O relacionamento entre os Netsarim e os judeus não-crentes em Yeshua

20/08/2013 02:25

O RELACIONAMENTO ENTRE OS NETSARIM

OS JUDEUS NÃO-CRENTES EM YESHUA

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Estudou-se em outro artigo o relacionamento entre os netsarim e o Cristianismo, percebendo-se como esta religião, criada pelo homem, se desvirtuou dos ensinamentos de Yeshua, incorporando diversos elementos do paganismo.

Alguém poderia pensar que o escritor deste ensaio apenas critica o Cristianismo, isentando o Judaísmo de toda culpa. Não! O Judaísmo teve e ainda tem inúmeras mazelas, sofrendo os netsarim perseguição promovida por conta de seus próprios compatriotas judeus.

No primeiro século, existiam diversos grupos integrantes do Judaísmo, destacando-se os p’rushim (fariseus), os tsedukim (saduceus), os isyim (essênios) e os kanaim (zelotes). Não obstante, havia diversas subdivisões entre os grupos, que podiam chegar, segundo afirmam os historiadores, a até 40 subgrupos distintos.

Os fariseus eram profundos conhecedores da Torá, seguiam as tradições dos antepassados, criam na imortalidade da alma e na ressurreição dos mortos, na soberania e controle do ETERNO sobre todas as coisas, bem como na recompensa para os justos e o castigo para os ímpios no mundo vindouro.

Compunham os saduceus a classe sacerdotal e a elite dominante, centrando seus interesses mais na vida política do que na espiritual. Criam na Torá escrita, descartavam as tradições orais, não acreditavam em anjos e demônios, rejeitavam a ressurreição dos mortos e a imortalidade da alma.

Doutrinariamente, os essênios tinham as mesmas crenças dos fariseus: praticavam a Torá, porém, de acordo suas próprias interpretações; acolhiam as tradições, contudo, estas eram distintas das dos fariseus; criam na soberania do ETERNO e em seu controle sobre todas as coisas; acreditavam em anjos, demônios, imortalidade da alma e ressurreição. Apesar da semelhança de crenças em relação aos fariseus, alguns pontos de vista dos essênios eram diferentes: a) muitos deles praticavam o celibato com o intuito de buscar a elevação espiritual; b) alguns se isolaram em comunidades apartadas da sociedade, buscando uma vida de pureza e consagração; c) não iam ao Beit Hamikdash (Templo) e não ofereciam sacrifícios, porquanto achavam que os sacerdotes lá oficiantes eram ímpios e estavam a profanar o local.

Por sua vez, os zelotes eram os zelosos da Torá e da vida nacional do povo judeu, defendendo a luta armada e implacável contra o domínio de Roma, império idólatra.

Estas são as descrições gerais dos grupos, que recebiam inúmeras subdivisões. Neste cenário, surgiu Yeshua HaMashiach, cujos ensinos se aproximam do farisaísmo de Hilel e da doutrina dos essênios.

Os membros do Caminho, também conhecidos como netsarim (nazarenos), se tornaram mais um dos 40 segmentos do Judaísmo então vigente, ou seja, os sh’lichim (emissários/“apóstolos”) de Yeshua não eram reputados como pertencentes a outra religião, mas como um ramo do próprio Judaísmo.

Na época, eram comuns conflitos entre setores distintos do Judaísmo. Verbi gratia, houve episódio em que shamaítas mataram hileítas, sendo que ambos eram do partido dos fariseus. E com os netsarim não foi diverso, visto que os discípulos do Mashiach foram severamente perseguidos por seus irmãos judeus. Narra o livro Ma’assei Sh’lichim (Atos) o duro embate contra os membros do Caminho:

1) Kefá (Pedro) e Yochanan (João) foram presos porque pregavam a morte e a ressurreição do Mashiach (At 4:1-3), o que causou a indignação dos kohanim (sacerdotes) e tsedukim (saduceus), já que estes não criam em ressurreição;

2) os sh’lichim (emissários) foram presos e um anjo os libertou da prisão (At 5:17-19);

