida exemplar, conquistando a admiração de todos os homens, desde os mais simples até os poderosos

“Tal é o invejável sistema de vida dos essênios que não só os indivíduos, mas até reis poderosos os admiravam, veneravam sua irmandade e tornavam sua dignidade e nobreza ainda mais elevados por elogios e honrarias que lhes dispensavam.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Granjearam para si os essênios a veneração de humildes e poderosos, porque se esforçavam ao máximo para viver “na perfeição”, exalando um perfume agradável à humanidade;

“No conselho da comunidade haverá doze homens e três sacerdotes, perfeitos em tudo o que tiver sido revelado na Torá, para praticar a verdade, a justiça, o juízo, o amor misericordioso e conduta humilde de cada um para com seu próximo...

Será [a comunidade essênia] residência santíssima para Aharon [Aarão] com conhecimento total da aliança de justiça, e para oferecer um perfume agradável; e será uma casa de perfeição e verdade em Yisra’el...

Estes são os preceitos nos quais andarão os homens de santidade perfeita uns com os outros.” (Regra da Comunidade, Col.VIII, 1, 2, 8, 9 e 20).

 

Yeshua também se valeu do conceito de “perfeição”. Após discursar sobre os bem-aventurados pobres de espírito (humildes), mansos, misericordiosos, pacificadores e limpos de coração (Matityahu/Mateus 5), resume o Sermão da Montanha com a seguinte cláusula:

“Portanto, sejam perfeitos, como o Pai celestial de vocês é perfeito.” (Matityahu/Mateus 5:48).

 

16) Tinham uma vida perfeita e feliz

“... todos os reconheciam como independentes e livres por natureza, elogiavam suas refeições em comum e comunhão de bens, o que ultrapassa qualquer descrição e constitui prova evidente de uma vida perfeita e muito feliz.” (Filo de Alexandria, Ob.Cit.).

 

Filo descreveu os essênios como pessoas com uma “vida perfeita e muito feliz”. De acordo com as palavras da própria seita, pode-se dizer que esta felicidade consistia em estabelecer “a aliança (com o ETERNO), para retornar (teshuvá) à Torá de Moshé (Moisés) com todo coração e com toda a alma”, já que na Torá “tudo está definido” (Documento de Damasco, Col. XV, 9, 10 e Col. XVI, 1). Em outras palavras, a verdadeira piedade depende da obediência à palavra de Elohim, e é isto que traz a felicidade ao homem. Compartilhou Yeshua a mesma ótica:

“Antes, felizes são aqueles que ouvem a palavra de Elohim e lhe obedecem.” (Lucas 11:28).

 

 

B)   FLÁVIO JOSEFO

 

O segundo testemunho de extrema relevância é dado por Yosef Ben Matityahu, historiador judeu, conhecido por seu nome romano: Flávio Josefo (37 a 100 D.C). Proveio de uma aristocrática família sacerdotal e escreveu duas monumentais obras acerca da história dos hebreus: Antiguidades Judaicas e Guerra dos Judeus.

É preciosa a informação de Josefo acerca dos essênios e das duas outras seitas judaicas (fariseus e saduceus), porque o historiador, desde a juventude, as conheceu de perto, consoante sua autobiografia:

“Quando fiz treze anos, desejei aprender as diversas opiniões dos fariseus, as dos saduceus e as dos essênios, três seitas que existem entre nós, a fim de que, conhecendo-as, pudesse adotar a que melhor me parecesse. Assim, estudei-as todas e experimentei-as com muitas dificuldades e muita austeridade. Mas essa experiência ainda não me satisfez; vim a saber que um certo Bane [essênio] vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a mesma terra produz; para se conservar casto, banhava-se várias vezes por dia e de noite, na água fria; resolvi imitá-lo. Depois de ter passado três anos com ele, voltei, aos dezenove anos, a Jerusalém. Iniciei-me, então, nos trabalhos da vida civil e abracei a seita dos fariseus, que se aproxima mais que qualquer outra da dos estoicos, entre os gregos”. (História dos Hebreus, CPAD, 2004, pg. 958).

 

Em sua narrativa panorâmica acerca das três seitas, Flávio Josefo afirma que os saduceus advêm de camadas elitizadas da população e creem que a alma é mortal, enquanto os fariseus e os essênios defendem a imortalidade da alma, a recompensa ou o castigo após esta vida e a doutrina da futura ressurreição.  Nestes aspectos, segundo Josefo, os fariseus e os essênios são iguais, excetuando-se que estes últimos fazem “uma profissão”, ou seja, o ingresso na comunidade essênia está condicionado a um ritual em que são proferidos juramentos, principalmente o de seguir um único Elohim. Vale conferir a descrição:

“Entre os judeus, os que faziam profissão particular de sabedoria estavam, há vários séculos, divididos em três seitas: os essênios, os saduceus e os fariseus, das quais, embora eu já tenha falado no segundo livro da Guerra dos judeus, penso que devo dizer aqui também alguma coisa.

A maneira de viver dos fariseus não é fácil nem cheia de delícias: é simples. Eles se apegam obstinadamente ao que se convencem que devem abraçar. Honram de tal modo os velhos que não ousam nem mesmo contradizê-los.

