Parte I - Introdução

21/08/2013 10:54

PARTE I

INTRODUÇÃO

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Escreveu William Manson:

“Acostumamo-nos de tal forma, e com razão, a fazer de Jesus objeto de religião, que acabamos por esquecer que, em nossos registros mais antigos, ele é apresentado não como objeto de religião, mas como homem religioso.” (The Teaching of Jesus, 1935, página 101).

 

A advertência do preclaro estudioso é importante porque ressalta que Yeshua era um homem religioso. Então, qual era a religião de Yeshua? Era Yeshua cristão?

Em estudos anteriores, demonstrou-se que Yeshua não veio criar uma nova religião. Logo, Yeshua nunca foi cristão. A uma, porque o Cristianismo surgiu em momento bem posterior à sua morte. A duas, porque nas Escrituras não há um texto sequer em que Yeshua recomenda a criação de uma nova religião. A três, porque a B’rit Chadashá é de clareza solar ao apontar quais eram as práticas religiosas de Yeshua e de seus talmidim.

Enquanto homem, Yeshua viveu plenamente o Judaísmo e pautou toda a sua vida por meio da prática desta religião. Insta frisar: Yeshua não era cristão, mas sim um judeu zeloso da Torá e o maior rabino que o Judaísmo conheceu.

À luz das bessorot (boas novas ou “evangelhos”) não há dúvidas de que Yeshua foi um mestre do Judaísmo, razão pela qual era chamado de rabi:

“E Yeshua, voltando-se e vendo que eles o seguiam, disse-lhes: Que buscais? E eles disseram: Rabi, onde moras?”  (Yochanan/João 1:3)

“Natan’el respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Elohim; tu és o Rei de Yisra’el.” (Yochanan/João 1:49).

“E, respondendo Yehudá, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste.” (Matityahu/Mateus 26:25).

 

Eis o conceito de “rabi”, conforme a lição da Jewish Encyclopedia:

“Termo hebraico usado como título para aqueles que são distinguidos para o ensino, que são autoridades, professores da Torá, e apontados como chefes espirituais da comunidade. É derivado do substantivo br, que em hebraico bíblico significa ‘grande’.” (vocábulo “Rabbi”, Jewish Encyclopedia).

 

Então, se chamavam Yeshua de rabi, significa que era Professor da Torá, ou seja, rabino.  

Yeshua viveu como rabino, porque:

1) ensinava a Torá (Matityahu/Mateus 5:17-19);

2) venceu a tentação no deserto citando três vezes a Torá (Matityahu/Mateus 4:1-10; compare com Devarim/Deuteronômio 8:3; 6:16 e 6:13);

3) disse que nunca conheceu aqueles que transgridem a Torá (“praticantes da iniquidade”) (Matityahu/Mateus 7:23);

4) pregou a teshuvá (retorno à Torá do ETERNO, “arrependimento”) (Matityahu/Mateus 4:17);

5) dirigia-se à sinagoga nos shabatot (sábados) para o estudo da Torá e dos Profetas (Lucas 4:16);

6) disse ao jovem rico que este deveria obedecer às mitsvot (mandamentos) da Torá para alcançar a vida eterna (Matityahu/Mateus 19:16-17);

7) lecionou os grandes princípios da Torá no “Sermão da Montanha” (Matityahu/Mateus 5 a 7);

8) citou o “Shemá” como a mitsvá (mandamento) mais importante, ao lado da mitsvá de amar o próximo como a si mesmo (Yochanan Marcus/Marcos 12:28-31;  Devarim/Deuteronômio 6:4-5 e Vayikrá/Levítico 19:18);

9) vestia-se como judeu zeloso, usando tsitsiot (Matityahu/Mateus 9:20 e Bemidbar/Números 15:37-41);

10) como autêntico israelita, além de ser circuncidado no coração, também foi circuncidado na carne (Lucas 2:21);

Partindo-se da premissa irrefutável de que Yeshua era um rabino, qual seria a seita ou as seitas do Judaísmo que compunham a base de seus ensinamentos?

No primeiro século, existiam três grandes grupos dentro do Judaísmo: 1) os p’rushim (fariseus); 2) os ts’dukim (saduceus) e 3) os isiyim (essênios). Apesar de diversos outros setores do Judaísmo se fazerem presentes, os três citados formavam os principais blocos da religião judaica. O pensamento do rabino Yeshua possui fortíssimas bases nas doutrinas dos p’rushim (fariseus) e dos isiyim (essênios).  Nesta série de artigos, estudar-se-ão apenas as raízes farisaicas do pensamento de Yeshua, deixando-se para outro momento a análise dos aspectos essênios de suas doutrinas.