3) os sh’lichim foram açoitados por ordem do Sanhedrin/Sinédrio (At 5:40);

4) Estevão foi apedrejado até a morte (At 6: 8-15 e 7:1-60);

5) o Sanhedrin (Sinédrio) desencadeou perseguição aos netsarim que moravam em Yerushalayim (Jerusalém), levando à fuga de todos para as terras de Yehudá (Judeia) e Shomron (Samaria), excetuando-se os sh’lichim (emissários), que permaneceram em Yerushalayim/Jerusalém (At 8:1);

6) após Sha’ul (Paulo) reconhecer que Yeshua é o Mashiach, alguns judeus planejaram a sua morte (At 9:23);

7) o rei Herod (Herodes) prende alguns netsarim e manda matar Ya’akov (Tiago), irmão de Yochanan (João) (At 12:1-2);

8) Herod (Herodes) também determina a prisão de Kefá (Pedro), e este é liberto da prisão por um anjo (At 12:3-11);

9) Em Antioquia da Pisídia, Sha’ul (Paulo) e os netsarim conseguem pregar e convencer muitos judeus e gentios (At 13:43), sendo expulsos da cidade por incitação de certos judeus (At 13:50-51);

10) Judeus e gentios, em Icônio, perseguem Sha’ul e os netsarim (At 14:5);

11) Em Listra, judeus vindos de Antioquia e Icônio apedrejam Sha’ul, e pensaram que o tinham matado (At 14:19);

12) Judeus de Tessalônica vão a Bereia e incitam as multidões contra Sha’ul (At 17:13);

13) Sha’ul é preso em Yerushalayim (Jerusalém) e defende a sua fé perante inúmeras autoridades, até apelar para César e ser enviado a Roma (Atos 21 a 28).

Deste breve cenário extraído do livro de Ma’assei Sh’lichim (Atos), conclui-se que os netsarim sofreram severa perseguição por parte de alguns (nem todos) segmentos do Judaísmo. Apesar do conflito, o livro de Atos termina dizendo que a pregação do Reino de Elohim prosseguia, sem impedimento algum (At 28:31).

Um evento catastrófico irá marcar o início da desintegração do Judaísmo dos Nazarenos: a Revolta Judaica contra Roma pela independência de Israel (66 a 73 D.C), cujo resultado foi a vitória de Roma e a morte de aproximadamente 600 mil judeus, sendo destruída Yerushalayim (Jerusalém) no ano 70 D.C.

E o que aconteceu com os netsarim durante esta guerra? Há duas hipóteses. A primeira afirma que muitos netsarim foram mortos, enquanto um grupo menor conseguiu escapar. A segunda relata que os netsarim receberam uma revelação de Yeshua (ou de um anjo) de que Jerusalém seria destruída e, então, fugiram para Pella, distrito da cidade grega de Decápolis, situada a 24 quilômetros do lago da Galileia. Esta cidade contava com grande número de judeus, tendo Yeshua pregado no local e conquistado muitos seguidores (Mc 7:31 e Mt 4:25).  

Após a devastação de Jerusalém, foram exterminados diversos grupos religiosos judaicos, subsistindo tão somente apenas dois segmentos expressivos: os p’rushim (fariseus) e os netsarim (nazarenos). Como ambos faziam parte do Judaísmo, frequentavam as mesmas sinagogas, tal como historia o livro Ma’assei Sh’lichim/Atos (At 9:2, 20; 13:5, 14, 15, e 43; 14:1; 17: 1,10 e 17; 18: 4, 8,19 e 26; 19:8). Insiste-se em repetir: os discípulos originais de Yeshua frequentavam sinagogas e não Igrejas.

Fariseus e nazarenos estavam debaixo das mesmas sinagogas, porque possuíam a mesma fé, excetuando-se que os primeiros esperavam a vinda do Mashiach, enquanto os segundos pregavam que o Mashiach já chegara. Porém, a cisão estava prestes a ocorrer.

