Falsos argumentos cristãos contra a Torá

21/08/2013 09:23

 

FALSOS ARGUMENTOS CRISTÃOS

CONTRA A TORÁ

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Ressaltou-se que a Torá é eterna e deve ser cumprida, contudo, o Cristianismo se vale de vários argumentos para defender a absurda tese de que “a Lei foi revogada”. As principais alegações tomam por base os textos bíblicos em que aparecem as expressões “obras da lei” e “debaixo da lei”, o que já foi estudado em momento anterior. Agora, serão perscrutadas outras teses cristãs acerca da suposta “extinção da Lei”.

 

1ª Falsa Tese cristã: Paulo aboliu a Lei ao afirmar que esta chegou ao fim com Cristo

“Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10:4, Almeida Corrigida e Revisada Fiel).

 

O vocábulo “fim” não tem o sentido de “término, extinção”, mas sim de “finalidade, objetivo”. E esta conclusão se extrai ao se analisar os textos em grego e em aramaico de Rm 10:4, respectivamente:

τελος γαρ νομου χριστος εις δικαιοσυνην παντι τω πιστευοντι     

סָכֵה גֵּיר דּנָמוּסָא משִׁיחָא הוּ לכאִנוּתָא לכֻל דַּמהַימֵן

 

Em grego foi usada a palavra telos (τελος) e em aramaico sake (סָכֵה), sendo que ambas denotam finalidade, objetivo. Então, em Rm 10: 4, Sha’ul quer dizer que o objetivo da Torá é nos levar ao Mashiach, e não que a Torá foi abolida por Yeshua.  

 

2ª Falsa Tese cristã: a Lei traz maldição

“Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10, Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

 

Já vimos que o termo “obras da lei” não significa Torá (Lei), mas sim legalismo. Então, Sha’ul afirmou que os que seguem o legalismo estão debaixo de maldição. Por outro lado, quem cumpre a Torá será abençoado (Dt 28:1-4 e Rm 7:12) e quem a descumpre, amaldiçoado (Dt 28:15-68 e parte final de Gl 3:10). Por conseguinte, a Torá não traz maldição, esta é lançada apenas para os legalistas e desobedientes, e nunca para os fiéis.

 

3ª Falsa Tese cristã: a Lei foi abolida por Cristo na cruz

“Porque ele [Yeshua] é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz.” (Efésios 2:14-15, Almeida Corrigida e Revisada Fiel).

 

Este texto traduzido por João Ferreira de Almeida parece indicar que Yeshua aboliu a Lei (“na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos”). Todavia, como compatibilizar esta tradução com a passagem em que Yeshua disse que não veio para abolir a Lei (Mt 5:17) e com o ensino de Sha’ul no sentido de que a Lei continua válida (Rm 3:31)? Estaria Sha’ul falando uma coisa (Rm 3:31) e logo depois desdizendo (Ef 2:14-15)? Como resolver esta contradição de versículos?

Resposta: a tradução de João Ferreira de Almeida de Ef 2:14-15 não expressa a real mensagem de Sha’ul. Se consultarmos a versão Peshitta em aramaico, língua falada amplamente no primeiro século em Israel, inclusive por Yeshua, enxergaremos claramente o sentido da redação:

הוּיוּ גֵּיר שַׁינַן הַו דַּעבַד תַּרתַּיהֵין חדָא וַשׁרָא סיָגָא דּקָאֵם הוָא בַּמצַעתָא

וַבעֵלדּבָבוּתָא בּבֵסרֵה ונָמוּסָא דּפוּקָדֵא בּפוּקדָּנַוהי בַּטֵל דּלַתרַיהוּן נֵברֵא בַּקנוּמֵה לחַד בַּרנָשָׁא חַדתָא וַעבַד שַׁינָא

TRADUÇÃO DE EF 2:14-15:

“Porque Ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; derrubando o muro que estava no meio. E em sua carne a inimizade, e a tradição[1] de preceitos em seus mandamentos foram abolidos, para em si mesmo poder fazer dos dois um novo homem, estabelecendo a paz.”

