PARTE V - HILEL E YESHUA

21/08/2013 11:24

PARTE V

HILEL E YESHUA

 

POR TSADOK BEN DERECH

 

No primeiro século, existiam duas grandes escolas farisaicas: uma fundada pelo rabino Hilel (60 A.C a 10 D.C) e a outra instituída pelo rabino Shamai (50 A.C a 30 D.C).

Estes rabinos criaram escolas conhecidas por seus nomes (Beit Hilel e Beit Shamai), envolvendo-se em inúmeras divergências acerca da aplicação da Torá. Expõe o Talmud 316 controvérsias doutrinárias entre ambas as escolas, sendo que em 261 ocasiões a Beit Hilel propunha regras mais flexíveis do que a Beit Shamai. Enquanto esta era mais rígida e conservadora na aplicação da Lei, aquela se demonstrava mais liberal, já que Hilel estabeleceu um padrão mais indulgente e misericordioso, sem desviar-se da Torá.

Houve tantas disputas doutrinárias entre as duas escolas, acerca da interpretação e aplicação da Torá, que surgiu o seguinte provérbio: “Uma Lei (Torá) se tornou em duas leis” (Sanhedrin 88b e Sotá 47b). Com efeito, somente existe 1 (uma) Torá, porém, interpretações totalmente discrepantes fizeram com que surgissem, na prática, duas leis.

A dissonância interpretativa das escolas tem como característica primacial a tendência restritiva dos shamaítas e a moderação dos hileítas, fruto do perfil psicológico de seus fundadores. Os discípulos de Hilel, seguindo a linha de seu Mestre, eram tranquilos, amantes da paz e dos homens, acomodando-se as interpretações às circunstâncias de seu tempo, promovendo o ensino da Torá para aproximar o homem do ETERNO e de seu próximo. Por outro lado, os discípulos de Shamai, tal como o criador da escola, eram severos e inflexíveis, objetivando tornar as regras mais rígidas, o que terminou por colocá-las como um “jugo pesado”. Na visão dos discípulos de Shamai, nenhuma regra era suficientemente rígida, ou seja, almejavam que os comandos religiosos se tornassem cada vez mais duros, austeros.

A interpretação mais rígida da Beit Shamai se relaciona, na maioria das vezes, à criação de normas rabínicas que estabelecem proibições e restrições à conduta humana, visando evitar a transgressão da Torá[1]. O foco é a instituição de leis rabínicas (na maioria proibitivas) para prevenir a transgressão da Torá. Em sentido diverso, a Beit Hilel não se preocupava tanto com a criação de restrições de conduta, pois pensava que excessivas leis rabínicas proibitivas poderiam comprometer outros valores importantes da Torá. Dizendo de outro modo, a decretação de uma infinidade de leis rabínicas proibitórias termina por cercear a própria liberdade humana e a capacidade de convivência no seio social.

As diferentes cosmovisões da Beit Shamai e da Beit Hilel são fotografadas na passagem de Yerushalmi Chagiga 2:1 (com paralelos em Bavli Chagiga 12a). No texto, a Beit Shamai  diz que os Céus foram criados em primeiro lugar, e depois a Terra; enquanto a Beit Hilel sustenta que a Terra foi criada em primeiro lugar e, em seguida, os Céus. Para Shamai, o foco principal é o Céu e isto nos obriga a nos remover da Terra, ou seja, enfatiza-se o cumprimento dos mandamentos a todo custo, ainda que seja necessário o isolamento social e o fim de uma vida agradável e prazerosa na Terra. Diversamente, o foco de Hilel é a Terra: devemos nos concentrar em viver de acordo com as nossas responsabilidades para envolvermos o mundo, e não sermos envolvidos por ele, isto é, a guarda dos mandamentos não deve nos isolar da sociedade, apesar de não sermos tragados pelo mundanismo.

