PARTE II - ORIGEM DOS P’RUSHIM (FARISEUS)

21/08/2013 11:00

PARTE II  

ORIGEM DOS P’RUSHIM (FARISEUS)

 

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Apesar de ser controvertida a exata origem dos p’rushim (fariseus), muitos estudiosos apontam que foram os sucessores do grupo religioso conhecido como chassidim (“os piedosos”), que teve papel importante em apoiar a revolta dos macabim (macabeus), por volta dos anos 167 a 142 A.C.

Na época, Yisra’el possuía uma geração de ímpios, cujas práticas pagãs se instalaram na terra santa. Construiu-se em Yerushalayim (Jerusalém) uma praça de esportes em que homens se exercitavam nus, seguindo os hábitos da cultura grega, muitos romperam a aliança com o ETERNO e passaram a adotar inúmeros costumes pagãos. Em pouco tempo, o helenismo se propagou em Yisra’el e grande parte da população abandonou a Torá de YHWH.

Neste ambiente de promiscuidade espiritual, o rei Selêucida Antíoco Epifânio invadiu Yerushalayim e saqueou o Beit Hamikdash (Templo), levando consigo os utensílios de ouro e colocando sobre o altar dos holocaustos a “abominação da desolação”, ou seja, o idólatra altar de Zeus. Foram instalados inúmeros altares pagãos pelas cidades e os israelitas forçados a renunciar a fé no ETERNO. Proibiu-se a guarda dos shabatot (sábados), a celebração das festas bíblicas, a circuncisão e a observância dos demais mandamentos da Torá. Aliás, Antíoco proibiu que o povo obedecesse a Torá do ETERNO, e quem seguisse YHWH seria punido com a morte:

“Então o rei Antíoco publicou para todo o reino um edito, prescrevendo que todos os povos formassem um único povo e que abandonassem suas leis particulares. Todos os gentios se conformaram com essa ordem do rei, e  muitos de Yisra’el adotaram a sua religião, sacrificando aos ídolos e violando o shabat [sábado].

Por intermédio de mensageiros, o rei enviou à Yerushalayim [Jerusalém] e às cidades de Yehudá [Judá] cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra, suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no Beit Hamikdash [Templo], violassem os shabatot [sábados] e as festas, profanassem o santuário e tudo que é santo, erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos, deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira a obrigarem-nos a esquecer a Torá e a transgredir seus mandamentos.

Todo aquele que não obedecesse à ordem do rei seria morto.

Foi nesse teor que o rei escreveu a todo o seu reino; nomeou comissários para vigiarem o cumprimento de sua vontade pelo povo e coagirem as cidades de Yehudá [Judá], uma por uma, a sacrificar.

Houve muitos dentre o povo que colaboraram com eles e abandonaram a Torá. Fizeram muito mal no país, e constrangeram os israelitas a se refugiarem em asilos e refúgios ocultos.

No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Yehudá [Judá].

Ofereciam sacrifícios diante das portas das casas e nas praças públicas, rasgavam e queimavam todos os livros da Torá que achavam;  em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro da Torá, ou todo aquele que mostrasse gosto pela Torá, morreria por ordem do rei.

 Com esse poder que tinham, tratavam assim, cada mês, os judeus que eles encontravam nas cidades e, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do Templo.

As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei, com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão.

Numerosos foram os israelitas que tomaram a firme resolução de não comer nada que fosse impuro, e preferiram a morte antes que se manchar com alimentos; não quiseram violar a santa Torá e foram trucidados.

Caiu assim sobre Israel uma imensa cólera.” (Macabim Álef/I Macabeus 1:41-67).

 

Apesar da apostasia de muitos, havia os judeus conhecidos como chassidim (piedosos), que permaneceram cumprindo a Torá, ainda que isto lhes custasse a própria vida.  Inconformados e irados com a idolatria pagã, os judeus desencadearam a revolta dos macabim (macabeus) contra o domínio de Antíoco Epifâneo, obtendo a revolta o apoio dos chassidim, que almejavam ver Yisra’el livre da dominação idólatra:

Então, uniu-se a eles o grupo dos chassidim, homens valorosos de Yisra’el, cada um deles devotado à Torá.” (Macabim Álef/I Macabeus 2:42).

 

Logrou êxito a revolta dos macabeus, conquistando a independência de Yisra’el pelo período de 142 a 63 A.C, quando então foram os judeus dominados pelos romanos, persistindo tal domínio nos tempos de Yeshua.