Durante a rebelião judaica contra Roma entre os anos de 66 a 70 D.C., o líder dos p’rushim (fariseus) Yochanan Ben Zakkai fugiu da cidade dentro de um caixão, levado por seus discípulos. Posteriormente, dirigiu-se ao comandante militar romano Vespasiano como se este fosse o Imperador e, tendo em vista que o militar posteriormente se tornou o Imperador de Roma, conseguiu obter os favores deste e fundar uma escola judaica em Yavne, em razão do acerto de sua suposta profecia.  

Consumando-se a destruição de Yerushalayim (Jerusalém) e do Beit Hamikdash (Templo), toda a vida religiosa ficou concentrada em Yavne. Já que não existia mais o Templo, como poderiam oferecer os sacrifícios para a expiação de pecados?

Ora, os netsarim (nazarenos) já não o faziam porque criam no sacrifício expiatório de Yeshua HaMashiach, porém, os outros judeus tiveram que encontrar uma maneira para resolver esta questão. Yochanan Ben Zakkai convenceu os demais líderes de que o sacrifício de animais deveria ser substituído pela oração, fundamentando seu raciocínio no seguinte texto: “Pois desejo misericórdia, não sacrifícios” (Hoshea/Oséias 6:6). Passou o Sanhedrin (Sinédrio) a exercer suas funções em Yavne, sob a liderança de Yochanan Ben Zakkai.

Outrora, netsarim (nazarenos) e p’rushim (fariseus) frequentavam as mesmas sinagogas e iam ao Templo em Jerusalém, até pelo fato de que muitos fariseus passaram a crer em Yeshua HaMashiach. O fariseu que seguia Yeshua continuava fariseu, tal como Sha’ul (Paulo) afirmou anos depois de ter aceitado o Mashiach: “Irmãos, eu sou parush (fariseu), filho de p’rushim (fariseus)” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 23:6).

Retornando ao ponto inicial, se no passado netsarim (nazarenos) e p’rushim (fariseus) estavam nas mesmas sinagogas em Jerusalém, com a destruição da cidade santa no ano 70 D.C, os primeiros foram para Pella e os segundos para Yavne. Esta separação geográfica acarretaria uma divisão final entre os grupos.

Em Yavne, os fariseus criaram as bases do Judaísmo Moderno, instituindo inúmeras leis rabínicas contrárias à Torá e aos ensinamentos de Yeshua HaMashiach. A respeito, ensina Moshé Ben Shaul:   

“Antes de 70 DC, havia muito mais judeus e eles podiam se dar ao luxo de permitir diversos segmentos e opiniões. Com o número de judeus drasticamente reduzido e o Templo destruído, Yochanan [Ben Zakkai] achou que para que o Judaísmo sobrevivesse eles precisavam se unir (será que podemos aprender com isso?). Eles achavam que precisavam começar a codificar as tradições orais e concordar em teologia e doutrina. Isto levou muitos anos e houve muitas brigas, uma vez que existiam muitas crenças em meio aos fariseus.

A maior das brigas foi talvez entre Gamliel II e Rabi Akiva, no início do segundo século. Gamliel II achava que o Farisaísmo precisava apenas de umas mudanças pequenas, enquanto Akiva achava necessário criar um sistema que desse todo o poder e autoridade aos rabinos. Akiva então trouxe a doutrina de que a lei oral foi dada ao mesmo tempo em que a Torá, e que Moisés, David, etc eram rabinos. Ele ganhou a disputa com Gamliel em uma batalha que foi bem feia e cheia de malícia de ambos os lados.

Com Akiva no comando, finalmente eles decretaram que os rabinos poderiam mudar a Torá se necessário e que a maioria dos rabinos (todos partidários de Akiva) poderiam até sobressair à Bat Kol (voz de Deus). Eles criaram uma nova tradução para o grego do Tanach para substituir a Septuaginta e um novo Targum Aramaico (Onkelos), ambos os quais estavam mais de acordo com a teologia de Akiva.

Eles não podiam mudar a versão hebraica, mas os comentários deles sobre a suposta lei oral e o Tanach tornaram-se a autoridade final. Eles podiam descartar decisões rabínicas das quais eles não gostavam. O resultado disto é o Judaísmo Ortodoxo de hoje.