No Talmud (Tratado de Shabat), narra-se que um nobre pagão ouviu falar acerca das magníficas roupas que vestiam o Kohen HaGadol (Sumo Sacerdote). Foi até Shamai e lhe disse: “Tenho uma grande fortuna e sou muito respeitado entre as pessoas. Converter-me-ei ao judaísmo com a esperança de ser algum dia Kohen HaGadol e poder levar os seus ornamentos”. Ouvindo isto, Shamai o despediu severamente. Então, o pagão, sem desanimar-se, foi até o rabino Hilel, externando-lhe o desejo. Hilel lhe explicou educadamente que ninguém, exceto a família de Aharon (Aarão), pode usar aquelas vestimentas. O pagão compreendeu a lição e renunciou suas ambições, mas se converteu ao judaísmo e foi um bom israelita, fazendo parte do reino de sacerdotes, que é o povo de Yisra’el, conforme Shemot/Êxodo 19:6. Então, disse o ex-pagão: “A rudeza de Shamai me rechaçou, mas a doce maneira de Hilel me recolheu e me fez chegar a isto”.

Em outro caso, dois homens fizeram secretamente uma aposta para testar a paciência de Hilel. Se um deles conseguisse tirar a calma do rabino, seria o vencedor. Então, um dos apostadores, na véspera de shabat, começou a fazer inúmeras perguntas impertinentes a Hilel, provocando-o para que ele perdesse a calma. Porém, apesar de toda a sua fama e seus diversos afazeres, Hilel manteve-se paciente e calmo, fazendo com que o homem perdesse a aposta (m.Shabat 31a).

Tais histórias denotam a amabilidade de Hilel e a severidade de Shamai, fato notório entre os rabinos, cosoante o registro do Talmud Bavli:

“Nossos rabinos ensinaram: Um homem deve ser sempre amável como Hilel, e não impaciente como Shamai.” (m.Shabat 30b).

 

Eram guiados os hileítas pelo mesmo perfil do fundador da escola, qual seja, mantinham relações com os homens de modo tranquilo, gentil e em tom conciliador, externando amor ao próximo, ainda que em meio às tempestades políticas da época, causadas pela dominação romana, que muito explorava o povo. Em direção oposta, os shamaítas eram intensamente patrióticos e não cediam à dominação estrangeira, sendo que a austeridade religiosa do grupo promovia o ódio aos romanos pagãos.

Em “Gesch des Judenthums und Seiner Sekten”, Isaak Markus Jost afirma que foi gerado um sentimento amargo entre as duas escolas, e até mesmo no culto público seus membros não mais se uniam sob o mesmo teto.

Já que a região de Yehudá (Judeia) estava cercada de nações aliadas dos romanos, os shamaítas, inflamados pelos zelotes, criaram regras proibindo toda a comunicação entre judeus e gentios, inclusive houve a vedação de os judeus comprar qualquer artigo de comida ou bebida de seus vizinhos pagãos. Não obstante, os hileítas, calmos e moderados, não concordaram com tais proibições. As controvérsias entre as escolas gerou um episódio consignado no Talmud, conforme atesta a Jewish Encyclopedia:

“Eleazar ben Ananias convidou os discípulos de ambas as escolas a se reunirem em sua casa. Homens armados estavam estacionados na porta, e instruídos a permitir a cada um para entrar, mas ninguém para sair. Durante as discussões que foram conduzidas sob estas circunstâncias, dizem que muitos hileítas foram mortos ali e, em seguida, o restante adotou as proposições restritivas dos shamaítas, conhecidas no Talmud como ‘Os Dezoito Artigos’. Por conta da violência, que ocorreu por ocasião destes decretos, e por causa do radicalismo dos próprios decretos, o dia em que os shamaítas triunfaram sobre os hileítas foi posteriormente considerado como um dia de azar (Tosef., Shab. i, 16 e seguintes .;. Shab 13a, 17a; .. Yer Shab i 3c)”.

 

Na época de Yeshua, Josefo estima que havia um pouco mais de 6 mil p’rushim (Ob.Cit., pg. 787), mas não indica quantos eram da Beit Hilel e quantos da Beit Shamai. O Talmud fornece uma preciosa dica no sentido de que havia pouquíssimos membros na Beit Hilel:

“Hilel, o ancião, possuía oitenta discípulos, trinta deles eram dignos de que a Shechiná[2] repousasse sobre eles, como Moshé (Moisés), nosso Mestre; trinta deles eram dignos de que o sol se detivesse como ocorreu com Yehoshua (Josué), filho de Nun; e vinte deles eram medianos.” (Suká 28a).