Cristãos desavisados poderão se surpreender com este estudo, porque estão acostumados a pensar incorretamente que Yeshua era “inimigo dos fariseus”. Em verdade, os ensinos do Mashiach são compatíveis com as concepções farisaicas e o entrelaçamento entre ambos é tão profundo que alguns estudiosos afirmam categoricamente que “Yeshua foi fariseu”.

Particularmente, pensamos que as doutrinas de Yeshua possuem tanto elo com o farisaísmo quanto com o essenismo, além de diversos elementos particulares, de modo que o Judaísmo por ele ensinado é singular. Por tal motivo e até em função da omissão dos evangelhos quanto ao tema, preferimos não rotular Yeshua como fariseu ou como essênio.

Contudo, há conexões entre o magistério de Yeshua e o dos fariseus. Tal afirmativa parece insana aos indoutos cristãos, que desconhecem o significado da palavra parush (fariseu), bem como a crença desta facção do Judaísmo. No âmbito do Cristianismo, acostumou-se a achar que o vocábulo “fariseu” tem um sentido pejorativo, e é esta falsa ideia que está entranhada na mente das pessoas, como se observa no Dicionário Houaiss:

Fariseu. Adjetivo e substantivo masculino.

1. relativo a ou membro de grupo religioso judaico, surgido no século II A.C., que vivia na estrita observância das escrituras religiosas e da tradição oral; o grupo foi acusado de formalista e hipócrita pelos Evangelhos;

2. que ou aquele que segue de maneira formalista uma religião;

2.1. que ou aquele que, por observar fielmente um dogma ou rito, se acredita dono da verdade e da perfeição, achando-se no direito de julgar e condenar a conduta de outrem a pretexto de dar ajuda;

3. que ou aquele que ostenta piedade e virtude sem tê-las;

4. Derivação: sentido figurado. Que ou quem é orgulhoso e hipócrita.”

 

O Dicionário Houaiss tece um quadro negativo acerca dos fariseus, expressando a mentalidade popular de que “os fariseus foram religiosos hipócritas”.  Não obstante, tal pensamento está totalmente equivocado, quando se analisa o significado histórico da palavra à luz do pensamento semita do primeiro século.

Na época de Yeshua, os p’rushim (fariseus) eram respeitados e tidos em alta conta pela população de Yehudá (Judeia), ou seja, o parush (fariseu) era visto como homem piedoso, temente a Elohim e zeloso observador da Torá. Cita-se, por oportuno, o testemunho do historiador Flávio Josefo, que viveu nos tempos de Yeshua:

“Assim, cidades inteiras dão testemunhos valiosos de sua virtude [do grupo dos fariseus], de sua maneira de viver e de seus discursos”. (História dos Hebreus, CPAD, 8ª edição, Página 830).

“Quanto às duas primeiras seitas de que falamos, os fariseus são tidos como os mais perfeitos conhecedores de nossas leis e de nossas cerimônias.

(...).

Enquanto os fariseus são sociáveis e vivem em amizade uns com os outros, os saduceus são naturalmente rudes e vivem mesmo grosseiramente entre si, como se fossem estrangeiros.” (Ob. Cit. Página 1134).

 

Por conseguinte, segundo o depoimento de Josefo, percebe-se que os p’rushim (fariseus) eram homens virtuosos e cumpridores da Torá, razão pela qual gozavam de prestígio perante a população. Entretanto, houve distorções e erros no farisaísmo que foram criticados por Yeshua, e isto não pode ser usado como argumento de que “todos os fariseus foram perversos”. Tal generalização é absurda. Seria o mesmo que chamar todos os brasileiros de idólatras pelo fato de grande parte da população do Brasil pertencer a religiões pagãs.

Haverá a exposição, nesta série de artigos, da afinidade existente entre as lições de Yeshua e a doutrina dos fariseus, fato que foi constatado por inúmeros historiadores, inclusive o aquilatado Professor Geza Vermes, da Oxford University, ao tratar da mensagem de Yeshua:

“Seja como for, poucos contestariam que a sua mensagem foi essencialmente judia ou que, no tocante a determinados tópicos controversos – por exemplo, sobre a ressurreição dos mortos -, ele [Yeshua] exprimia a opinião dos fariseus.” (Jesus e o Mundo do Judaísmo, Loyola, 1996, página 15).

 

Continua...

 

 

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