Atribuem ao destino tudo o que acontece, sem, todavia, tirar ao homem o poder de consentir. De sorte que, sendo tudo feito por ordem de Deus, depende, no entanto, da nossa vontade entregarmo-nos à virtude ou ao vício. Eles julgam que as almas são imortais, julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste — virtuosas ou viciosas — e que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida, e outras retornam a esta [ressurreição].

Eles granjearam, por essa crença, tão grande autoridade entre o povo que este segue os seus sentimentos em tudo o que se refere ao culto de Deus e às orações solenes que lhe são feitas. Assim, cidades inteiras dão testemunhos valiosos de sua virtude, de sua maneira de viver e de seus discursos.

A opinião dos saduceus é que as almas morrem com os corpos e que a única coisa que somos obrigados a fazer é observar a lei, sendo um ato de virtude não tentar exceder em sabedoria os que a ensinam. Os adeptos dessa seita são em pequeno número, mas ela é composta de pessoas da mais alta condição. Quase sempre, nada se faz segundo o seu parecer, porque quando eles são elevados aos cargos e às honras, muitas vezes contra a própria vontade, são obrigados a se conformar com o proceder dos fariseus, pois o povo não permitiria qualquer oposição a estes.

Os essênios, a terceira seita, atribuem e entregam todas as coisas, sem exceção, à providência de Deus. Creem que as almas são imortais, acham que se deve fazer todo o possível para praticar a justiça e se contentam em enviar as suas ofertas ao Templo, sem oferecer lá os sacrifícios, porque o fazem em particular, com cerimônias ainda maiores. Os seus costumes são irreprocháveis, e a sua única ocupação é cultivar a terra. Sua virtude é tão admirável que supera em muito a dos gregos e de outras nações, porque eles fazem disso todo o seu empenho e preocupação e a ela se aplicam continuamente. Possuem todos os bens em comum, sem que os ricos tenham maior parte que os pobres. O seu número é superior a quatro mil. Não têm mulheres nem criados, porque estão convencidos de que as mulheres não contribuem para o descanso da vida. Quanto aos criados, consideram uma ofensa à natureza, que fez todos os homens iguais, querer sujeitá-los. Assim, eles se servem uns dos outros e escolhem homens de bem da ordem dos sacerdotes, que recebem tudo o que eles recolhem de seu trabalho e têm o cuidado de fornecer alimento a todos. Essa maneira de viver é quase igual à dos que chamamos plistes e vivem entre os dácios.

Judas [Yehudá], de quem acabamos de falar, foi o fundador da quarta seita. Está em tudo de acordo com a dos fariseus, exceto que aqueles que fazem profissão para adotá-la [mediante um juramento solene] afirmam que há um só Deus, ao qual se deve reconhecer por Senhor e Rei. Eles têm um amor tão ardente pela liberdade que não há tormentos que não sofram ou que não deixem sofrer as pessoas mais caras antes de atribuir a quem quer que seja o nome de senhor e mestre. A esse respeito não me delongarei mais, porque é coisa conhecida de tantas pessoas que, em vez de temer que não se preste fé ao que digo, tenho somente o receio de não poder expressar até que ponto vai a sua incrível paciência e o seu desprezo pela dor.” (Ob.Cit., páginas 830 e 831).

 

A narrativa acima assevera que os essênios: 1) creem que o ETERNO controla o destino dos homens; 2) creem na imortalidade da alma; 3) não fazem sacrifícios no Templo; 4) externam conduta exemplar; 5) são virtuosos; 6) possuem os bens em comum; 7) são superiores ao número de quatro mil; 8) não têm mulheres (em outra narrativa, Josefo dirá que alguns são casados); 9) não possuem criados e escravos, pois defendem a igualdade entre os homens; 10) há sacerdotes em seu meio; 11) creem somente que existe 1 (um) Elohim; 12) resistem aos sofrimentos que lhe são impostos (possível alusão às torturas promovidas por dominações estrangeiras). Logo, de um modo geral, a exposição de Flávio Josefo coincide com a de Filo de Alexandria.  Curial registrar que todas as 12 (doze) características citadas se encontram presentes no Judaísmo dos netsarim (nazarenos).

Continua Josefo a apresentar os essênios como sendo “a mais perfeita de todas” as seitas:

“... a primeira [seita] era a dos fariseus, a segunda, a dos saduceus e a terceira, a dos essênios, que é a mais perfeita de todas.

Eles [os essênios] são judeus de nascimento; vivem em estreita união e consideram os prazeres como vícios, que se devem evitar, e a continência e a vitória sobre suas paixões como virtudes, que muito se devem estimar. Rejeitam o casamento, não porque julgam dever-se destruir a espécie humana, mas para se evitar a intemperança das mulheres que não guardam fidelidade aos seus maridos. Não deixam, entretanto, de reconhecer as crianças que lhes são dadas para instruírem e educá-las na virtude, com tanto cuidado e caridade como se fossem seus pais, e alimentam e vestem todas da mesma maneira.