 

Conforme o texto acima, a Beit Hilel contava tão somente com 80 membros fariseus. Ora, se havia um pouco mais de 6.000 fariseus, consoante a estimativa de Josefo, chega-se à conclusão de que os shamaítas eram quase 6.000, enquanto os hileítas, apenas 80.  Por mais que estes números não sejam precisos, percebe-se com clareza solar que existia grande prevalência numérica da Beit Shamai.

Demonstrar-se-á, aqui e agora, que a doutrina de Yeshua se identificava com a farisaica Beit Hilel.

O maior ponto de contato entre Yeshua e Hilel reside nas profundas lições sobre o amor. Lecionou Hilel:

ואהבת לרעך כמוך זה כלל גדול בתורה

E amarás o próximo como a ti, este é o maior pilar da Torá.

 

Para Hilel, que já ensinava antes do nascimento de Yeshua, a Torá deve ser interpretada tendo como fundamento maior o amor ao próximo. Existe a Torá para levar o ser humano a amar o ETERNO e o próximo.

Yeshua seguiu a mesma lógica:

“Um dos mestres da Torá se aproximou e ouviu o debate. Notando que Yeshua lhe dera uma boa resposta, perguntou-lhe: ‘Qual é a mitsvá [mandamento] mais importante?’.

Yeshua respondeu: A mais importante é:

‘Ouve, ó Yisra’el, YHWH, nosso Elohim, YHWH é um, e você deve amar YHWH, seu Elohim, de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com toda a força’.

A segunda é esta:

‘Ame o próximo como a si mesmo’.

Não existe mitsvá (mandamento) maior que estas.” (Yochanan Marcus/Marcos 12:28-31).

 

Se devemos amar o próximo, quem é o próximo?

Entendiam os essênios de Qumran que somente os membros de seu grupo religioso, chamado de Yachad (unidade), eram considerados como próximo. Assim, faziam uma interpretação restritiva da mitsvá (mandamento) exposta em Vayikrá/Levítico 19:18, não havendo necessariamente o dever de amar pessoas que não fossem membros de sua comunidade (vide Documento de Damasco 9, 2 e Manual de Disciplina IX, 21-26). Por sua vez, a Beit Shamai também achava que não tinha o dever de amar os gentios.

Diversamente, Hilel pensava que todos os seres humanos devem ser considerados como “o próximo”:

“Hilel dizia: procurai ser como os discípulos de Aharon [Aarão], amai a paz, procurai a paz, amai as pessoas e aproximai-as da Torá.” (Avot 1:12).

 

Na mesma direção trilhou Yeshua:

“Vocês ouviram o que foi dito aos nossos pais: ‘Ame seu próximo – e odeie seu inimigo’. Mas eu lhes digo: amem seus inimigos; orem por quem os persegue!

Então, vocês se tornarão filhos do Pai celestial. Porque ele faz seu sol brilhar, da mesma forma, sobre pessoas boas e sobre pessoas más e envia chuva, igualmente, para justos e injustos.

Que recompensa obterão se amarem só quem ama vocês? Por que a teriam, se até os coletores de impostos agem assim? E se vocês forem amáveis só com seus amigos, o que há de extraordinário? Até os gentios fazem isso!” (Matityahu/Mateus 5:43-47).

 

No texto citado, Yeshua ressaltou que seus discípulos deveriam amar a todas as pessoas, inclusive seus inimigos. Importante analisar esta declaração: “Vocês ouviram o que foi dito aos nossos pais: ‘Ame seu próximo – e odeie seu inimigo’”. Ora, a Torá prescreveu que os israelitas deveriam amar o próximo (Vayikrá/Levítico 19:18), porém, em nenhum momento a Torá assevera “odeie seu inimigo”!!! A Comunidade essênia de Qumran e a Beit Shamai que seguiam a regra humana (e não bíblica) de “odiar seu inimigo”. Então, na passagem em exame, Yeshua corrigiu o erro dos grupos citados, posicionando-se favoravelmente aos ensinos de Hilel sobre o amor.