 

O texto quer dizer que Yeshua aboliu a tradição de preceitos (regras criadas pelos homens) por meio de seus mandamentos. Com efeito, existem regras que não foram ditadas pelo ETERNO, mas terminaram sendo determinadas por rabinos como se tivessem a mesma força dos mandamentos bíblicos, tratando-se de verdadeiro acréscimo humano às Escrituras. Ora, ninguém tem o poder de acrescer nada à Tora (Dt 4:2 e Dt 13:1 ou Dt 12:32), razão pela qual Yeshua anulou as tradições antibíblicas (Mc 7:8-13). E é justamente este ponto que Sha’ul está abordando em Ef 2:14-15.

Releia a passagem traduzida do aramaico e constate que é usada a palavra “muro”. “Muro” (ou cerca) é o mesmo vocábulo que consta da Mishná: “... construí uma cerca protegendo a Torá” (Avot 1:1). E o que significa?

“Cerca” (ou muro) é uma lei rabínica instituída para prevenir um indivíduo de transgredir a Torá, formando-se, então, uma “cerca” envolta do mandamento para evitar a sua transgressão. Exemplo: o ETERNO proibiu que se transportassem cargas no shabat (Jr 17:21-22). Os rabinos fizeram um acréscimo (cerca/muro) dizendo que, se algo cair de seu bolso durante o shabat (sábado), você não poderá abaixar-se e pegar o objeto, pois este ato seria equivalente a “transportar cargas”. Este acréscimo rabínico, chamado de “muro” ou “cerca”, é totalmente absurdo, e por isso recebeu as críticas de Yeshua. Forneci apenas um exemplo, mas existem literalmente milhares de “cercas” criadas pelo Judaísmo rabínico sem nenhum respaldo bíblico. Tem-se dito, em outros momentos, que Sha’ul lutou contra o legalismo dentro da religião judaica, e este é o tema de Ef 2:14-15. Novamente será citado este texto, traduzido do aramaico, mas agora com interpolações feitas entre colchetes:

“Porque Ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; derrubando o muro [tradições antibíblicas] que estava no meio. E em sua carne a inimizade, e a tradição de preceitos [tradições antibíblicas] em seus mandamentos foram abolidos, para em si mesmo poder fazer dos dois um novo homem, estabelecendo a paz”.

 

Destarte, Sha’ul não contesta a Torá (Lei), mas guerreia contra as legalistas tradições!

E mais: de acordo com a tradição legalista judaica, os gentios eram vistos como seres inferiores[2], existindo inclusive um muro no Templo que impedia o acesso de gentios. Com o cumprimento da missão de Yeshua, esta separação antibíblica acabou, e é por isso que Sha’ul sustenta que de ambos os povos (judeus e gentios) o Mashiach fez um (Ef 2:14), já que YHWH não faz acepção de pessoas.

 

4ª Falsa Tese cristã: o Velho Testamento foi anulado

“14. Mas os seus sentidos foram endurecidos; porque até hoje o mesmo véu está por levantar na lição do velho testamento, o qual foi por Cristo abolido;

15. E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles.

16. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará.

17. Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.” (2ª Coríntios 3:14-17, Almeida Corrigida e Revisada Fiel).

 

Pelo texto transcrito, diz-se que Cristo aboliu o Velho Testamento. Mais uma vez a tradução de João Ferreira de Almeida está equivocada, caso seja contrastada com os manuscritos redigidos na língua falada pelos nazarenos no primeiro século - o aramaico[3]. Traz-se à baila a Peshitta (aramaico):

אֵלָא אֵתעַוַרו בּמַדּעַיהוּן עדַמָא גֵּיר ליַומָנָא אֵמַתי דּדִיַתִקאִ עַתִּיקתָּא מֵתקַריָא הִי הָי תַּחפִּיתָא קָימָא עלַיהוּן ולָא מֵתגַּליָא דּבַמשִׁיחָא הוּ מֵתבַּטלָא

וַעדַמָא ליַומָנָא אֵמַתי דּמֵתקרֵא מוּשֵׁא תַּחפִּיתָא עַל לֵבּהוּן רַמיָא

וֵאמַתי דּאנָשׁ מֵנהוּן נֵתפּנֵא לוָת מָריָא מֵשׁתַּקלָא מֵנֵה תַּחפִּיתָא

מָריָא דֵּין הוּיוּ רוּחָא וַאתַר דּרוּחֵה דּמָריָא חאִרוּתָא הי

 

TRADUÇÃO de II Co 3:14-17:

14. Mas eles estão cegos em suas mentes até hoje. Quando leem a Antiga Aliança, o véu permanece sobre eles, e não percebem que através do Mashiach o véu é removido.

