O Grande Mandamento

20/08/2013 23:16

O GRANDE MANDAMENTO

Por Tsadok Ben Derech

 

Outra passagem em que Yeshua destacou a relevância da Torá refere-se ao episódio em que foi questionado acerca de qual seria o maior mandamento:

“Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?

E Yeshua respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, YHWH é o nosso Elohim, YHWH é um[1].

Amarás, pois, a YHWH teu Elohim de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.

E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.”

(Yochanan/Marcus 12:28-31).

 

No texto acima, colocamos em negrito as palavras de Yeshua que são citações da Torá! Já ouvimos muitos cristãos dizendo incorretamente que “Jesus inventou o mandamento de amar a Deus e o mandamento de amar ao próximo”. Não! Em verdade, estes dois mandamentos já estavam na Torá:

“Ouve, ó Israel, YHWH é nosso Elohim, YHWH é um. Amarás YHWH teu Elohim com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Devarim/Deuteronômio 6:4-5).

“... amem a seu próximo como a si mesmos; eu sou YHWH”

(Vayikrá/Levítico 19:18).

 

Logo, Yeshua não inventou o mandamento do “amor ao próximo”, como pensam alguns cristãos, mas tão-somente repetiu um mandamento já existente na Torá.

Nas boas novas segundo Matityahu (Mateus), o fariseu pergunta: “qual é o maior mandamento dentro da Torá[2]?” (Mt 22:36). Após o Mashiach citar que devemos amar a YHWH e amar ao próximo como a nós mesmos, Yeshua conclui:

“Desses dois mandamentos dependem toda a Torá e os Profetas”

(Mt 22:40).

 

Fica claro como a luz do dia que Yeshua não está pregando a revogação da Torá. Pelo contrário, ensinou a Lei de Moisés e destacou os seus dois principais mandamentos.

Já que no Judaísmo antigo inexistia imprensa, tornando extremamente raro que alguém tivesse um rolo da Torá, os rabinos passaram a condensar e a resumir a Lei em poucos mandamentos, objetivando que a população os memorizasse. Eis o que ensinou o rabino Simlai, conforme retratado no Talmud Bavli, m.Makot: 

“Foram dados a Moshé (Moisés) seiscentos e treze mandamentos...

Veio David e os reduziu a onze. Pois está escrito: Salmo de David. YHWH, quem pode hospedar-se em tuas tendas? Quem pode habitar em teu monte sagrado? (1) Quem anda com integridade (2) e pratica a justiça (3) e fala a verdade no coração e (4) não calunia com a língua (5) e não faz mal a seu próximo (6) e não difama seu vizinho (7) despreza o ímpio com o olhar (8) mas honra aos que temem YHWH (9) e é responsável por seus juramentos sem se retratar (10) não empresa dinheiro com usura, (11) nem aceita suborno contra o inocente. Aquele que assim fizer jamais vacilará (Sl 15:1-5)...

Veio Yeshayahu (Isaías) e reduziu os mandamentos a seis, como está escrito: (1) Aquele que pratica a justiça (2) e fala o que é reto; (3) despreza o ganho da opressão, (4) recusa-se a aceitar suborno, (5) tampa os ouvidos para não ouvir falar em crimes de sangue, (6) e fecha os olhos para não ver o mal (Is 33:15)...

Veio Michá (Miquéias) e os reduziu a três, como está escrito: YHWH te mostrou, ó homem, o que é bom e o que YHWH exige de ti: (1) apenas praticar a justiça, (2) e amar a bondade, (3) e caminhar humildemente com teu Elohim (Mq 6:8)...

Veio novamente Yeshayahu (Isaías) e os reduziu a dois, como está escrito: Assim diz YHWH: (1) Praticai a justiça, (2) observai o que é direito.

Veio Amos (Amós) e os reduziu a um, como está escrito: Assim falou YHWH à casa de Israel: procurai-me e vivereis (Am 5:4)”

(Makot 23b e 24a).

 

A tentativa de se resumir toda a Lei também se encontra em Manuscrito conhecido como “Testamento dos Doze Patriarcas”, de época anterior ao nascimento de Yeshua. No citado documento, Yisachar (Issacar) fala exatamente o que Yeshua diria muitos anos depois, já que ensinou a seus filhos o dever de amar a Elohim e de amar a seus próximos (Testamento de Yisachar 5:2). Yisachar (Issacar) chega a lecionar que os dois mandamentos foram por ele cumpridos durante sua vida:

“Eu agi com devoção e verdade em todos os meus dias. Amei YHWH com toda a minha força. Do mesmo modo, amei todos os homens como se fossem meus próprios filhos.”

(Testamento de Yisachar 7:6).

 

Filo de Alexandria, pensador judeu contemporâneo de Yeshua (25 A.C a 50 D.C), discorreu sobre o Decálogo (“Dez Mandamentos”) e explicou que os seres humanos têm o dever de amar o ETERNO e amar ao próximo:

“Temos conhecido algumas pessoas que se associam a um dos dois lados e negligenciam outro. Elas beberam do puro vinho das aspirações piedosas e, voltando as costas a todas as outras preocupações, devotaram sua vida pessoal inteiramente ao serviço de Elohim. Outras, concebendo a ideia de que não existe o bem além de fazer justiça para com os homens, não têm disposição para nada além da companhia dos homens... Estas pessoas podem ser chamadas, com justiça, de amantes dos homens; as primeiras de amantes de Elohim. Ambos estão a meio caminho da virtude; só conseguirá virtude integral aquele que obtiver honra nos dois aspectos”

(Decálogo).

 

Logo, quando Yeshua resumiu toda a Torá em dois mandamentos, estava seguindo a tradição judaica de compendiar os aspectos mais importantes da Lei.    

Certos incautos dizem que “depois de Jesus só existem dois mandamentos - amar a Deus e amar ao próximo”. Isto é um grave erro. Yeshua ressaltou que toda a Torá e os Profetas dependem dos dois principais mandamentos (Mt 22:40), ou seja, estes são os alicerces dos demais, e não a causa de abolição.

 

 


[1] Este verso faz parte da mais importante oração do Judaísmo, conhecida como Shemá (“Ouve”), que é repetida pelos judeus zelosos pelo menos duas vezes ao dia, na parte da manhã e à noite.

[2] No texto hebraico de Shem Tov, consta qual seria o maior mandamento “na/dentro da Torá” (בתורה). 

 

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