Na parábola do Bom Samaritano, ensina o Mashiach que “o próximo” do homem que caiu nas mãos dos assaltantes foi “aquele que demonstrou misericórdia para com ele” (Lucas 10:29-37), ou seja, o conceito de “próximo” de Yeshua aproxima-se do mesmo estilo farisaico de Hilel. Se não bastasse, na parábola sub examine, ressalta o Mashiach que o samaritano foi mais fiel no cumprimento da Torá do que os próprios israelitas, jogando por terra o equivocado conceito de que os “judeus são superiores”. Citado em Atos 22:3, Gamli’el (Gamaliel), Professor de Sha’ul (Paulo) e neto de Hilel, expressou opinião semelhante à de Yeshua acerca dos samaritanos:

“... os samaritanos eram mais zelosos na observância dos mandamentos [da Torá] do que os próprios judeus.” (Talmud Bavli, m.Chulin 4a).   

 

Yeshua era “manso e humilde de coração” (Mt 11:29), e disse:

“E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado.” (Matityahu/Mateus 23:12).

 

Rashi assevera que Hilel era muito manso e ensinava:

“Minha humilhação é a minha elevação; e minha elevação é a minha humilhação.” (Vayikrá Rabá 1:5).

 

Yeshua pensava sempre no próximo. Hilel nos legou semelhante lição:

“E se estou apenas por mim, o que sou eu?” (Avot 1:14).

 

No Talmud Bavli, m.Menachot 42a, há a opinião dos rabinos de que existe um tamanho mínimo[3] para a tsitsit[4], porém, não existe a fixação de um tamanho máximo, podendo as tsitsiot serem tão longas quanto o desejado. Sabe-se que a Beit Shamai fazia cada tsitsit com quatro fios de lã branca e quatro fios azuis, enquanto a Beit Hilel usava tsitsit mais fina, com dois fios de cada cor (m.Menachot 41b). Estes dados nos dão o indício de que a Beit Shamai alargava suas tsitsiot em longos tamanhos, já a Beit Hilel tinha discrição em usá-los. Este foi o motivo da crítica de Yeshua dirigida, provavelmente, à Beit Shamai, que constituía a grande maioria dos fariseus:

“Tudo o que fazem [os fariseus] é para serem vistos pelos outros. Eles fazem tefilin [“filactérios”] bem largos e tsitsiot [‘franjas’] compridas.” (Matityahu/Mateus 23:5).

 

Hilel e diversos rabinos nunca interpretaram literalmente a expressão “olho por olho”, entendimento sufragado por Yeshua (Mt 5:38-42). Porém, muitos rabinos na época de Yeshua a tomavam no sentido de revidar o mal com o mesmo mal, tal como o rabino Eliezer (Bava Kama 84a). Esta interpretação incorreta parece ter sido seguida pelos fariseus da Beit Shamai, e não pelos hileítas, já que os primeiros compunham a grande maioria de fariseus no tempo do Mashiach.

Enquanto vários setores do Judaísmo se apartavam totalmente dos gentios, inclusive a Escola de Shamai, Hilel desejava aproximar todos os seres humanos da Torá, sem distinção (Avot 1:12). A Beit Shamai propagava que a Torá deve ser ensinada apenas para aquele que é sábio, humilde e de boa família; diversamente, a Beit Hilel decidiu ensinar a Torá a todos os homens (Avot de Rabi Natan, capítulo 2). Aliás, isto fica claro no magistério de Hilel:

“Quanto mais Torá, mais vida.” (Avot 2:7).

 

O pensamento do rabino Hilel sobre os gentios concorda plenamente com a docência do rabino Yeshua e seu caráter missionário:

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações...” (Matityahu/Mateus 28:19).