Desprezam as riquezas: todas as coisas são comuns entre eles, com uma igualdade tão admirável que, quando alguém abraça a seita, despoja-se de toda propriedade, para evitar, por esse meio, a vaidade das riquezas, poupar aos outros a vergonha da pobreza e em tão feliz união viver juntos como irmãos.

Não toleram a unção do corpo com óleo [produto caro, incompatível com a simplicidade do grupo], mas se isso sucede a alguém, ainda que contra a vontade, eles limpam aquele óleo como se fossem manchas e julgam-se limpos e bastante puros, quando suas vestes são sempre brancas.

Escolhem para ecônomos, homens de bem, que recebem todas as suas rendas e as distribuem segundo as necessidades de cada qual; não têm cidade certa onde morar; estão espalhados em várias, onde recebem os que desejam entrar em sua sociedade; ainda que jamais os tenham visto, dividem com eles o que têm como se os conhecessem há muito tempo.

Quando fazem alguma viagem nada levam consigo, apenas armas para se defenderem dos ladrões. Eles têm em cada cidade alguns dos seus, para receber e alojar os de sua seita, que por ali passam e para lhes dar vestes e outras coisas de que podem ter necessidade.

Não mudam de roupa, senão quando as suas já estão rotas ou muito usadas. Nada vendem e nada compram entre si; mas permutam uns com os outros tudo o que têm.

São muito religiosos e piedosos para com Deus, só falam de coisas santas; antes que o sol desponte fazem orações, que receberam por tradição, para pedir a Deus que o faça brilhar sobre a terra. Depois vão trabalhar, cada qual em seu ofício, segundo o que lhes é determinado. Às onze horas, reúnem-se e cobertos com um pano de linho, lavam-se em água fria. Retiram-se em seguida para suas celas, cuja entrada só é permitida aos da seita e, tendo-se purificado desse modo, vão ao refeitório, como a um santo Templo, onde, depois de sentados, em grande silêncio, põem, diante de cada qual, um pão e um pouco de alimento num pequeno prato. Um sacerdote abençoa as iguarias e não se pode tocá-las enquanto não termina a oração. Oram depois da refeição para terminar como começaram, com louvores a Deus, a fim de testemunhar que somente de sua liberalidade eles recebem tudo o que têm para sua alimentação. Deixam então suas vestes que consideram sagradas e voltam ao trabalho. Fazem a ceia à noitinha do mesmo modo e recebem seus hóspedes, se os houver.

Jamais se ouve barulho em suas casas; nunca se vê a menor perturbação; cada qual fala por sua vez e sua posição e seu silêncio causam respeito aos estrangeiros. Tão grande moderação é efeito de sua contínua sobriedade; não comem nem bebem mais do que é necessário para a sustentação da vida.

Não lhes é permitido fazer coisa alguma, a não ser com a anuência de seus superiores, exceto ajudar os pobres sem que qualquer outra razão os leve a isso — a compaixão pelos infelizes; quanto aos parentes, nada lhes dão se não lhes for concedida a permissão.

Têm imenso cuidado de reprimir a cólera; amam a paz e cumprem tão inviolavelmente o que prometem que se pode prestar fé às suas simples palavras, como a juramentos. Eles os consideram mesmo como perjúrios, porque não podem crer que um homem não seja um mentiroso quando tem necessidade, para que nele se creia, de tomar a Deus por testemunha.

Estudam com cuidado os escritos dos antigos, principalmente no que se refere às coisas úteis à alma e ao corpo, e adquirem grande conhecimento dos remédios próprios para curar as doenças e a virtude das plantas, das pedras e dos metais.

Eles não recebem imediatamente em sua comunidade os que querem abraçar a sua maneira de viver, mas fazem-nos esperar um ano onde eles têm cada qual uma ração, um cântaro de água, uma veste, de que falamos, e um hábito branco. Dão-lhes em seguida um alimento mais parecido ao deles e permitem-lhes lavar-se na água fria, a fim de se purificar, mas não os deixam comer no refeitório até que tenham, durante dois anos, experimentado os seus costumes, como antes experimentaram a sua continência. Então são recebidos, porque só assim são tidos como dignos, mas, antes de se sentar à mesa com os outros, juram solenemente honrar e servir a Deus de todo o coração, observar a justiça para com os homens, jamais fazer voluntariamente mal a ninguém, mesmo quando isso lhes fosse ordenado, ter aversão pelos maus, ajudar sempre aos homens de bem, de todos os modos possíveis, manter fidelidade a todos e particularmente aos soberanos, porque eles recebem o seu poder de Deus. A isso acrescentam que, se forem constituídos num cargo, não abusarão do poder para maltratar os inferiores; que nada terão mais que os outros, nem em suas vestes, nem no que se refere às suas pessoas, que terão um amor inviolável pela verdade, e repreenderão severamente os mentirosos; que conservarão as mãos e as almas puras de todo roubo e de todo desejo de lucro injusto; que nada ocultarão aos seus confrades dos mistérios mais secretos de sua religião e nada revelarão aos outros, mesmo quando fossem ameaçados de morte, para obrigá-los a isso; que só ensinarão a doutrina que lhes foi ensinada e que guardarão cuidadosamente os livros bem como os nomes daqueles de quem a receberam.