(...)

Recapitulando, os fariseus estavam em Yavne e os Nazarenos em Pella. O cisma antes era apenas uma discussão interna. Agora estavam se distanciando de forma considerável e uma ruptura total era inevitável. Os rabinos de Akiva começaram a trazer novas regras e teologia.”

(The Nazarenes, artigo publicado por Moshé Ben Shaul, com base na obra de Ray A. Pritz, intitulada Nazarene Jewish Christianity: From The End Of The New Testament Period Until Its Disappearance In The Fourth Century).

 

Como se pode aprender, os nazarenos seguiam a Torá de acordo com a interpretação fixada por Yeshua, porém, os fariseus se achavam dotados de autoridade para criar leis rabínicas (halachá), sendo que muitas delas contrariavam as Escrituras e os ensinos do Mashiach. Uma coisa é estabelecer uma lei que interpreta a Torá, outra totalmente diversa é instituir uma lei que cria mandamentos novos não existentes na Torá ou até mesmo contrários a esta. É óbvio que os nazarenos não iriam se submeter às regras instituídas pelo Rabino Akiva e seus seguidores, porquanto Yeshua já havia criticado “doutrinas que são mandamentos de homens” e tradições que anulavam “a Palavra de Elohim” (Yochanan Marcus/Marcos 7:7-9 e 13).

Se não bastasse, o Rabino Akiva passou a ensinar que o ETERNO entregou duas leis distintas a Moshé (Moisés) no monte Sinai: 1) a Torá escrita, que são os cinco primeiros livros da Bíblia (Torá Shebiktav) e 2) a Torá Oral (Torá Shebeal pê), que conteria explicações, interpretações e ensinamentos da Torá escrita. Akiva começou a estudar e a classificar a Lei Oral, trabalho continuado pelo rabino Meir e pelo discípulo deste, o rabino Yehudá HaNassi. Aproximadamente no ano 200 D.C, Yehudá HaNassi culmina todo o trabalho com a compilação da Mishná (parte do Talmud), ou seja, a Lei Oral agora se tornava escrita. Reporta-se o pensamento do Judaísmo Moderno:

“É crença fundamental do judaísmo histórico que a Torá nos foi dada no Sinai: o imortal Moisés recebeu-a do Todo-Poderoso, ensinou-nos sua mensagem e entregou a nós, seu povo. A Torá era constituída por duas partes: a primeira delas, o Pentateuco, ou os Cinco Livros de Moisés, que chamamos de Torá Shebichtav, a Torá escrita. A segunda parte era a Torá shebealpê, a Torá oral, que continha explicações, interpretações e ensinamentos da Torá escrita. A Torá shebealpê não deveria ser escrita: era ensinada oralmente, como um complemento da Torá escrita.

Moisés ensinou o sagrado Livro da Torá, acompanhado por suas interpretações, a seu discípulo Josué. Este então ensinou-a aos Anciãos e eles, por sua vez, ensinaram-na a outros. Tudo o que era transmitido oralmente deveria ser repetido e repassado muitas vezes, assegurando-se assim que nada seria esquecido. Esta prática recebeu o nome de Mishná, palavra que significa um conjunto de ensinamentos e instruções.

A Mishná tornou-se nossa Tradição Oral, transmitida pelos mestres aos alunos, de geração em geração. Desde o início era proibido compilar por escrito qualquer parte da Tradição Oral, por dois motivos. Primeiro, para que mestres e alunos se empenhassem a fundo, sempre por muitas horas, de modo a assegurar que tudo fosse perfeitamente lembrado e minuciosamente compreendido.

(...)

Em segundo lugar, temia-se que, se a Torá oral viesse a ser transcrita, as pessoas passariam a pensar nela como parte integrante da Torá Shebichtav e começariam a tratá-la como tal.”

(Irving M. Bunim, A Ética do Sinai, Sefer, 2009, página II).

 

Qual o grande problema dos nazarenos em relação à Lei Oral?