Durante a independência judaica (142 a 63 A.C), a família dos macabeus assumiu a dinastia real e sacerdotal, detendo em suas mãos o poder secular e religioso. Alguns problemas ocorreram durante este período, em razão de os macabeus (família dos hasmoneus) não serem descendentes de David, razão pela qual não poderiam ocupar legitimamente o trono de Yisra’el. Ademais, houve um lamentável fracasso moral e político dos reis-sacerdotes hasmoneus, levando muitos a ansiar pela intervenção do ETERNO, que estabeleceria o Reino prometido ao Mashiach (Messias), o descendente de David.

Neste contexto, objetivando restabelecer o zelo pela Torá e sua correta interpretação à luz das tradições judaicas, surgiram os p’rushim (fariseus). Estes não ansiavam pelo poder político, concentrando suas forças no estudo da Torá e no seu ensino à população, na vida de oração e na espera do Messias que inauguraria o Reino de Elohim.

Como afirmado, não se sabe exatamente a data do surgimento dos p’rushim (fariseus), contudo, estes são os descendentes religiosos dos chassidim (piedosos), homens extremamente devotados à Torá do ETERNO e, consequentemente, ferrenhos opositores a qualquer tipo de desvios.

O vocábulo hebraico “p’rushim” (פרושים), ou “fariseus” em português, provém da raiz “parash”, que significa “separar” ou “afastar”. Assim, p’rushim (fariseus) são aqueles que se separam do mundanismo e se dedicam ao estudo da Torá e das tradições israelitas. Em outras palavras, os p’rushim são “separados” para servir ao ETERNO por meio do estudo, da prática e do ensino da Torá.

Sobre a origem dos p’rushim (fariseus), consulta-se o magistério de David Stern:

“Na época de Yeshua existiam duas principais opiniões do que era a situação religiosa. Em 586 A.E.C [antes da era comum, ou seja, antes de Yeshua], a Babilônia conquistou a Judéia e Jerusalém, derrubou o Primeiro Templo, que o rei Salomão tinha construído, e deportou as classes governantes para a Babilônia. Com o Templo, os sacrifícios e os kohanim [sacerdotes] não funcionando mais, os judeus no exílio, e depois de seu retorno, 70 anos depois, buscaram outra forma de se organizar e pela qual pudessem centrar sua vida comunal. Eles a encontraram na Torá (a ‘Lei’, veja 5:17 N), como pode ser visto no relato sobre a leitura da Torá por Esdras (Neemias 8). Os antigos estudantes, desenvolvedores e mantenedores da Torá, parecem ter sido da casta sacerdotal hereditária – o próprio Esdras era um kohen [sacerdote] e um sofer (‘escriba’). Mas depois, na medida em que os kohanim [sacerdotes] voltaram a se preocupar com o sistema sacrificial como ele se desenvolveu no período Segundo Templo, um movimento que apoiava a Torá e favorecia sua adaptação às necessidades do povo surgiu e tornou-se um desafio para a autoridade dos kohanim [sacerdotes]. Os kohanim do século I E.C eram conhecidos como tz’dukim [saduceus], em homenagem ao kohen gadol [sumo sacerdote], apontado como pelo rei Salomão Tzadok (seu nome significa ‘justo’; comparece 6:1-4 & N; 13:17 & N).

Nesse meio tempo, sob a autoridade dos Macabeus no século II A.E.C, aqueles cuja principal preocupação não eram os sacrifícios, porém a Torá, eram chamados de Hasidim [ou Chassidim] ... (...)

Os sucessores dos Hasidim [ou Chassidim] eram conhecidos como p’rushim, que significa ‘separados’, porque eles se separavam do modo mundano para não fazer o mesmo que as pessoas faziam. Esses p’rushim não apenas assumiram que o Tanakh era a palavra de Deus para o homem, mas também consideravam que a tradição acumulada ao longo dos séculos pelos sábios e mestres era também a palavra de Deus – a Torá Oral – de modo que se desenvolveu um sistema de viver que tocava em cada aspecto da vida.

Nos dias de Yeshua, os tz’dukim [saduceus] tendiam a ser mais ricos, mais céticos, mais carnais e cooperavam mais com os governantes romanos do que os p’rushim.” (Comentário Judaico do Novo Testamento, editora Atos, 2008, páginas 43 e 44).

 

Tendo em vista que a corrupção política e sacerdotal havia se instalado, bem como que o ETERNO não mais estava a falar diretamente ao povo por meio de seus profetas e dos kohanim (sacerdotes), como o homem religioso poderia saber qual é a vontade de Elohim? Se não mais havia revelação direta, como consultar o ETERNO?

Entendiam os p’rushim (fariseus) que a vontade do ETERNO já estava revelada em suas Escrituras (o Tanach) e nas tradições transmitidas oralmente por seus antepassados. Por conseguinte, o desiderato de Elohim deveria ser buscado por meio do estudo da Torá.