Tais as promessas que são obrigados a fazer todos os que querem abraçar a sua maneira de viver, e ao fazê-lo, tem de ser solenemente, a fim de fortalecer a virtude contra os vícios. Se contra elas cometeram faltas graves, são afastados de sua companhia e a maior parte dos que são assim rejeitados morre miseravelmente, porque, não lhes sendo permitido comer com os estrangeiros, são obrigados a comer erva como os animais e chegam a morrer de fome; por isso, às vezes, a compaixão que se tem de sua extrema miséria faz com que sejam perdoados.

Os desta seita são muito justos e exatos em seus juízos; seu número é de quase cem; os que eles pronunciam e o que uma vez determinaram, tornam-se imutáveis.

Veneram de tal modo, depois de Deus, o seu legislador [Moisés], que castigam com a pena de morte os que dele falam com desprezo e consideram mui grande dever obedecer aos antepassados e ao que vários deles lhes ordenam.

São tão atenciosos uns para com os outros que, de dez, nenhum ousa falar se os outros nove não consentirem; consideram grande grosseria estar no meio deles ou à sua direita.

Observam mais religiosamente o sábado do que qualquer outro judeu e não somente preparam o alimento na véspera, para não serem obrigados a fazê-lo no dia de descanso, como não ousam nem mesmo mudar um objeto de lugar, nem satisfazer, se não forem obrigados a isso, às necessidades da natureza.

Nos outros dias, eles o fazem; num lugar afastado e com aquela ferramenta de que falamos cavam um buraco na terra de um pé de profundidade onde, depois de se terem descarregado, cobrindo-se com suas vestes, como se tivessem receio de serem manchados pelos raios do sol que Deus faz brilhar sobre eles, enchem o buraco com a terra que dali tiraram. Porque, ainda que seja uma coisa natural, não deixam de a considerar como impureza, que devem evitar e depois lavam-se para se purificar.

Os que fazem profissão dessa maneira de viver estão divididos em quatro classes; os mais jovens têm tal respeito pelos mais velhos, que quando os tocam são obrigados a se purificar como se tivessem tocado num estrangeiro.

Vivem tanto tempo, que alguns chegam a cem anos, o que eu atribuo à simplicidade da vida e ao fato de eles serem muito metódicos em tudo.

Desprezam os males da terra, vencem os tormentos com a constância e preferem a morte à vida, quando o motivo é honroso. A guerra que travamos contra os romanos fez ver de mil modos que sua coragem é invencível. Eles sofreram o ferro e o fogo, tiveram quebrados todos os ossos, mas não disseram uma palavra contra seu legislador, nem comeram os alimentos que lhes eram proibidos, nem no meio de tantos tormentos derramaram uma única lágrima, nem disseram uma palavra para abrandar a crueldade dos carrascos. Ao contrário, zombavam deles, sorriam e morriam alegremente, porque esperavam passar desta vida para a melhor e acreditavam firmemente que, embora nosso corpo seja mortal e corruptível, nossas almas são imortais e incorruptíveis — de uma substância etérea, muito sutil, encerrada no corpo, como numa prisão, onde uma inclinação natural as atrai e retém — e que apenas se veem livres destes laços carnais, que as prendem em dura escravidão, quando elevam-se ao ar e voam com alegria. Nisto estão de acordo com os gregos, que julgam que as almas felizes têm sua morada além do Oceano, numa região onde não há chuva, nem neve, nem calor excessivo; mas um doce zéfiro a faz sempre agradável; e que ao contrário, as almas dos maus têm por morada lugares gelados, agitados por contínuas tempestades, onde eles gemem eternamente em sofrimentos infinitos. É assim, parece-me, que os gregos querem que seus heróis, aos quais dão o nome de semideuses, morram nas ilhas a que chamam de felizes e as almas dos ímpios estejam sempre atormentadas no inferno, como eles dizem, de Sísifo, Tântalo, Ixion e Títio.

Esses mesmos essênios julgam que as almas são criadas imortais, para se darem à virtude e se afastarem do vício; que os bons se tornam melhores nesta vida pela esperança de serem felizes depois da morte, e os maus, que imaginam poder esconder neste mundo suas más ações, são castigados com tormentos eternos. Tais os seus sentimentos com relação à excelência da alma, dos quais não se afastam uma vez persuadidos. Há entre eles alguns que se vangloriam de conhecer as coisas futuras, quer pelos estudos nos livros santos e nas antigas profecias, quer pelo cuidado que têm de se santificar.

Há uma outra espécie de essênios que estão de acordo com os primeiros, no uso de certos alimentos, dos mesmos costumes e nas mesmas leis, mas divergem no que se refere ao casamento. Estes acreditam que é querer abolir a raça humana renunciar ao mesmo, pois que, se todos fossem dessa opinião, ver-se-ia em breve a família humana completamente extinta. Mas nisso procedem também com tanta moderação, que, antes de se casarem, observam durante três anos se a pessoa com quem se querem casar tem saúde suficiente para poder criar os filhos; quando depois de casadas se tornam grávidas, não dormem mais com a esposa durante a gestação, para mostrar que não foi a voluptuosidade, mas o desejo de dar homens ao mundo e à república, que os induziu a se casarem; quando as mulheres se lavam, cobrem-se com um pano, como os homens. Assim, pelo que acabo de relatar, conhecemos os costumes e usos dos essênios.” (Ob.Cit., pgs. 1129 a 1134).