Primeiramente, não existe nada na Bíblia afirmando que o ETERNO deu duas leis a Moshé (Moisés), uma escrita e outra oral. À luz do Texto Sagrado, o ETERNO apenas entregou a Torá Escrita a Moisés, inexistindo outro tipo de lei. Logo, os nazarenos devem se pautar apenas por aquilo que realmente está escrito na Bíblia. Em segundo lugar, a Lei Oral contém inúmeras regras que violam a Torá Escrita e/ou os ensinos de Yeshua. Consequentemente, os nazarenos não poderiam aceitar a autoridade de rabinos cujas lições contrariam as Escrituras.

Compendiam-se as cinco principais razões pelas quais está equivocada a ideia de que existe uma Lei Oral inspirada pelo ETERNO:

1) a Lei Oral não é mencionada sequer uma vez no Tanach (Primeiras Escrituras/“Antigo Testamento”);

2) nem Yeshua e nem seus discípulos falaram expressamente sobre a existência da Lei Oral;

3) quando Elohim ordenou a Moshé (Moisés) que subisse ao monte Sinai para receber as tábuas, disse-lhe: “Suba o monte, venha até mim, e fique aqui; e lhe darei as tábuas de pedra com a Torá e os mandamentos que escrevi para a instrução do povo” (Shemot/Êxodo 24:12). Nenhuma menção é feita de uma Lei Oral;

4) o Tanach afirma que os rolos da Torá foram perdidos e completamente esquecidos por mais de 50 anos, e só foram redescobertos pelos sacerdotes do Templo (II Rs 22:8; II Cr 34:14-15). É inconcebível que uma Lei Oral pudesse ter sido lembrada se até mesmo a Lei escrita foi esquecida;

5) as palavras da Mishná e do Talmud são claramente palavras de homens que viveram entre os séculos II a V depois de Yeshua, faltando as seguintes fórmulas tão tradicionais dos relatos bíblicos: “E YHWH falou a..., dizendo:” e “Assim diz YHWH” etc;

6) aqueles que escreveram a Lei Oral foram homens que negaram Yeshua HaMashiach, logo, é impossível que tais homens tenham recebido a inspiração do ETERNO para redigir outros livros que integrariam o cânon das Sagradas Escrituras;

7) os rabinos afirmam que a Lei Oral é a interpretação oficial da Torá dada pelo ETERNO a Moshé (Moisés) no Monte Sinai. Contudo, se realmente olharmos para os tratados do Talmud, perceberemos que estão cheios de opiniões de rabinos que discordam uns dos outros em quase todas as questões. Os rabinos explicam que sempre que houver tais discordâncias “ambas as opiniões são as palavras do Elohim vivo”. Ora, não é razoável acreditar que o ETERNO iria se contradizer em sua própria Palavra.

Por isto, até mesmo antes da codificação completa do Talmud (500 D.C), a Lei Oral que começou a ser pregada pelo rabino Akiva, o Pai do Judaísmo Moderno, não contou com o apoio dos nazarenos no século II D.C. Se por um lado os nazarenos não criam na Lei Oral supostamente inspirada pelo ETERNO, por outro, seguiam boas tradições interpretativas da Torá que foram herdadas de seus antepassados (At 21:21 e 28:17; II Ts 2:15). Em suma, há boas tradições que foram observadas pelos nazarenos, porém, estes discordaram de tradições meramente humanas e que foram elevadas ao status divino por meio da falsa ideia de que o ETERNO outorgou uma Lei Oral a Moshé (Moisés). Aliás, Yeshua chegou a criticar muitas das tradições dos p’rushim (fariseus) e dos mestres da Torá (Mc 7:7-13), o que levou à divergência entre os nazarenos e os fariseus no tocante às tradições da “Lei Oral”[1].

Importa reproduzir o antigo comentário dos nazarenos sobre o profeta Yeshayahu (Isaías), datado do século IV, indicando que os nazarenos não seguiam a Lei Oral preconizada pelo judaísmo rabínico, porque contrariava a Torá:

“Os Nazarenos explicam as duas casas como as duas casas de Shamai e Hilel, das quais originaram os escribas e fariseus ... [eles, os fariseus] dissiparam e profanaram os preceitos da Torá [“Lei”] pelas tradições e pela Mishná. E essas duas casas não aceitaram o Salvador...