Os p’rushim estudavam a Torá e a ensinavam à população, incentivando que os homens comuns conhecessem a Palavra do ETERNO.  Construíram sinagogas em diversas cidades de Yisra’el com o objetivo de criar centros comunitários de congregação, oração e estudo das Escrituras. Graças ao trabalho incansável dos p’rushim, 50 anos antes do nascimento de Yeshua, cada vila da Terra Santa contava com uma sinagoga, todas detentoras de rolos da Torá a fim de viabilizar o estudo por parte do homem leigo.

Em tal época, não havia imprensa, sendo os rolos copiados manualmente. Para disseminar o conhecimento da Palavra do ETERNO, muitos p’rushim eram soferim (escritas), dedicando-se à reprodução fiel das Escrituras Sagradas e distribuindo-as às sinagogas. Se hoje nós temos acesso às Escrituras, devemos reconhecer o trabalho de cada sofer (escriba) que permitiu que a verdade escrita de Elohim chagasse até os dias atuais.

Nas sinagogas disseminadas pelos p’rushim, existiam escolas em que os meninos eram alfabetizados e iniciados nos estudos das Escrituras, garantindo-se o direito de todo homem de ler e aprender a Torá.

Os judeus frequentavam as sinagogas com o propósito de ler a Torá e os Profetas no shabat, dia santificado pelo ETERNO. Também era comum que houvesse a leitura e estudos nas segundas e quintas-feiras. Qualquer pessoa do povo que tivesse o conhecimento da Torá e devoção inerente poderia conduzir a congregação, ler a Lei e explicar o conteúdo para seus pares, ou seja, não havia a concentração da pregação nas mãos de um líder especial.

No Cristianismo, quem conduz a missa ou o culto é o padre ou o pastor, sendo vedado que o fiel assuma a pregação no lugar das “autoridades eclesiásticas”. Pensam os cristãos que a “a Palavra do Senhor foi confiada apenas a homens especiais” (padre ou pastor). De modo totalmente contrário, na região de Yehudá (Judeia) do primeiro século, entendiam os p’rushim (fariseus) que todo homem deve conhecer a Torá e tem o direito de transmitir sua mensagem a seus compatriotas. É claro que nas sinagogas havia liderança, normalmente constituída dos anciãos e rabinos. Não obstante, havia plena participação democrática dos membros.

Cumpre repetir: já que o sacerdócio no Beit Hamikdash (Templo) estava corrompido, os p’rushim e os judeus zelosos passaram a dar grande importância às sinagogas, local em que poderiam aprender a Torá, considerada o antídoto do ETERNO contra o pecado:

“Mesmo assim, o SANTO, bendito seja, falou a Yisra’el: ‘Meus filhos, eu criei o impulso mau, mas eu [também] criei a Torá como seu antídoto. Se vocês se ocuparem da Torá, não serão entregues ao domínio do impulso mau. Mas, se não se ocuparem da Torá, então serão entregues ao poder do impulso mau’.” (Talmud Bavli, Kidushim 30b).

 

Além de ser um centro de estudo da Torá e adoração nos shabatot (sábados), as sinagogas funcionavam durante a semana como local de administração da justiça, reuniões políticas, prestação de serviços fúnebres, educação dos jovens, distribuição de alimentos aos pobres etc. Em todas estas plúrimas atividades, os p’rushim (fariseus) estavam na liderança e, por tal motivo, conquistaram a simpatia da população e exerceram grande influência junto à opinião pública. Neste contexto, fácil entender o motivo de Flávio Josefo registrar o apreço da população pelos p’rushim: 

“... os que pertenciam à seita dos fariseus, de que falamos há pouco, os quais desfrutam tal prestígio perante o povo, que este acolhe os seus sentimentos, ainda que contrários aos dos reis e dos sumo sacerdotes.” (História dos Hebreus, CPAD, 8ª edição, página 605).

“... os fariseus tinham também a fama de ser muito piedosos e muito mais instruídos que os outros, em coisas de religião...” (Ob. Cit. Página 1018).

 

Eram os p’rushim reputados pela população como verdadeiros sábios, participando ativamente do Sanhedrin (Sinédrio), a suprema corte religiosa e política de Yisra’el.

Flávio Josefo estima que no primeiro século o grupo dos p’rushim contava com pouco mais de seis mil pessoas, número pequeno, considerando-se a grande população da época (há divergências acerca do número de habitantes da região no primeiro século, variando-se de 500 mil a dois milhões e meio).  

Continua...

 

Voltar