 

Outro relevante ponto de contato entre Hilel e Yeshua situa-se na denominada “Regra de Ouro”.  Conta o Talmud uma história em que Hilel resumiu a Torá em um único comando, consistente em não fazer aos outros aquilo que não gostaria que os outros lhe fizessem:

“... aconteceu que certo pagão veio até Shamai e lhe disse: ‘Faça-me um prosélito, com a condição de que você me ensine toda a Torá enquanto eu ficar [sustentando o meu corpo] com um só pé’. Então ele [Shamai] repeliu-o com um tijolo de construção que estava em sua mão. Quando ele [o pagão] foi até Hilel [propondo o mesmo desafio], ele [Hilel] lhe disse: ‘Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você: esta é toda a Torá, enquanto o resto é comentário; vá e aprenda isto’.” (m.Shabat 31a).

 

Ora, já que Hilel sempre enfatizava o amor ao próximo, no caso acima exposto, o preclaro Rabino ensinou como expressar o amor em termos práticos. Se o conceito de amor é abstrato e relativo de acordo com os conceitos pagãos, tal como na filosofia grega, para o Judaísmo o amor é algo concreto, que se expressa no cotidiano por meio de uma simples regra: abster-se de fazer ao próximo o que não seria desejável que o outro lhe fizesse. “Esta é toda a Torá, enquanto o resto é comentário”, ou seja, todo o estudo deve se nortear pela citada “regra de ouro”. A Torá desprovida do amor seria, na visão de Hilel, como um sino sem badalo.

Narram os evangelhos um episódio em que os p’rushim quiseram saber qual seria a “regra de ouro” de Yeshua, isto é, qual seria o mandamento que resumiria toda a Torá. Nos moldes de Hilel, Yeshua ressaltou o amor, citando o Shemá, a oração mais famosa do Judaísmo:

“E os p’rushim, ouvindo que ele fizera emudecer os saduceus, reuniram-se no mesmo lugar.

E um deles, Mestre da Torá, interrogou-o para o experimentar, dizendo: Mestre, qual é a grande mitsvá (mandamento) da Torá?

E Yeshua lhe disse: Amarás YHWH, teu Elohim, com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com toda a tua força [Devarim/Deuteronômio 6:5]. Esta é a primeira e a grande mitsvá (mandamento).

E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo [Vayikrá/Levítico 19:18).

Desses dois mandamentos dependem toda a Torá e os profetas.” (Matityahu 22:34-40; veja também Yochanan Marcus/Marcos: 12:28-34 e Lucas 10:25-27).

 

Notem o paralelo das histórias de Hilel e Yeshua. O primeiro foi testado por um pagão, o segundo, por um parush (fariseu) Mestre da Torá. A “regra de ouro” de Hilel (“não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você”) tem por fundamento o amor ao próximo; Yeshua estipula uma “regra de ouro” igualmente alicerçada no amor. Hilel quis ensinar que o amor ao próximo é o mais importante da Torá, e “o resto é comentário”; Yeshua proclamou que a Torá e os profetas apontam para o amor a YHWH e ao próximo. Hilel venceu o desafio proposto pelo pagão. Yeshua também obteve vitória na citada disputa com os fariseus. O pagão foi conquistado pela lúcida explicação de Hilel; os p’rushim concordaram plenamente com Yeshua, porque ninguém mais ousou interrogá-lo (Mt 22:46), e o Mashiach elogiou o parush (fariseu) dizendo que ele não estava longe do Reino de Elohim (Yochanan Marcus/Marcos 12:32-34).

Comparemos, mais uma vez, os ensinos de Hilel e Yeshua:

Hilel: ‘‘Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você: esta é toda a Torá, enquanto o resto é comentário; vá e aprenda isto’.” (Shabat 31a).

Yeshua: “Portanto, tudo o que vocês querem que os homens lhes façam, façam também a eles, porque esta é a Torá e os Profetas.” (Matityahu/Mateus 7:12; vide ainda Lucas 6:31).

 

A ideia dos dois rabinos é a mesma, dotadas de idêntica essência, e ambas denotam a correta expressão do amor ao próximo.  A única diferença é que o fariseu Hilel leciona um comando negativo (“Não faça”), enquanto Yeshua exige uma prestação positiva (“Faça”).