(apud Ten Historical Characteristics of the “Authentic” Netzarim, James Scott Trimm).

 

Pelo fato de os nazarenos reconhecerem Yeshua como Mashiach e os judeus tradicionais não, estes passaram a chamar os nazarenos de “Minim” (hereges) – forma singular: “min” (herege).

O vocábulo “minim” era usado para designar todos os hereges, mas principalmente os nazarenos.

De acordo com o Dictionary of the Targumim, Talmud Babli, Yerushalami and Midrashic Literature, Marcus Jastrow define “Min”: “... sectário, infiel... um judeu infiel, principalmente aplicado aos cristãos judeus”. No referido Dicionário, Jastrow usa o termo “cristãos judeus” para se referir aos nazarenos. Muitos especialistas sustentam que o vocábulo “Min” é um acróstico para uma frase em hebraico que significa “crentes em Yeshua, o Nazareno”.

Então, ficou tenso o clima entre os fariseus e os nazarenos, já que ninguém gosta de ser chamado de “herege”. Aumentou o conflito quando os fariseus determinaram a queima dos “Livros dos Minim” (a B’rit Chadashá/“Novo Testamento”), conforme se verifica no Talmud, Tratado de Shabat 116a:

“As margens e os livros dos Minim não podem ser salvos, mas devem ser queimados em seu lugar, eles e os seus ‘memoriais’ [isto é, os nomes sagrados do ETERNO no texto].

O Rabino Yosef disse: Nos dias da semana, é preciso cortar os nomes divinos que eles contêm e escondê-los, queimando o resto”.

 

No contexto desta passagem talmúdica, há um debate entre os rabinos sobre o que fazer com os “Livros dos Minim”, o que evidentemente incluiria os escritos da B’rit Chadashá (“Novo Testamento”). Para os rabinos Tarfon e Ishmael, todos os livros deveriam ser queimados. Por outro lado, o rabino Yosef, temendo que poderia ser profanado YHWH caso seu nome fosse levado ao fogo, pensava que os textos em que apareciam os nomes do ETERNO deveriam ser cortados, queimando-se o restante dos rolos. 

Se a solução para os livros da B’rit Chadashá (“Novo Testamento”) foi a queima, surgiu novo debate entre os rabinos tradicionais acerca da seguinte questão: o que fazer com um rolo da Torá escrito por um “min”? Seria válido adquirir este livro ou também deveria ser queimado?

Eis a resposta do Tratado de Gitin 45b:

“R. Budia disse ao R. Ashi: [A Mishná diz que] não devem ser comprados por mais que o seu valor, mas [presumivelmente] podem ser comprados por seu valor. Isso mostra que um pergaminho da Torá, que é encontrado na posse de um pagão, pode ser lido?

Talvez ele possa ser comprado para ser guardado.

R. Nahman disse: Temos por tradição que um rolo da Torá que foi escrito por um Min deve ser queimado”.

 

Acrescenta-se mais um fator que promoveu a divisão entre os fariseus e os nazarenos: a instituição da “Birkat HaMinin” (literalmente “Bênção dos Hereges”). Apesar de o nome ser “benção”, tratava-se de uma verdadeira maldição lançada pelos judeus tradicionais contra os nazarenos. Entre os anos 80 a 90 D.C, nas sinagogas frequentadas por nazarenos e fariseus, estes acrescentaram a seguinte “bênção” na amidá:

“Que os sectários e os nazarenos[2] morram em um instante se não retornarem para Ti e para a Tua Torá. Que eles sejam apagados do livro da vida e não sejam inscritos entre os justos”. 

