Hegesippus: uma testemunha ocular

20/08/2013 00:26

HEGESIPPUS: UMA TESTEMUNHA OCULAR

Por Tsadok Ben Derech

 

Hegesippus (Hegésipo) foi um escritor nazareno que viveu durante os anos 110 a 180 D.C, cujo provável nome em hebraico foi HaGish’fa. Eusébio de Cesareia escreveu que Hegésipo pertenceu à primeira geração dos sucessores dos apóstolos, o que o credencia como historiador.

Registrou Hegésipo boa parte da “tradição oral dos apóstolos” e as compilou em uma obra chamada “Memórias”, em cinco volumes, escrevendo-as, segundo o relato de Eusébio, em hebraico e aramaico.

Infelizmente, a monumental obra deste discípulo de Yeshua está perdida, porém, no livro História Eclesiástica, Eusébio de Cesareia (265 a 339 D.C) citou alguns  trechos do tratado de Hegésipo, que ainda não havia desaparecido. Por conseguinte, serão investigados os preciosos relatos históricos de Hegésipo, cabendo advertir que se tomou a liberdade de colocar algumas palavras da obra “Memórias” em hebraico, língua original de seus escritos.

No livro V de suas “Memórias”, escreveu Hegésipo:

“Sucessor na direção da Kehilá [Congregação] é, junto com os apóstolos, Ya’akov [‘Tiago’], o irmão do Senhor. Todos dão-lhe o sobrenome de ‘Justo’ [HaTsadik], desde os tempos do Senhor até os nossos, pois eram muitos os que se chamavam Ya’akov [‘Tiago’]. Mas somente este foi santo desde o ventre de sua mãe. Não bebeu vinho nem bebida fermentada, não comeu carne; sobre sua cabeça não passou tesoura nem navalha e tampouco ungiu-se com azeite nem usou do banho.”

(Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, editora Novo Século, 2002, página 47).

 

Ante a declaração transcrita, percebe-se que, após a morte de Yeshua, a liderança dos apóstolos contou com a participação de Ya’akov (Tiago), irmão do Mashiach. Isto derruba a ideia católica de que Pedro (Kefá) foi o primeiro “Papa”, ou líder dos discípulos. A bem da verdade, segundo o texto visto acima, a liderança foi compartilhada coletivamente entre os apóstolos (emissários) e Ya’akov (Tiago). Em dado momento de sua obra, Hegésipo destaca Ya’akov como o principal líder dos emissários.

Outro elemento importante, extraído da passagem transcrita, diz respeito ao fato de que Ya’akov não bebeu vinho e nem passou navalha em sua cabeça desde o ventre de sua mãe, ou seja, era nazir (nazireu), consoante a descrição de Bemidbar/Números 6. Deduz-se, então, que a Torá (“Lei”) era praticada pelos discípulos mesmo após a morte do Mashiach, uma vez que o voto de nazir (nazireu) é uma instituição da Torá e Ya’akov nunca desfez o voto enquanto viveu.

Hegésipo narra que muitas autoridades judaicas creram que Yeshua era o Mashiach, enquanto seus opositores temeram, dizendo: “todo o povo corre perigo ao esperar o Mashiach em Yeshua” (livro V de Memórias, Ob.Cit., página 48). Isto demonstra que um número considerável de judeus aceitou o testemunho do Mashiach, o que é confirmado pelas Escrituras Sagradas:

“Ao ouvir o relato, eles louvaram a Elohim, mas também disseram: ‘Veja, irmãos, quantas dezenas de milhares de crentes há entre os habitantes de Yehudá [Judá], e eles são zelosos da Torá [‘Lei’].”

(Ma’assei Sh’lichim/Atos 21:20).

 

Hegésipo relata a morte de Ya’akov (Tiago), irmão de Yeshua, asseverando que em Pesach (Páscoa) estavam reunidos muitos judeus e gentios no Beit HaMikdash (Templo). Então, alguns escribas e fariseus puseram Ya’akov no alto do Templo para convencer a população de que Yeshua não era o Mashiach. Contudo, Ya’akov pregou com autoridade e ousadia, declarando que Yeshua é o Mashiach que há de voltar sobre as nuvens do céu. Nesta ocasião, muitos creram na mensagem de Ya’akov e começaram a louvar o Filho de David, o que levou alguns escribas e fariseus a jogá-lo de cima do Templo. Como Ya’akov não morreu com a queda, foi apedrejado:

“Mas ele [Ya’akov/Tiago], virando-se, ajoelhou-se e disse: ‘Eu te peço Senhor, Elohim Pai: Perdoa-os, porque não sabem o que fazem’. E quando estavam assim apedrejando-o, um sacerdote, um dos filhos de Recab, filho dos Recabim, dos quais o profeta Yirmeyahu [Jeremias] havia dado testemunho, gritava dizendo: ‘Parai, que estais fazendo? O Justo roga por vós!’ E um deles, tecelão, agarrou o bastão com que batia os panos e deu com este na cabeça do Justo, e assim foi que sofreu o martírio. Enterraram-no naquele lugar, junto ao Templo, e ainda se conserva sua coluna naquele lugar ao lado do Templo. Ya’akov [Tiago] era já um testemunho veraz para judeus e para gregos de que Yeshua é o Mashiach.”