15. Até hoje, quando Moisés é lido, o véu permanece cobrindo seus corações.

16. Porém, sempre que alguém se volta para YHWH, o véu é removido.

17. Ora, YHWH é Ruach [o “Espírito Santo”], e onde está a Ruach de YHWH, aí há liberdade”.

 

Na passagem corretamente traduzida, o Mashiach retira o véu para que o homem consiga enxergar a verdade, e isto não tem nada que ver com a abolição da Torá. E qual é o véu que impede o homem de entrar em comunhão com YHWH? É o pecado, como escreveu o profeta Yeshayahu/Isaías: “Todavia, são as suas transgressões que os separam de Elohim; seus pecados escondem-lhe o rosto de vocês” (Is 59:2). Assim, Sha’ul (Paulo) leciona que quando alguém retorna para YHWH, ou seja, abandona seus pecados, então, o véu é removido pelo Mashiach Yeshua (II Co 3:14 e 16).

Se os israelitas lerem a Torá (“Antiga Aliança”[4]) com cegueira (II Co 3:14), que nada mais é do que o legalismo, o véu do pecado continuará sobre eles. Contudo, quando há o verdadeiro arrependimento e a pessoa retorna aos braços do ETERNO, Yeshua extingue o véu do pecado, e as pessoas passam a desfrutar de um verdadeiro relacionamento com YHWH. Outrora, o homem estava escravizado pelo pecado, agora, após ser liberto deste, pode desfrutar da presença da Ruach (Espírito) de YHWH (II Co 3:17).

Conclusão: de acordo com o texto original de II Co 3:17, Yeshua veio para abolir o véu do pecado, e não para abolir a Torá.

 

5ª Falsa Tese cristã: a Lei foi abolida, tanto é que ocorreu sua alteração

“Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei.

Porque aquele de quem estas coisas se dizem pertence a outra tribo, da qual ninguém serviu ao altar,

Visto ser manifesto que nosso Senhor procedeu de Judá, e concernente a essa tribo nunca Moisés falou de sacerdócio.

E muito mais manifesto é ainda, se à semelhança de Melquisedeque se levantar outro sacerdote,

Que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível.

Porque dele assim se testifica: Tu és sacerdote eternamente, Segundo a ordem de Melquisedeque.

Porque o precedente mandamento é ab-rogado por causa da sua fraqueza e inutilidade.” (Hebreus 7:12-18, Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

 

Analisando-s o contexto da passagem transcrita (vide Hb 4:14 a Hb 7:28), o autor de Ivrim/Hebreus está afirmando que o Mashiach é kohen hagadol (sumo sacerdote) superior aos kohanim (sacerdotes) de descendência levítica. Para justificar este raciocínio, pauta-se nos seguintes argumentos: a) o Mashiach é Filho de Elohim e existe desde a eternidade (Hb 5:5-6), enquanto os outros sacerdotes são apenas homens; b) Yeshua nunca pecou (Hb 4:15), e os outros sacerdotes eram pecadores; c) ainda que Yeshua não seja da tribo de Levi, exerce sacerdócio, porque MalkiTsedec (Melquisedeque) era sacerdote do ETERNO antes da instituição do sacerdócio levítico, e Yeshua é kohen hagadol (sumo sacerdote) à imagem de MalkiTsedec (Hb 5:5-6, 10 e 7:1-7); d) os sacerdotes humanos eram pecadores e ofereciam sacrifícios por si e pelo povo, Yeshua é perfeito e ofereceu a si mesmo como sacrifício para sempre (Hb 7:23-28). É neste contexto que o autor de Ivrim escreveu os versículos acima reproduzidos: “mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei... Porque o precedente mandamento é ab-rogado por causa da sua fraqueza e inutilidade” (Hb 7:12 e 18). E qual o sentido deste escrito?

Que se tornou inaplicável atualmente a regra de sacrifício de animais para a expiação de pecados, já que o sacrifício de Yeshua foi perfeito e definitivo. Então, o que é “ab-rogado por causa de sua fraqueza e inutilidade” é o sacrifício de animais, e não a Torá.  Por sua vez, a “mudança de lei” está ligada à alteração do sacerdócio, que antes era humano (levítico) e imperfeito, e que agora pertence ao Sumo Sacerdote Yeshua HaMashiach. 