 

Sobre a citada maldição, comentou Moshé Ben Shaul:

“Ora, os Nazarenos obedeciam sim à Torá, só que não da maneira farisaica. Esta ‘bênção’ foi inserida para separar os Nazarenos do Judaísmo tradicional. Ao contrário do restante da Amidá, que era feita silenciosamente e de forma bem suave, esta ‘bênção’ tinha que ser recitada em alto e bom som. Se você fosse um Nazareno, teria como opções deixar a sinagoga ou amaldiçoar a si mesmo[3]. Isto, é claro, separou os Nazarenos dos fariseus ainda mais, porém até certo ponto ainda havia diálogo entre eles até a metade do 2º século e alguns deles podem ser lidos no Talmude.

Entre a destruição do Templo em 70 D.C e a revolta de Bar Kochba cerca de 135 D.C, o cisma entre os fariseus e os Nazarenos continuou a crescer (lembre-se que eles eram os dois únicos grupos que haviam restado no Judaísmo).”

(Ob.Cit).

 

Já que seria muito difícil que os Nazarenos amaldiçoassem a si mesmos, supõe-se que abandonaram as sinagogas em que a citada “bênção” era proferida.  Cumpriu-se a profecia de Yeshua:

“Eles os expulsarão das sinagogas...”

(Yochanan/João 16:2)

 

O marco da separação final entre os judeus tradicionais e os judeus nazarenos ocorreu durante a chamada “Revolta de Bar Kochba”, líder militar que capitaneou a revolta dos hebreus contra o Império Romano durante os anos de 132 a 135 D.C.

Shim’on Bar Kosiva foi declarado o Messias de Israel pelo rabino Akiva, o citado Pai do Judaísmo Moderno. Akiva mudou o nome Bar Kosiva para Bar Kochba (Filho da Estrela), em alusão à profecia messiânica de Bemidmar/Números 24:17.

Enquanto os nazarenos tinham Yeshua, parte[4] dos judeus reputou Bar Kochba como Messias.

A vitória temporária de Bar Kochba sobre os romanos acendeu a esperança dos judeus tradicionais de que ele realmente seria o Messias, aumentando-se tal fé pelo fato de o rabino Akiva gozar de muito prestígio, pois liderava o Sanhedrin (Sinédrio).

Justino Mártir dissertou (100 a 165 D.C) que Bar Kochba deu ordens para que os seguidores de Yeshua fossem submetidos a punições cruéis, a menos que negassem Yeshua como Messias e blasfemassem contra seu nome (I Apologia 131). Se Bar Kochba se considerava o verdadeiro Mashiach, obviamente não aceitaria a concorrência de Yeshua. Esta perseguição também é relatada por Eusébio, consoante o escólio do historiador David Flusser:

“Sabemos das Crônicas de Eusébio que Bar-Kochba punia os cristãos [corrigindo: nazarenos[5]] porque se recusavam a lutar junto com ele contra os romanos. Eles evidentemente se recusaram a fazê-lo devido à sua crença de que o Messias já tinha vindo e que não retornaria agora na figura de Bar-Kochba. Parece-me que, dessa forma, havia uma ligação entre a punição dos cristãos [corrigindo: nazarenos] por Bar-Kochba e a crença deles de que Jesus era o Messias.”

(O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, Volume III, Imago, 2002, página 187).

 

Este relato da brutalidade de Bar Kochba é condizente com sua agressividade. Narra Hugh J. Schonfield que Bar Kochba, para testar a coragem de seus soldados, ordenou que cortassem um de seus dedos, e matou seu tio pela mera suspeita, despida de provas, de que pudesse ser um traidor (The History of Jewish Christianity, London, 1936, página 31).

No final da guerra liderada pelo pseudo Messias Bar Kochba, os romanos venceram e aproximadamente 850.000 (oitocentos e cinquenta mil) judeus foram mortos. Bar Kochba teve sua cabeça decapitada e o rabino Akiva foi torturado até a morte pelos romanos, que usaram um pente de ferro em brasa para rasgar sua pele e corpo.    