(Ob.Cit., página 48).

 

Após a morte de Ya’akov, irmão do Salvador, os emissários (“apóstolos”) se reuniram com o objetivo de escolher o novo líder, sendo eleito Shim’on (Simeão/Simão), primo de Yeshua HaMashiach. Cita-se Eusébio de Cesareia, que se pautou na obra de Hegésipo:

“Depois do martírio de Ya’akov [Tiago] e da tomada de Jerusalém, que se seguiu imediatamente, é tradição que os apóstolos e discípulos do Senhor que ainda viviam reuniram-se de todas as partes num mesmo lugar, junto com os que eram da família do Senhor segundo a carne (pois muitos deles ainda viviam), e todos celebraram um conselho sobre quem seria considerado digno de suceder a Ya’akov [Tiago], e todos, por unanimidade, decidiram que Shim’on [Simeão], o filho de Kelofá [Clopas ou Cleopas] - mencionado também pelo texto do Evangelho[1] -, era digno do trono daquela Kehilá [Congregação], por ser primo do Salvador, ao menos segundo se diz, pois Hegésipo refere que Kelofá era irmão de Yosef [José].”

(Ob.Cit, página 60).

 

A escolha de Shim’on ocorreu após a tomada de Jerusalém, ou seja, depois do ano 70 D.C. Evidencia-se que até então a liderança permanecia na mão de judeus, todos da família terrena de Yeshua:

1) o Mashiach é sucedido por Ya’akov, seu irmão de sangue;

2) Ya’kov é sucedido por Shim’on, seu próprio primo e também primo de Yeshua.

Flávio Domiciano foi imperador romano durante os anos de 81 a 96 D.C, desencadeando severa perseguição, no final de seu governo, aos judeus discípulos de Yeshua. Domiciano ordenou a morte de todos os membros da família de David, recaindo a fúria do imperador sobre os descendentes de Yehudá (Judá[2]), que era irmão do Salvador segundo a carne (Ob.Cit, página 62). 

Reproduz-se mais uma vez a narrativa de Hegésipo:

“Da família do Senhor viviam ainda os netos de Yehudá [Judá ou Judas], seu irmão segundo a carne, aos quais delataram por serem da família de David. O evocatus[3] conduziu-os à presença do césar Domiciano, porque este, assim como Herodes, temia a vinda do Mashiach. Perguntou-lhes se descendiam de David; eles o admitiram. Perguntou-lhes então quantas propriedades tinham ou de quanto dinheiro dispunham, e eles disseram que ambos não possuíam mais do que nove mil denários, metade de cada um, e ainda assim afirmaram que não o possuíam em metal, mas que era a avaliação de apenas trinta e nove pletros de terra, cujos impostos pagavam e que eles mesmos cultivavam para viver. Então mostraram suas mãos e juntaram como testemunho de seu trabalho pessoal a dureza de seus corpos e os calos que haviam se formado em suas próprias mãos pelo trabalho contínuo. Perguntados acerca do Mashiach e de seu reino: que reino era este e onde e quando se manifestaria, deram como explicação que não era deste mundo nem terreno, mas celeste e angélico e que se dará no final dos tempos; então Ele virá com toda sua glória e julgará os vivos e os mortos e dará a cada um segundo suas obras[4]. Ante estas respostas, Domiciano não os condenou a nada, mas inclusive desprezou-os como gente vulgar. Deixou-os livres e por decreto fez cessar a perseguição contra a Kehilá [Congregação]. Os que haviam sido postos em liberdade estiveram à frente das Kehilot [Congregações] tanto por terem dado testemunho como por serem da família do Senhor, e retornada a paz, viveram até Trajano.”

(Ob. Cit., página 62).