 

6ª Falsa Tese cristã: a Antiga Aliança foi abolida

Porque, se aquela primeira fora irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para a segunda.

Porque, repreendendo-os, lhes diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que com a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerei uma nova aliança,

Não segundo a aliança que fiz com seus pais No dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; Como não permaneceram naquela minha aliança, Eu para eles não atentei, diz o Senhor.

Porque esta é a aliança que depois daqueles dias. Farei com a casa de Israel, diz o Senhor; Porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; E eu lhes serei por Deus, E eles me serão por povo;

E não ensinará cada um a seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; Porque todos me conhecerão, Desde o menor deles até ao maior.

Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais.

Dizendo Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar.” (Hebreus 8:7-13, Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

 

Perceba o final do texto: a Primeira Aliança ainda não acabou, mas “perto está de acabar”. Logo, permanece vigente a Primeira Aliança, cujo fim ocorrerá com o retorno de Yeshua e a inauguração de seu reinado milenar na terra. O próprio Mashiach disse que as palavras na Torá permaneceriam “até que os céus e a terra passem” (Mt 5:18), e é obvio que ainda não foram criados os novos céus e a nova terra (Is  65:17-19 e 66:22-24; Ap 21).

  É preciso enfatizar um fato desconhecido por muitos: o ETERNO fez com Moshé (Moises) 2 (duas) Alianças, e não uma. Indo direto ao ponto: YHWH firmou com Moshé uma Aliança no monte Sinai, chamado de Horev (Horebe), que é a Primeira Aliança, e outra Aliança no monte Mo’av (Moabe), que é a Nova Aliança (ou Aliança Renovada):

“Estas são as palavras da aliança que YHWH ordenou a Moshé [Moisés] estabelecer para o povo de Yisra’el na terra de Mo’av [Moabe], além da aliança feita com eles em Horev.” (Dt 28:69; versões cristãs: Dt 29:1).

 

O verso indica que fixou YHWH com Moshé uma aliança em Horev (Sinai) e outra em Mo’av (Moabe). Este é o entendimento de Rashi, considerado um dos maiores exegetas do Judaísmo, e do rabino nazareno James Trimm:

“... além da aliança [ou seja], as maldições [que aparecem] em Levítico (26: 14-39), que foram proclamadas no [Monte] Sinai”. (Rashi sobre Dt 28:69).

“Muitos de nós têm perdido uma importante verdade. A Nova Aliança está ao longo de toda a Torá! E esta surpreendente verdade é uma chave importante para compreender os escritos de Paulo. Há de fato duas alianças na Torá e duas alianças mosaicas.” (James Trimm. Nazarene Theology, 2007, página 216).

 

Devem-se distinguir as duas Alianças pactuadas entre YHWH e Moshé:

a) a Primeira Aliança, firmada no monte Horev (Sinai), cujos termos essenciais estão descritos em Shemot/Êxodo 19 a 24;

b) a Segunda Aliança (Nova Aliança/Aliança Renovada), instituída no monte Mo’av (Moabe), cujas cláusulas se situam em Devarim/Deuteronômio 28:69 a 30:20 (versões cristãs: Dt 29 a 30) e em Yirmeyahu/Jeremias 31:30-33 (versões cristãs: Jr 31:31-34).

A Segunda Aliança (Nova Aliança) foi centrada em torno do arrependimento de Yisra’el  (Dt 30:2,8), e suas cláusulas incluem:

1) a Nova Aliança (Aliança Renovada) é feita com a Casa de Yisra’el e com a Casa de Yehudá (Judá), ou seja, com o total das 12 tribos de Yisra’el (Jr 31:30; versões cristãs: Jr 31:31). OBS: esta promessa ainda não foi cumprida, porque Yisra’el como um todo ainda não se arrependeu e reconheceu Yeshua como Mashiach;

2) a promessa de um reagrupamento de Yisra’el de entre as nações (Dt 30:3-4). OBS: promessa parcialmente cumprida, visto que a maioria dos israelitas estão dispersos entre as nações;

3) uma promessa de viver na terra prometida a Yisra’el (Dt 30:5). OBS: atualmente, o Estado de Israel não ocupa a totalidade da terra que YHWH prometeu aos patriarcas, logo, esta promessa também não foi cumprida.