 

São reveladas, na transcrição acima, várias características que possuem profunda conexão com Yeshua e os netsarim. Os paralelos mais evidentes entre os isyim (essênios) e os netsarim (essênios) denotam que ambos: 1) viviam em estreita união; 2) consideravam os prazeres carnais como vícios; 3) amavam a virtude; 4) desprezavam as riquezas; 5) entregavam seus bens à liderança, passando a propriedade a ser comum; 6) apregoavam a igualdade entre todos os homens; 7) tratavam uns aos outros como irmãos; 8) eram muitos zelosos na religião judaica; 9) somente falavam coisas santas; 10) estudavam e experimentavam os mistérios sobrenaturais de Elohim; 11) oravam e louvavam constantemente.

Há outros conectores entre os essênios e os nazarenos e que muitas vezes não são percebidos.

Os primeiros se vestiam de branco, e esta simbologia é adotada pelo Mashiach e seus discípulos. Com efeito, Yeshua disse: “andarão de branco junto comigo”, ao se referir aos que não se contaminaram e são dignos (Guilyana/Apocalipse 3:4). O linho fino, da noiva de Yeshua, representa os atos justos do povo de Elohim (Guilyana/Apocalipse 19:7-8). Na corte celestial, os anciãos estão vestidos de branco (Guilyana/Apocalipse 4:4) e os membros do exército do céu (os anjos) que seguem Yeshua também possuem roupas de linho fino e branco (Guilyana/Apocalipse 19:11-14).

Escreveu Josefo, na passagem supra transcrita, que quando os essênios viajavam não levavam nada consigo, partiam com a roupa do corpo. Yeshua instruiu seus discípulos da mesma forma na ocasião em que os mandou a outras cidades:

“Não levem dinheiro nos cintos, nem ouro, prata ou cobre; não levem nenhum saco de viagem, nenhuma roupa extra, nem sandálias nem bordão...”. (Matityahu/Mateus 10:9).

 

Outra semelhança entre os essênios e os netsarim diz respeito ao dom da profecia. Yeshua HaMashiach foi profeta (Matityahu/Mateus 21:11) e muitos dos netsarim eram reconhecidamente profetas (Ma’assei Sh’lichim/Atos 11:27, 13:1 e 15:32; Curintayah Álef/1ª Coríntios 12:28 e 29, 14:29, 32 e 37; Efessayah/Efésios 4:1). Sha’ul (Paulo) estimulou o ministério profético:

“Entretanto, continuem buscando com avidez as coisas da Ruach [Espírito]; procurem especialmente a habilidade de profetizar.

(...)

Quando dois ou três profetas falarem, os demais deverão avaliar o que foi dito. Se alguma coisa for revelada ao profeta que está sentado, que o primeiro profeta fique em silêncio. Todos vocês podem profetizar, um por um, para que todos aprendam e sejam encorajados.” (Curintayah Álef/1ª Coríntios 14:1, 29-31).

 

Noutro giro, escreveu Josefo sobre os essênios:

Existem também alguns dentre eles que cuidam de predizer eventos futuros, tendo sido educados desde a juventude no estudo da Escritura Sagrada, em diversas purificações e nos ditos dos profetas; e é muito raro que falhem em suas predições.” (Guerra dos Judeus, livro II, capítulo VIII, § 12).

 

Josefo arrola três eventos em que essênios profetizaram com precisão. No primeiro, após a morte de Simão Macabeu, assumiu o poder seu filho João Hircano I, que governou a Judeia de 134 a 104 A.C. Hircano I desconfiou que seu irmão Aristóbulo tinha a pretensão de tomar-lhe a coroa, e injustamente ordenou sua morte. Isto já havia sido profetizado por um essênio chamado Yehudá (Judas), que chegou a dizer o dia exato da morte de Aristóbulo, bem como o local da morte – a Torre de Estratão. Como o dia estava chegando ao final e Aristóbulo permanecia vivo, Yehudá, o essênio, ficou preocupado com que sua profecia caísse por terra, porém, tudo ocorreu exatamente como predissera:   

“Não é, pois, de admirar que um certo Judas [Yehudá], essênio de nascimento, cujas predições jamais deixavam de ser verdadeiras, tendo visto Antígono subir ao Templo, disse aos discípulos e amigos que costumavam segui-lo para verificarem os efeitos daquela ciência que o fazia penetrar o futuro e que ele quisera estar morto, porque a vida de Antígono faria conhecer a superfluidade de suas predições, pois afirmara que ele morreria naquele mesmo dia, na torre de Estratão, o que era impossível, porque ela distava de Jerusalém uns seiscentos estádios, e a maior parte do dia já se havia passado. Quando ele assim falava, vieram dizer-lhe que Antígono fora morto num lugar subterrâneo com esse mesmo nome, Estratão, que tem uma torre à beira mar (chamada depois Cesareia). Essa semelhança de nomes havia sido a causa de sua confusão e inquietação”. (Ob.Cit., página 608).