 

Foi dito que Shim’on ocupou a liderança do Caminho após a morte de Ya’akov. Em relação a Shim’on, Eusébio de Cesareia e Hegésipo afirmam que foi martirizado por meio de crucificação:

“O mesmo escritor [Hegésipo] diz que também outros descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador, de nome Yehudá [Judá/Judas], sobreviveram até este mesmo reinado, depois de ter dado testemunho de sua fé em Yeshua sob Domiciano, como já referimos anteriormente. Escreve [Hegésipo] o seguinte:

‘Vêm pois, e põe-se à frente de toda a Kehilá [Congregação] como mártires e como membros da família do Salvador. Quando em toda a Kehilá [Congregação] se fez paz profunda, vivem ainda até o tempo do imperador Trajano, até que o filho do tio do Salvador, o anteriormente chamado Shim’on [Simeão], filho de Kelofá [Clopas ou Cleopas], foi denunciado e acusado igualmente pelas seitas, também pela mesma razão, sob o governador consular Ático. Durante muitos dias torturaram-no e deu testemunho, de maneira que todos, inclusive o governador, ficaram muito admirados de como continuava resistindo apesar de seus cento e vinte anos. E mandaram crucificá-lo’.”

(Ob.Cit., página 70).

 

Na obra de Eusébio de Cesareia, o autor escreveu que até a época do imperador romano Adriano, que governou de 117 a 138 D.C, a liderança do Caminho em Jerusalém contou sucessivamente com 15 (quinze) zakenim[5] (anciãos), todos judeus circuncisos. Este registro é de extrema relevância, porquanto demonstra que os líderes dos Nazarenos, ao passar dos anos, sempre foram judeus circuncisos, e nunca gentios. Em outras palavras, os sucessores dos “apóstolos” (emissários) na liderança, judeus circuncisos, concentraram suas funções em Jerusalém e jamais outorgaram poder à Igreja Romana.

Transcreve-se a anotação de Eusébio de Cesareia, extraída provavelmente do livro de Hegésipo:

“No que tange às datas dos zakenim [anciãos/“bispos”] de Jerusalém, nada encontrei conservado por escrito, porque, na verdade, uma tradição afirma que tiveram vida muito breve. Do que foi deixado por escrito, consegui tirar a limpo isto: que até o assédio dos judeus, nos tempos de Adriano, houve uma sucessão de zakenim [anciãos/“bispos”] em número de quinze, e dizem que desde a origem todos eram hebreus que haviam aceitado sinceramente o conhecimento do Mashiach, tanto que aqueles que estavam capacitados a julgá-los consideraram-nos até dignos do cargo de zakenim. Naquele tempo, efetivamente, a Kehilá [Congregação] era toda composta por fiéis hebreus, desde os apóstolos até o assédio dos que então restavam, quando os judeus, novamente separados dos romanos, foram vítimas de grandes guerras.

Portanto, como quer que tenham terminado os zakenim [ancião/“bispos”] procedentes da circuncisão naquele momento, talvez seja necessário agora dar sua lista desde o primeiro.

O primeiro, pois, foi Ya’akov [Tiago], o chamado irmão do Senhor; depois dele o segundo foi Shim’on [Simeão]; o terceiro, Tsadik [Justo]; o quarto, Zakkai [Zaqueu]; o quinto, Tobit [Tobias]; o sexto, Binyamim [Benjamim]; o sétimo, Yochanan [João]; o oitavo, Mattityahu [Matias]; o nono, Felipe; o décimo, Sêneca; o décimo primeiro, Tsadik [Justo]; o décimo segundo, Levi; o décimo terceiro, Efrayim [Efraim]; Yosef [José] o décimo quarto e, depois de todos, o décimo quinto, Yehudá [Judá]. Estes foram os zakenim [anciãos/“bispos”] da cidade de Jerusalém, desde os apóstolos até o tempo de que estamos falando, e todos oriundos da circuncisão.

(Ob.Cit., página 78).

 

Frisa-se mais uma vez: até o tempo do imperador Adriano (117 a 138 D.C), a sucessão dos líderes do Caminho ocorreu sempre na cidade de Jerusalém, e todos os 15 (quinze) líderes citados eram judeus circuncisos, ou seja, praticantes da Torá (“Lei”). Desmascara-se a mentira de Roma no sentido de que o “Novo Testamento” aboliu a circuncisão. Não! A circuncisão foi observada normalmente pelos netsarim (nazarenos), inclusive trezentos anos depois de Yeshua há a menção de Epifânio de Salamina:

 “... [os nazarenos] praticam os ritos judaicos da circuncisão, a guarda do sábado, e outros.”

(En Contra de las Herejías, Panarion 29, 7).