4) um coração circuncidado (Dt 30:2,6). OBS: tal cláusula não se consumou, porquanto Yisra’el ainda não reconheceu Yeshua HaMashiach;

5) a Torá será escrita no coração do povo de Yisra’el (Jr 31:32, versões cristãs: Jr 31:33). OBS: coletivamente, Yisra’el não se arrependeu e não guarda a Torá em espírito e em verdade;

6) Yisra’el seria o seu povo e Ele seria o seu Elohim (Dt 29:12; versões cristãs: Dt 29:13; Jr 31:32, versões cristãs: Jr 31:33). OBS: o pecado de Yisra’el e a ausência do arrependimento coletivo indicam que ainda se cumprirá esta profecia.

7) todos os mandamentos da Torá seriam obedecidos pelo povo (Dt 30:8), razão pela qual o pecado e a morte iriam desaparecer. OBS: tal cláusula ainda não se cumpriu.

8) promessa de vida (Dt 30:6,15,19). Já que atualmente todos nós já vivemos, a promessa de “vida” se refere à vida eterna, até em função do desaparecimento do pecado que há de ocorrer. OBS: somente quem concede a vida eterna é Yeshua HaMashiach. Já que Yisra’el como um todo não o aceita, ainda não se consumou a profecia de que “todo o Yisra’el será salvo” (Rm 11: 26).

Yeshua derramou seu sangue para ratificar esta Segunda Aliança feita com Moisés, que é a Nova Aliança/Aliança Renovada (Mt 26:28). Porém, como vimos nos oito tópicos acima, as profecias ainda não foram cumpridas, razão pela qual a Nova Aliança somente concretizará todos os seus efeitos no futuro.

Por tal razão, se a Nova Aliança (Aliança Renovada) ainda não se consumou, conclui-se que estamos vivendo na Primeira Aliança, apesar de Yeshua ter iniciado o processo da Nova Aliança que culminará com o seu retorno para reinar sobre toda a terra.  Com a segunda vinda do Mashiach e a implantação do milênio de shalom (paz), a situação do homem na terra será infinitamente melhor do que a situação atual.

Firmado nestes conceitos apresentados, torna-se fácil compreender Ivrim/Hebreus 8:13: “Dizendo Nova Aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar”.  Não é a Torá que acabou, mas sim a Primeira Aliança que chegará ao fim quando Yeshua concretizar todas as profecias da Nova Aliança, e retornar para reinar na terra.

Vale lembrar que a Nova Aliança está descrita na Torá, inexistindo, pois, oposição entre ambas. Em outras palavras, é equivocado o pensamento cristão de que a Nova Aliança se opõe à Torá. Verdadeiramente, a Nova Aliança foi prevista pela Torá para que o homem possa cumprir todos os mandamentos da própria Torá (Dt 30:8) e, então, desaparecerá de vez o pecado da face da terra (recorde-se: pecado = violação da Torá).  

Com efeito, o Judaísmo rabínico ensina que, no reino do Messias, a Torá estará escrita no circundado coração do homem, e este não terá mais o desejo de fazer o mal, somente conseguirá praticar o bem. Ramban (Rabi Moshe ben Nachman), que viveu entre 1194 a1270 D.C, ao escrever monumental obra sobre a Torá, estabelece uma ligação entre a “Nova Aliança” prevista na Torá e os “dias do Messias” (interpolações entre colchetes):

 “E YHWH teu Elohim circuncidará o teu coração (Dt 30:6). É isso que os Rabinos dizem: ‘Se alguém vem a purificar-se, eles o ajudarão’ [do] alto. O verso garante que você vai voltar a Ele de todo o coração e Ele vai te ajudar.

Este assunto seguinte é muito aparente das Escrituras: desde o tempo da Criação, o homem teve o poder de fazer o que quisesse, para ser justo ou perverso. Este [concessão de livre arbítrio] se aplica igualmente ao período de Torá, para que as pessoas possam receber o mérito pela escolha do bem e punição por preferir o mal. Mas, nos dias do Messias, a escolha do bem será natural, o coração não desejará o impróprio e não terá qualquer desejo por isto. Esta é a ‘circuncisão’ mencionada aqui, para a luxúria e o desejo que são o ‘prepúcio’ do coração, e a circuncisão do coração significa não cobiçar ou desejar o mal”.