 

Josefo ainda registra que o essênio Yehudá (Judas), antes da consumação da morte de Aristóbulo, estava admirado que sua profecia pudesse falhar, visto que sempre acertava ao prever os eventos futuros, e constantemente era consultado pelas pessoas:

“Judas [Yehudá], da seita dos essênios, tinha tal conhecimento do futuro, que suas predições jamais deixaram de ser verdadeiras e tinham-lhe conquistado tal fama, que ele era sempre seguido de grande número de pessoas que o consultavam. Quando esse bom velho viu Antígono entrar no Templo, voltou-se para eles e exclamou: ‘Como se há de viver mais, depois que a verdade morreu?

Posso duvidar de que uma coisa que eu predisse seja falsa, vendo, como eu vejo, com meus próprios olhos, Antígono ainda com vida, ele, que eu julgava dever ser hoje morto na torre de Estratão? E como isso se poderia realizar pois ela está longe daqui seiscentos estádios e estamos na quarta hora do dia?’

Depois que Judas [Yehudá] havia falado deste modo e repassava com tristeza certas coisas em sua mente, vieram dizer-lhe que Antígono tinha sido morto, num lugar subterrâneo que tem o mesmo nome que a torre de Estratão, que está em Cesareia, à margem do oceano. Fora essa semelhança de nomes que o havia enganado.” (Ob.Cit. pg. 1013).

 

Outro essênio, chamado Menachem (Manaém), profetizou para a criança Herod (Herodes) que ela reinaria entre os judeus. Se não bastasse, acertou com precisão ao mencionar que seria um famoso governante (Herodes, o Grande, 73 A.C a 4 D.C), mas que a impiedade lhe seria peculiar. Perceba que no final da narrativa Josefo afiança que os essênios recebiam de Elohim o dom da profecia porque viviam em santidade:

“Um essênio, de nome Manaém [Menachem], que levava uma vida muito virtuosa e era louvado por todos, recebeu de Deus o dom de predizer o futuro. Tendo ele visto Herodes [Herod] ainda bastante jovem estudar com as crianças de sua idade, disse-lhe que ele reinaria sobre os judeus. Herodes [Herod] julgou que ele não o conhecia ou que estava zombando dele e por isso respondeu-lhe que bem via que ele desconhecia a sua origem e o seu nascimento, que não eram tão ilustres que o fizessem esperar tal honra.

Manaém [Menachem] retrucou, sorrindo e dando-lhe uma palmadinha nas costas: ‘Eu vo-lo disse e vo-lo digo ainda que sereis rei e reinareis venturosamente, porque Deus assim o quer. Lembrai-vos então desta pancadinha que vos acabo de dar, para indicar as diversas mudanças de sorte, e nunca vos esqueçais de que um rei deve ter continuamente diante dos olhos a piedade que Deus lhe pede, a justiça que deve ministrar a todos e o amor que é obrigado a ter pelos seus súditos. Mas sei que não o fareis quando fordes elevado a tão alto grau de poder. Pois sereis feliz em tudo o mais e digno de glória imortal tanto quanto sereis infeliz por vossa impiedade para com Deus e vossa injustiça para com os homens. Mas não podereis escapar à vista desse Senhor soberano do universo. Ele penetrará os vossos pensamentos mais ocultos, e experimentareis no fim de vossa vida os efeitos de sua cólera’.

Herodes [Herod] não deu então grande importância a essas palavras, mas quando se viu elevado ao trono e em tão grande prosperidade, mandou buscar Manaém [Menachem] e perguntou-lhe sobre a duração de seu reinado, se chegaria a dez anos. Ele respondeu: ‘De vinte a trinta’, sem nada determinar de positivo. Herodes [Herod], muito satisfeito com essa resposta, despediu-o com muita gentileza e depois disso tratou sempre os essênios muito favoravelmente. Não duvido de que isso, para muitos, pareça inacreditável. No entanto, julguei dever relatá-lo, porque há vários dessa seita aos quais Deus se digna revelar os seus segredos, por causa da santidade de sua vida.” (Ob.Cit., páginas 726 e 727).

 

Josefo ainda cita a profecia de Shim’on (Simeão), o essênio:

“O soberano, antes de receber ordem de vir a Roma, ter com Augusto, tivera um sonho, que ele contara aos amigos. Parecia-lhe ver dez espigas de trigo maduras e cheias de grãos e os bois as comiam. Despertando, pensou não deixar de dar importância a esse sonho e mandou buscar os mais peritos na interpretação dos mesmos; mas, como eles não estavam de acordo, um dentre eles, de nome Shim’on [Simão], essênio, rogou-lhe que perdoasse, se tomava a liberdade de lhe dar a explicação e disse-lhe em seguida que aquele sonho pressagiava uma mudança de fortuna, que não lhe seria favorável, porque os bois são animais que passam a vida num trabalho contínuo e lavrando a terra, fazem-na mudar de lugar e de forma. As dez espigas significavam dez anos, porque não se passa um ano, que a terra não produza novos grãos, numa revolução contínua: e assim, no fim de dez anos terminaria também o seu governo. Cinco dias depois que Shim’on [Simão] assim lhe dera a explicação do sonho, o seu representante de Roma trouxe-lhe a ordem de acompanhá-lo até Augusto.” (Ob.Cit., páginas 827 e 828).