Outro quesito de semelhança reside no fato de que Hilel e Yeshua priorizavam o “chesed” em suas interpretações da Torá, palavra hebraica que significa “graça” (ou “misericórdia”). Para ambos os rabinos, chesed (“graça”) servia como vetor interpretativo das Escrituras. Em sentido diverso, a Beit Shamai se baseava na guevurá (“severidade”). Por tal motivo, o Talmud relata que em 261 disputas a Beit Hilel apresentou regras mais suaves do que a Beit Shamai.

Comparando-se os textos de Yochanan Marcus/Marcos 12:28-33 e Matityahu/Mateus 22:32-40, no episódio em que Yeshua resume a Torá em amar a YHWH e amar ao próximo, dois mandamentos previstos expressamente em Devarim/Deuteronômio 6:5 e Vayikrá/Levítico 19:18, detecta-se que o Mestre da Torá que dialogou com Yeshua era um parush (fariseu) (Mt 22:34-35). E tal parush concordou com Yeshua:

O mestre da Torá [que era parush, conforme Mt 22:34-35] lhe disse:

‘Muito bem respondido, rabino. Você falou a verdade quando disse que Elohim é um, que não existe outro além dele e que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo, é mais importante que todas as ofertas queimadas de sacrifícios’.”  (Yochanan Marcus/Marcos 12: 32-33).

 

O parush não só concordou integralmente com o que Yeshua falou, como também acrescentou a ideia de que amar ao próximo “é mais importante que todas as ofertas queimadas de sacrifícios”.  E de onde o parush extraiu este pensamento? De Hilel, que já antes de Yeshua enfatizava a prevalência do amor sobre as ofertas queimadas. Hilel se valia do conceito de Hoshea (Oséias):

“Pois desejo chesed [graça ou misericórdia], não sacrifícios, o conhecimento de Elohim mais que ofertas queimadas.” (Hoshea/Oséias 6:6).

 

Assim, o parush que conversou com Yeshua provavelmente era da Beit Hilel, pois associou o “amar ao próximo” (Lv 19:18) com o chesed (graça ou misericórdia) de Hoshea/Oséias 6:6. Para o parush de Hilel, a chesed tem mais peso do que as ofertas queimadas.

Quando Yeshua foi acusado injustamente de descumprir o mandamento de guardar o shabat (sábado), citou o mesmo texto de Hoshea/Oséias:

“Mas, se vós soubésseis o que significa: ‘Chesed quero, e não sacrifício’, não condenaríeis os inocentes.” (Mt 12:7 = Os 6:6).

 

Aqui, Yeshua trabalha com a mesma técnica da Beit Hilel ao ressaltar: 1) que o chesed tem mais peso do que os sacrifícios; 2) os sacrifícios têm mais peso do que o shabat[5]; 3) logo, o chesed prevalece sobre o shabat. Que bela técnica de interpretação judaica!!! E mais: esta técnica hermenêutica é conhecida como Kal Vachomer (Leve e Pesado). E quem a formulou? Hilel.

Tomando o rumo de Hilel, existem inúmeras passagens em que Yeshua destaca o chesed (graça ou misericórdia):

“Entretanto, vocês deveriam aprender o que isto significa: ‘Prefiro chesed a sacrifícios de animais’. Pois eu não vim chamar ‘justos’, mas pecadores!” (Matityahu/Mateus 9:13).

“Você não deveria ter chesed do seu companheiro como eu tive chessed de você ?” (Matityahu/Mateus 18:33).

“Então Yeshua, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo viram; e eles o seguiram”. (Matityahu/Mateus 20:34).

“E, Yeshua, saindo, viu uma grande multidão, e possuído de íntima compaixão para com ela, curou os seus enfermos.” (Matityahu/Mateus 14:14).

 

Em Matityahu/Mateus 12:9-14, os p’rushim (fariseus), procurando um motivo para acusar Yeshua, perguntam-lhe se era permitido curar no shabat (sábado). Yeshua respondeu que é lícito fazer o bem no shabat e curou o homem com a mão atrofiada, deixando furiosos aqueles fariseus.  Estes fariseus eram da Beit Shamai, porquanto esta entendia que não era permitido orar pelos enfermos no shabat, divergindo dos membros da Beit Hilel que efetuavam orações pedindo curas no dia sagrado (Tosefta Shabat 17). Novamente a halachá de Yeshua se equipara à de Hilel.