 

Para Ramban, a Nova Aliança se consumará nos dias do Messias, que restaurará o homem ao estado antes da queda:

“Naquele momento, o homem voltará ao que era antes do pecado de Adão, quando por sua natureza ele fazia o que era correto, e não havia desejos conflitantes em sua vontade, como já expliquei no Sefer Bereshit [Livro de Gênesis]”.

 

E prossegue Ramban ao dissertar sobre a Nova Aliança descrita pelo profeta Yirmeyahu/Jeremias:

“Esta é uma referência à anulação do instinto do mal e ao natural desempenho do coração para sua própria função. Portanto, Yirmeyahu [Jeremias] disse ainda: e eu serei o seu Elohim, e eles serão o meu povo, e eles não devem ensinar mais cada um a seu próximo, e cada um a seu irmão, dizendo: ‘Conheça YHWH’, porque todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior.

Agora, sabe-se que a inclinação do coração do homem é má desde a sua juventude e é necessário instruí-lo, mas, nesse momento, não será necessário instruí-lo [para evitar o mal], porque seu instinto para o mal será completamente abolido. E é por isso que Yechezk’el [Ezequiel] declara: ‘um coração novo eu também vou lhe dar, e um novo espírito porei dentro de vocês, e farei que andem nos meus estatutos’ (Yechezk’el/Ezequiel 36:26)”.

 “O novo coração alude à natureza do homem, e o [novo] espírito ao desejo e à vontade. É isso que nossos rabinos disseram: ‘E se aproximam os anos quando você irá dizer: não tenho prazer neles; estes são os dias do Messias, pois não haverá lugar nem para o mérito nem para a culpa’, pois nos dias do Messias não haverá [mal] desejo no homem, mas ele vai naturalmente executar as ações adequadas e, portanto, não haverá mérito nem culpa neles, pois mérito e culpa são dependentes de desejo”.

 

Já que o homem não mais pecará quando chegar o reinado do Mashiach na terra, Ramban considera a Nova Aliança melhor do que a Primeira, e é neste contexto que dever ser lido e interpretado o texto de Ivrim/Hebreus 8:7-13.

 

7ª Falsa Tese cristã: a Lei de Cristo anulou a Lei de Moisés

“Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2, Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

 

Sha’ul está dizendo que Yeshua HaMashiach livrou o homem da “lei do pecado e da morte”, e não da Torá. Sem Yeshua, o homem é escravo do pecado. Agora que o reconhece e o segue, recebe um “novo espírito” que lhe dá forças para abandonar o pecado (= transgressão da Torá).

 

Conclusão

 

Os principais argumentos utilizados por teólogos cristãos para sustentar que a “Lei foi abolida” são frágeis como castelos de areia. Consoante já exposto, Yeshua confirmou a validade da Torá (Mt 5:17-19) e este conceito consta em todas as Escrituras, inclusive nos manuscritos de Sha’ul (Rm 3:31, dentre outros). Se não bastasse, já foram citados historiadores dos primeiros séculos atestando que os netsarim (nazarenos) guardavam a Torá.

 

 


[1] A palavra “namusa” pode assumir o sentido de tradição ou costume, tal como é usada em At 28:17. Ao comentar Ef 2:15, o aramaicista Andrew Gabriel Roth explica que namusa se refere a “costumes” adotados pelas tradições dos fariseus, e não a Torá (Aramaic English New Testament, 4ª edição, página 580, nota de rodapé nº 22).

[2] Lastimavelmente, o Talmud equipara o gentio a um animal: “A relação sexual de um gentio é igual à de uma besta” (Sanhedrin 74b); “Todos os filhos dos gentios são animais” (Yebamot 98a); “Matar gentios é como matar um animal selvagem” (Sanhedrin 59a).

[3] As línguas faladas em Israel no primeiro século eram o hebraico e o aramaico e, com toda certeza, eram de domínio de Yeshua e dos nazarenos, conforme atestam os mais abalizados historiadores.

[4] Aqui, “Antiga Aliança” não tem o sentido de ultrapassada, revogada, e sim de ser uma Lei datada da antiguidade. Com efeito, a Torá vigora por milênios e, assim, é considerada um documento antigo.

 

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