 

Além da semelhança entre isyim (essênios) e netsarim (nazarenos) no tocante ao dom espiritual da profecia, destaca-se ainda outra similitude quanto aos conceitos de “eleição” e “predestinação”.

Eis a anotação de Flávio Josefo:

“Havia então entre nós três seitas, divergentes nas questões relativas às ações humanas. A primeira era a dos fariseus; a segunda, a dos saduceus; a terceira, a dos essênios. Os fariseus atribuem certas coisas ao destino, porém nem todas, e creem que as outras dependem de nossa liberdade, de sorte que podemos realizá-las ou não. Os essênios afirmam que tudo geralmente depende do destino e que nada nos acontece que ele não determine. Os saduceus, ao contrário, negam absolutamente o poder do destino, dizendo que ele é uma quimera e que as nossas ações dependem tão absolutamente de nós, que somos os únicos autores de todos os bens e males que nos acontecem, conforme seguimos um bom ou um mau conselho.” (Ob.Cit., página 590).

 

Nos Manuscritos do Mar Morto, fica patente o pensamento essênio de que Elohim está no controle de todas as coisas e que molda o destino de acordo com seus decretos, inclusive em relação a seus “eleitos”:

“Do Elohim de conhecimento provém tudo o que é e o que será. Antes que existissem fixou todos os seus planos e quando existem completam as suas obras de acordo com as suas instruções, segundo o seu plano glorioso e sem mudar nada.” (Regra da Comunidade, Col. III, 15-16).

“Faz firmes na justiça todas as suas obras,

e levanta o filho de tua serva

para estar eternamente em tua presença,

como o quiseste para os eleitos da humanidade.” (Regra da Comunidade, Col.XI, 16).

“... porém, a força e o poder e uma grande cólera com chamas de fogo pela mão de todos os anjos da destruição contra os que se apartam do caminho e aborrecem o mandamento, sem que haja para eles nem resto nem escape. Pois Elohim não os escolheu no começo do mundo, e antes que fossem estabelecidos Ele conheceu suas obras...” (Documento de Damasco, Col. II, 5-7).

“Pois há uma multidão de santos no céu

e um exército de anjos em tua morada santa

para louvar teu nome.

E aos eleitos do povo santo

os estabeleceste para ti...

(...)

Para organizar os exércitos de teus eleitos

em seus milhares e em suas miríades,

junto com teus santos e com teus anjos... ”

(...)

E o povo dos eleitos dos céus triunfará.”(Regra de Guerra, Col. XII, 1,2, 4 e 5).

 “Tu nos destinaste...” (Regra de Guerra, Col. XIII, 18).

 

Consta dos escritos da B’rit Chadashá (Aliança Renovada/“Novo Testamento”) os mesmo ensinamentos sobre eleição e designação prévia  de todas as coisas (“predestinação”):

“Não tivesse o Senhor abreviado aqueles dias, e ninguém se salvaria; mas, por causa dos eleitos que ele escolheu, abreviou tais dias.” (Yochanan Marcus/Marcos 13:20).   

Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?”(Ruhomayah/Romanos 8:33).

 “Sha’ul [Paulo], servo de Elohim e emissário de Yeshua HaMashiach, para promover a fé que é dos eleitos de Elohim e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade.”  (Titus/Tito 1:1).

“Não me escolhestes vós a mim, mas eu [Yeshua] vos escolhi a vós...” (Yochanan/João 15:16).

 “E sabemos que todas sãs coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Elohim, daqueles que são chamados por seu decreto.

Porque os que dantes conheceu, também os predestinou [determinou antecipadamente] para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.

E aos que predestinou, a esses também chamou; a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Ruhomayah/Romanos 8:28-30).

“... porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Elohim, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor.

Como está escrito: Amei Ya’akov [Jacó], mas odiei Esav [Esaú].”  (Ruhomayah/Romanos 9:11-13).

“Mas, ó homem, quem és tu, que a Elohim replicas? Porventura, a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?

Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?

E que direis se Elohim, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para perdição,

para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem também chamou...” (Ruhomayah/Romanos 9:20-24).

 

Logo, tanto essênios quanto nazarenos atribuem a Elohim o controle do destino e a designação prévia de tudo o que ocorre na face da terra, inclusive elegendo de antemão aqueles que serão declarados justos e aqueles que hão de ser punidos como ímpios. Surge, então, a seguinte pergunta: será que esta “predestinação” exclui o livre arbítrio do homem? Se tudo já foi decretado na eternidade passada, há para o homem a liberdade de escolha entre o bem e o mal?