 

Vale observar que a lista dos 15 (quinze) zakenim circuncisos é totalmente diferente da lista de “sucessão apostólica” criada pela Igreja Católica. Esta instituição afirma que o primeiro Papa foi Pedro e que este transmitiu o cargo a seu sucessor e que, geração após geração, há a transmissão da autoridade eclesiástica, perdurando até os dias de hoje. Então, para o Catolicismo Romano, o atual Papa é sucessor de Pedro. Porém, a sucessão da liderança jamais saiu de Jerusalém para Roma, e Kefá [Pedro] não foi o primeiro líder, muito menos o primeiro “Papa” – expressão que não existe na Bíblia e é fruto da invenção humana. Compare a verdade e a mentira acerca dos 15 (quinze) primeiros líderes depois de Yeshua HaMashiach:

 

 

A VERDADE

 

O ENGANO

 

Sede da liderança: Jerusalém

 

Sede da liderança: Roma

 

 

Função exercida: zaken (ancião)

 

Cargo eclesiástico: Papa

 

Característica: todos foram judeus circuncisos

 

 

Característica: com exceção de Pedro [Kefá], todos os outros “Papas” foram gentios incircuncisos

 

 

Lista verdadeira dos 15 primeiros Líderes

 

Lista falsa dos 15 primeiros “Papas”

Ya’akov [Tiago]

Pedro

Shim’on [Simeão]

Lino

Tsadik [Justo]

Anacleto

Zakkai [Zaqueu]

São Clemente I

Tobit [Tobias]

Evaristo

Binyamim [Benjamim]

Alexandre

Yochanan [João]

Sisto I

Mattityahu [Matias]

Telésforo

Felipe

Higino

Sêneca

Pio I

Tsadik [Justo]

Aniceto

Levi

Sotero

Efrayim [Efraim]

Eleutério

Yosef [José]

Vitor I

Yehudá [Judá]

Zeferino

 

A verdadeira sucessão de líderes em Jerusalém foi prejudicada com a guerra travada entre judeus e romanos entre os anos de 132 a 135 D.C, na chamada Revolta de Bar Kochba.

Bar Kosiba organizou um exército religioso equivalente a 4 (quatro) legiões romanas como objetivo de expulsar os romanos de Jerusalém e de Israel, criando um Estado independente. Na ocasião, o rabino Akiva mudou o nome de Bar Kosiba para Bar Kochba (“Filho da Estrela”), declarando-o como o Messias de Israel. Após uma vitória temporária por três anos, os judeus foram derrotados por 12 legiões romanas que promoveram ataques a pequenos grupos e vilarejos de civis. No período de três anos de conflito, calcula-se que aproximadamente 850.000 (oitocentos e cinquenta mil) judeus foram mortos pela pelas espadas romanas, por fome ou por doença. Com o término da guerra, o imperador Adriano alterou o nome da província de Yehudá (Judeia) para Síria-Palestina. Também mudou o nome de Jerusalém para Aelia Capitolina, proibindo os judeus de entrar na cidade, sob pena de morte. Por tal razão, desapareceu a liderança judaica em Jerusalém, rompendo-se a cadeia de sucessão dos zakenim, seguidores israelitas de Yeshua HaMashiach.

Entre os anos de 66 a 135 D.C, estima-se que os romanos dizimaram aproximadamente um milhão e quinhentos mil judeus, razão pela qual foi enfraquecido o Judaísmo Nazareno.

Até o século IV há registros históricos expressos sobre a existência dos nazarenos. De lá para cá, as referências são diminutas. Por tal motivo, alguns pesquisadores afirmam que os nazarenos despareceram no quarto século, enquanto outros alegam que o grupo dos netsarim nunca sucumbiu.

Particularmente, pensamos que o ETERNO não permitiu a extinção dos nazarenos, preservando o remanescente fiel de seu povo (Rm 11:4-5).

Agora, no século XXI, está havendo uma grande expansão dos nazarenos pelos quatro cantos da terra, para que se cumpra a profecia de que no final todo o Yisra’el será salvo (Rm 11:26).  



[1] Lc 24:18; Jo 19:25.

[2] Yeshua teve vários irmãos e irmãs. Um deles se chamava Yehudá (Judá), que na língua portuguesa passou a ser chamado de “Judas”, o autor da epístola inserta na B’rit Chadashá (Aliança Renovada/“Novo Testamento”).

[3] Soldado veterano mobilizado para serviço dos magistrados em funções administrativas. 

[4] Mt 16:27; Jo 18:36; At 10:42; Rm 2:6; 2 Tm 4:1. 

[5] No hebraico, Zaken significa “ancião” (plural: zakenim) e se refere à liderança de uma comunidade judaica, que fica nas mãos de pessoa com idade mais avançada, pois no Judaísmo a velhice é considerada salutar e sinal de sabedoria: “Os cabelos brancos são uma coroa de honra obtida através do justo viver” (Mishlei/Provérbios 16:31). No “Novo Testamento” em grego, foi usada a palavra “episkopos” (bispo) no lugar de zaken, assumindo o significado de um cargo eclesiástico. Não obstante, à luz do pensamento semita, zaken (ancião) não indica um cargo, mas sim uma função.

 

 

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