Mudou o Imperador Romano Adriano o nome de Jerusalém para Aelia Captolina (Capital do Sol, o deus romano), expulsando os judeus da terra prometida (135 D.C). Todos os judeus (nazarenos ou não) foram perseguidos e proibidos de entrar na cidade santa. Foi colocada uma imagem de Júpiter em Jerusalém, e uma estátua do Imperador Adriano no local em que outrora ficava o Templo de YHWH. Este exílio de Jerusalém somente terminou com o reconhecimento do Estado de Israel em 1948, e a retomada definitiva da cidade em 1967, na Guerra dos Seis Dias.

A partir da Diáspora de 135 D.C, o judaísmo tradicional apartou-se de vez do judaísmo dos nazarenos, visto que os judeus foram mortos ou espalhados pelos quatro cantos da terra.

E qual o destino dos nazarenos desde então?

Uns foram mortos na referida Revolta. Ao longo dos séculos, outros foram perseguidos e dizimados pela Igreja Católica, muitos foram convertidos à força ao Catolicismo Romano e, enfim, existiu um menor grupo que permaneceu firme com a fé nazarena – o remanescente fiel.

Muitos eruditos já pesquisaram sobre quando foi supostamente extinto o grupo dos nazarenos. Há teses no sentido de que desapareceram: a) no século IV; b) no século X e c) no século XIII. Por outro lado, há quem sustente que os nazarenos nunca foram erradicados, preservando o ETERNO um grupo de israelitas que cumpre a Torá e têm o testemunho de Yeshua HaMashiach (Guilyana/Apocalipse 14:12).

Particularmente, cremos que os nazarenos nunca desapareceram por completo. Foram perseguidos, mortos e reduzidos numericamente, porém, ao longo de toda a história de Israel, YHWH manteve para si um remanescente fiel (Ruhomayah/Romanos 11:5).

 

 


[1] Hermann Strack teoriza que o crescimento dos escritos dos Nazarenos, ou seja, a B’rit Chadashá (“Novo Testamento”), foi um fator que influenciou os rabinos a registrar a lei oral através da escrita (Introduction to the Talmud and Midrash, Jewish Publication Society, 1945). Com isto, pode-se supor que a compilação da “Lei Oral” tenha sido uma resposta dos fariseus e de seus descendentes para combater os Escritos dos Nazarenos (B’rit Chadashá). Isto é, apesar de nazarenos e fariseus usarem o Tanach, o uso da B’rit Chadashá pelos primeiros levou os segundos a criar suas próprias Escrituras – a Lei Oral, cuja redação final culminou com o Talmud.

[2] Tendo em vista que, em momento posterior, os “Pais” da Igreja começaram a acusar os judeus de amaldiçoar todos os cristãos sob o rótulo de “nazarenos”, o Judaísmo alterou a “Bênção” contra os Hereges, excluindo o vocábulo “nazarenos”. Atualmente, a Birkat HaMinim se encontra na 12ª bênção da Amidá: “Que para os caluniadores não haja esperança, que os hereges sejam prontamente aniquilados, e que os inimigos de Teu povo sejam depressa extirpados. E os malvados – depressa destroça-os, quebra-os, oprime-os, abate-os, humilha-os e domina-os. Bendito sejas Tu, Eterno, que quebras os inimigos e dominas os malvados”.

[3] Há estudiosos lecionando que a Birkat HaMinin não se dirigia aos nazarenos, como David Flusser (O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, Volume III, Imago, 2002, páginas 187 a 191). Não obstante, Flusser reconhece que existem dois textos da Birkat HaMinin encontrados na Guenizá do Cairo, contendo maldições contra os nazarenos (Ob.Cit. página 187). Por este motivo, creio que o Judaísmo Tradicional realmente amaldiçoou os nazarenos.

[4] Muitos não reconheceram Bar Kochba como Messias, principalmente certo segmento farisaico.

[5] As interpolações entre colchetes foram realizadas por mim. Flusser chama os judeus discípulos de Yeshua de “cristãos”, sem levar em conta que os talmidim judeus eram conhecidos como “nazarenos”. Na Revolta de Bar Kochba, somente foram convocados para o serviço militar os judeus, e não os gentios, razão pela qual concluimos que o texto está se referindo aos nazarenos (judeus) e não aos cristãos (gentios).

 

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