Pensava a seita qumrânica que o ETERNO colocou diante do homem duas direções, e o livre arbítrio deveria ser exercitado para escolher o que seguir:

“Ele criou o homem para dominar o mundo, e pôs nele as direções, para que caminhe por elas até o tempo de sua visita: são as direções da verdade e da falsidade. Do manancial da luz provêm as gerações da verdade, e da fonte das trevas as gerações de falsidade.

Na mão do Príncipe das Luzes está o domínio sobre todos os filhos da justiça; eles andam por caminhos de luz. E na mão do Anjo das trevas está todo o domínio sobre os filhos da falsidade; eles andam por caminhos de trevas.” (Regra da Comunidade, Col. III, 17-21).

 

Para os essênios, a soberania de Elohim ao controlar o mundo não impede a liberdade humana de optar entre o caminho da justiça, prescrito na Torá, e o caminho da impiedade. Existe na alma do homem uma luta entre o bem e o mal e o predomínio de um ou de outro depende da manifestação volitiva:

Até agora os direcionamentos de verdade e da injustiça disputam no coração do homem e caminham em sabedoria ou ignorância.” (Regra da Comunidade, Col. IV, 23).

“Esta é a regra para os homens da comunidade que se oferecem voluntariamente para converter-se de todo o mal e para manter-se firmes em tudo o que ordena segundo a sua vontade.” (Regra da Comunidade, Col.V, 1).

 

Então, os eleitos são aqueles que impuseram sobre suas almas o desejo maior de arrepender-se de seus pecados e de fazer teshuvá (retorno) à Torá, instrução celestial que indica o caminho da justiça. Atente para a transcrição abaixo que não é o ETERNO que determina ao homem o arrependimento, mas sim a própria pessoa que impõe o retorno em sua própria alma:

“ [Para fazer] convosco uma aliança e com todo o Yisra’el (Israel). Por isso o homem imporá sobre sua alma retornar (teshuvá) à Torá de Moshé (Moisés), pois nela tudo está definido.” (Documento de Damasco, Col. XVI, 1).

 

Esta mesma cosmovisão de teshuvá (retorno à Torá e a Elohim) foi o que marcou o ministério de Yeshua e dos netsarim (nazarenos):

“Daí em diante, Yeshua começou a proclamar: ‘Abandonem seus pecados e façam teshuvá [retorno] para Elohim, pois o Reino do Céu está próximo’.” (Matityahu/Mateus 4:17).

“Kefá [Pedro] respondeu-lhes: Abandonem o pecado, façam teshuvá [retorno] para Elohim, e cada um de vocês seja imerso pela autoridade de Yeshua HaMashiach, para o perdão de seus pecados...” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 2:38).

 

Ora, se o homem é chamado ao arrependimento e ao retorno à Torá e a Elohim, poderá aceitar ou rejeitar a mensagem, ou seja, é livre em sua vontade. Seguindo a linha essênia, escreveram os netsarim que o ETERNO deseja salvar todos os homens (e não apenas os eleitos) e alguns irão aceitar o chamado, o que confirma a existência do livre arbítrio: 

“De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (Yochanan/João 6:40).

“Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo.” (Matityahu/Mateus 24:13).

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo de suas asas, e vós não quisestes!” (Matityahu/Mateus 23:37).

“Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” (Kefá Beit/2ª Pedro 3:9).

 “Porquanto a graça de Elohim se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente.” (Titus/Tito 2:11-12).

“A Ruach [Espírito] e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça da água da vida.” (Guilyana/Apocalipse 22:17).

 

Desta sorte, evidencia-se que tanto os essênios quanto os nazarenos compartilhavam da crença de que a designação prévia de todas as coisas (“predestinação”) por Elohim é plenamente compatível com o livre arbítrio. Aliás, esta mesma ideia é albergada pela Mishná e pelo ensinamento rabínico:

Tudo está previsto, e o homem tem o seu livre arbítrio.” (Avot 3:19).

 “Na realidade, Rabi Akiva toca num dos problemas mais espinhosos da teologia judaica: a onisciência ou o conhecimento prévio do Todo-Poderoso versus livre-arbítrio do ser humano. Quando dizemos que Ele sabe tudo, queremos dizer não somente o passado e o presente, mas também o futuro – antes que ele ocorra. Para muitos, isto conflita com o livre-arbítrio humano. Se o Todo-Poderoso já sabia ontem que eu iria pecar, então que outra escolha eu poderia ter? Minha ação não está predestinada? Na nossa Mishná, Rabi Akiva afirma que ambos os princípios ocorrem.

O judaísmo, diz ele, aceita tanto a onisciência Divina quanto o livre-arbítrio humano. Como diz o Documento Sagrado: ‘Eu coloquei diante de ti a vida e a morte, a benção e a maldição; portanto, escolhe a vida’ [Devarim/Deuteronômio 30:19]. O Eterno já sabe qual será sua escolha e, no entanto, por mais paradoxal que isto possa parecer, você tem plena liberdade de opção.” (Irving M. Bunim, Ética do Sinai, 2009, página 185).

 

Findas as citações e análises acerca dos escritos de Josefo sobre os essênios, faz-se mister perscrutar o projeto qumrânico de batalha espiritual e que fortemente influenciou os netsarim, o que se faz no próximo tópico.

 

Continua...

 

Voltar