Há outro aspecto assaz relevante em que há uma coincidência entre Yeshua e Hilel: os dois rabinos ensinavam que o homem não é salvo por suas próprias obras, mas sim pela misericórdia e graça do ETERNO. Enquanto determinados p’rushim (fariseus) legalistas achavam que seriam salvos por suas obras, confiando na justiça própria, Hilel e Yeshua lecionaram que a salvação depende da misericórdia e graça de YHWH, pois todo homem é pecador, inexistindo um ser humano sequer que possa se justificar por meio de suas ações pessoais. O legalista se autodeclara justo; o temente ao ETERNO se autodeclara pecador.

Este conceito fica bem claro no magistério de Yeshua:

“Também, a alguns que confiavam na própria justiça e desprezavam os demais, contou [Yeshua] esta parábola:

Dois homens subiram ao Beit HaMikdash [Templo] para orar; um, parush [fariseu], e o outro, coletor de impostos.

O parush [fariseu], estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Elohim, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este coletor de impostos.

Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.

O coletor de impostos, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Elohim, tem misericórdia [graça] de mim, pecador!

Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.” (Lucas 18:9-14).

 

Na parábola de Yeshua, o coletor de impostos foi justificado (considerado justo) porque se humilhou perante o ETERNO, clamando pela misericórdia. Não invocou o coletor de impostos suas obras, mas confessou seus pecados. A Beit Hilel também sustentava a doutrina de que é pela graça/misericórdia que o homem é salvo, e não pelo mérito de obras:

“Talvez Tu tenhas grande prazer em nossas boas obras?

 Mérito e boas obras não temos; aja para conosco em graça.” (Tehillim Rabá, 119:123).

 

Curial consignar que a salvação pela graça não exclui o dever de o homem se esforçar para obedecer aos mandamentos do ETERNO, pois quem o ama o obedece:

 “Se vocês me amam, guardarão meus mandamentos.” (Yochanan/João 14:15).

“Nem todo aquele que diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino do Céu, mas apenas quem faz o que meu Pai Celestial deseja.

(...).

Então eu [Yeshua] lhes direi na cara: ‘Nunca os conheci! Afastem-se de mim, vocês que transgridem a Torá’.” (Matityahu/Mateus 5:21 e 23).

 

Ensinava a Beit Hilel que alguém, ainda que não seja totalmente justo, poderia alcançar a graça/misericórdia de Elohim, pensamento que entrava em conflito com a doutrina de Shamai, ao dizer que quem não fosse completamente justo iria para o fogo da condenação (Tosefta Sanhedrin 13:3). Isto nos indica que Hilel enfatizava a graça (misericórdia), e Shamai, a severidade do juízo. Sha’ul (Paulo) era hileíta, pois foi aluno do neto de Hilel (Gamli’el/Gamaliel)[6], trazendo para a B’rit Chadashá um conceito de graça que denota o grande amor e compaixão do ETERNO pelos seres humanos:

 “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Elohim.” (Efessayah/Efésios 2:8).

“Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há no Mashiach Yeshua.” (Ruhomayah/Romanos 3:24).

 

É tipicamente hileíta a concepção de graça de Sha’ul.

Em síntese, o ensino farisaico de Hilel se aproxima de Yeshua, porque ambos: 1) ressaltaram o mandamento do amor em relação a todos os homens, judeus e gentios; 2) ensinaram a “regra de ouro”; 3) interpretaram as Escrituras com fundamento no chesed (graça, misericórdia); 4) destacaram que a salvação vem pela graça, e não pelo mérito humano.

Não obstante a similitude de pensamento, nem sempre as lições da Beit Hilel são compatíveis com os ensinamentos de Yeshua, razão pela qual o Judaísmo do Mashiach é singular. Verbi gratia, a Beit Hilel achava que um homem poderia se divorciar de sua esposa “por qualquer motivo”, ainda que fosse pelo simples fato de ela “estragar um prato de comida” (Talmud Bavli, m.Gitin, 90a). Já a Beit Shamai argumentava que a carta de divórcio somente caberia caso o homem encontrasse alguma falta grave na conduta de sua mulher. Este debate acerca do divórcio é um dos raríssimos casos em que a preleção de Yeshua se distancia da Beit Hilel e se aproxima da Beit Shamai. Asseverou o Mashiach que o divórcio somente é admissível na hipótese de imoralidade sexual da esposa (Matityahu/Mateus 19:9), o que configura falta grave, como instruiu Shamai.

Apesar do caráter altruísta de Hilel, parece que seus discípulos, na época de Yeshua, estavam se distanciando do amor que lhes foi ensinado, pois divorciar-se apenas pelo motivo de a esposa estragar a comida denota dureza de coração. Daí, as críticas de Yeshua lançadas majoritariamente à Beit Shamai não isentam, em certos casos, a Beit Hilel.

Para finalizar esta seção, traz-se uma curiosidade. É possível (não se tem certeza) que o filho de Hilel tenha abençoado o menino Yeshua.

Em Lucas 2:25-35, narra-se que havia em Yerushalayim um homem chamado Shim’on (Simeão), um justo piedoso, que esperava ansiosamente pela consolação de Yisra’el, e a Ruach HaKodesh (espírito de santidade ou “Espírito Santo”) estava sobre ele. Shim’on (Simeão) tomou o menino Yeshua nos braços e proferiu uma b’rachá (benção).

Quem era este Shim’on? Já que Hilel teve um filho chamado Shim’on, alguns pesquisadores dizem que o Shim’on que abençoou Yeshua era filho de Hilel. Por sua vez, Shim’on foi pai de Gamli’el (Gamaliel), professor do rabino Sha’ul (Paulo). Então, verifiquem como os destinos se entrelaçam em sequência:

1) Hilel, antes do nascimento de Yeshua, ensinou o amor ao próximo, a paz entre os homens, a graça e a misericórdia;

2) Hilel foi pai de Shim’on, e este abençoou o menino Yeshua (Lucas 2:25-35);

3) Yeshua ensinou o Judaísmo em moldes semelhantes a Hilel;

4) Gamli’el (Gamaliel), filho de Shim’on e neto de Hilel, foi o mestre educador de Sha’ul (Paulo), conforme Ma’assei Sh’lichim/Atos 22:3.

Sobre o tema, cita-se a esmerada pena do rabino James Trimm:

“Este Shim’on (Simeão) foi quase certamente Shim’on, filho de Hilel, que mais tarde iria suceder seu pai como Nasi [Presidente] do farisaico Sinédrio. Seu filho Gamaliel se tornaria o professor de Paulo (Atos 22:3) e faria assumir uma postura tolerante para com a seita dos Nazarenos (Atos 5:34), possivelmente influenciado pela benção anterior de seu pai sobre Yeshua”. (Hebraic Roots Commentary, Institute for Nazarene Jewish Studies, página 32).

 

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[1] Um exemplo se refere ao contato com os gentios. Apesar de a Torá não proibir que o judeu mantenha relações sociais com o gentio, a Beit Shamai prescrevia que o israelita deveria se apartar dos gentios para não se contaminar com sua idolatria e demais práticas pecaminosas.  Assim, a proibição de vínculos com gentios, na visão da Escola de Shamai, era uma lei rabínica com o escopo de se evitar a transgressão da Torá propriamente dita.

[2] A presença do ETERNO.

[3] Convertendo-se a medida da época para os dias atuais, o tamanho mínimo girava em torno de 8 cm.

[4] Em português, as tsitsiot (singular: tsitsit) são traduzidos como “franjas”. Estas fazem parte da indumentária do judeu, consoante a ordem da Torá (Bemidbar/Números 15:37-41).

[5] Os sacrifícios prevalecem sobre o shabat, visto que a abstenção de trabalho no shabat não é fator impeditivo para o oferecimento de sacrifícios e o consequente trabalho dos sacerdotes.

[6] Atos 22:3.

 

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